Cabanas, dez anos depois


Pedro Correia,

 

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes? Uma década depois, regresso a Cabanas e sinto-me como se nunca tivesse trocado este magnífico cenário de férias por nenhum outro. Do apartamento onde estou, vislumbro três níveis diferentes de água: num primeiro plano a piscina, sobrevoada por andorinhas ao amanhecer e cegonhas ao fim da tarde; num plano intermédio, a Ria Formosa, que cada vez faz mais jus ao seu nome; além de tudo, o oceano. À varanda, chega-me o ruído compassado das ondas do mar enquanto os barcos de pesca circulam em várias direcções, preparando-se para abastecer os restaurantes. Amanhã, uma vez mais, o maior dilema será a escolha do local onde jantar. No Pedro, ensopado de enguias ou arroz de lingueirão. No Ideal, a insuperável sopa do mar em pão de trigo alentejano. N’ A Fonte, o inevitável peito de pato com mel. E no restaurante Noélia e Jerónimo, no extremo oriental da freguesia, há raia de alhada, açorda de conquilhas e pataniscas de polvo com arroz de coentros. A saborear tranquilamente na esplanada enquanto o sol declina no horizonte.

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes?

30 comentários em “Cabanas, dez anos depois”

  1. Inveja, Pedro.
    E umas ameijoas + ostras em Cacela a Velha ?
    E o Costa em Fábrica, ao almoço sem as enchentes do jantar.
    E não está longe de Santa Luzia par dar uma saltada ao Capelo.
    Boas férias e que as goze.

    1. Caro António: as saudades de Cabanas eram tantas que desta vez não fui à Praia Verde, nem à Chaminé (em Altura), nem ao Capelo, nem sequer às amêijoas de Cacela-a-Velha. Mas têm sido umas férias óptimas também do ponto de vista gastronómico.
      Obrigado pelos votos amigos. Espero que também não tarde fazer-lhe uma visita ao ‘seu’ Alentejo.

  2. Pedro, caríssimo,
    nem sei que diga, por onde comece, como escarrapachar toda a minha revolta por esta desigualdade absolutamente inaceitável num país que fez Abril exactamente para acabar com este tipo de situações…

    logo em primeiro lugar temos o tom da prosa: o suave vislumbrar, as andorinhas, o amanhecer e as gaivotas, tudo junto uma afronta a todos os stressados cá da terra, discussão conjugal logo pela manhã, os putos a berrar, atrasados para o emprego e suando em bica nos engarrafamentos do costume… isto enquanto certas pessoas vislumbram três níveis diferentes de água, num primeiro plano a piscina, num plano intermédio a Ria Formosa, e além de tudo o oceano!!! Credo, que tortura.

    depois temos o grande dilema de certas pessoas, o maior dos problemas do dia: a escolha do local onde jantar!!, mais ou menos aquilo que preocupa o português médio, claro, que leva o dia inteiro a pensar se há-de ser ensopado de enguias ou arroz de lingueirão, sopa do mar em pão de trigo alentejano ou peito de pato com mel… ou então se, em desespero de causa, deverá ter de contentar-se com uma modesta raia de alhada ou mesmo fazer o supremo sacrifício de deglutir uma açordinha de conquilhas e pataniscas de polvo com arroz de coentros.

    Oh, destino cruel, vida madrasta esta que nos empurra para uma sopa a correr na tasca da esquina enquanto certas pessoas podem saborear tranquilamente o seu petisco na esplanada enquanto o sol declina no horizonte…

    Por isso te digo, caríssimo amigo, devia haver uma lei, duas leis, enfim, dez leis ou todo um painel de legisladores para pôr ordem neste abuso de sorte que certas pessoas disfrutam enquanto os outros labutam… era o regresso da Inquisição, é o que era, um Salazar em cada esquina do Algarve, ou mesmo dois, sei lá, só sei que nada sei e que isto não é justo. Não é justo, é tudo o que eu tenho a dizer, it’s an injustice, it is, (Calimero dixit e eu subscrevo, se for preciso arranjo uma casca de oivo para dar mais força ao protesto)…

    Pronto, já está! Ufff. Sinto-me um nadita mais aliviado, agora. Já estou até em condições de te desejar umas boas férias, caríssimo. E não ligues, não passes cartão aos comentários de inveja que certas pessoas possam escrever, esses ingratos desabafos que têm uma única causa, uma só e mais nenhuma: dôr de cotovelo, é o que é.

    abraço-te, veraneante, fazendo votos que tenha conseguido arrancar-te um sorriso com tanto disparate

    boas vacances

    RVN

  3. Sábias férias, no sotavento e fora de Agosto! O ano passado jantei divinamente por aí, “a-ver-tavira”, e não me arrependi nada de ter subido até à matriz e arriscado num sítio …. óbvio.

    1. Foi onde almocei hoje, Laura. Com Tavira a meus pés, salvo seja. E devo dizer-te que já passei férias óptimas no Algarve em Agosto, em praias quase sem ninguém. Basta saber escolher. Mas Junho de 2011 foi excelente por estas bandas.

  4. Carissimo,

    Sim sim, faço minhas as palavras do anterior comentário: Que inveja!

    Aproveite bem, descanse e alhei-se um pouco.

    Melhores desejos de boas ferias a todos em casa,

    1. Eheh. Ó Sérgio, ainda hoje, passando por Faro, estive quase a desafiar-te a uma incursão gastronómica nas redondezas. Ficará para uma próxima oportunidade. Não faltarão, tenho a certeza.

  5. Pronto, já estou com fome! Bolas. E ainda por cima fiquei com muuuuita vontade de experimentar essas pataniscas de polvo, que nunca comi… não se faz, Pedro. O Rui Vasco Neto tem toda a razão, é imoral!

    Resigno-me. Boas férias e aproveita isso tudo muito bem! 🙂

    1. Não direi tanto, João, mas aqui há no Sotavento há seguramente algumas das melhores praias da Europa. Para quê fazer férias de praia fora de Portugal em geral e do Algarve em particular?

  6. Fantástico! Daqui a uns dias vou tb para esses lados. A frase de não ser bom voltar aos locais onde já fomos felizes não faz grande sentido; aliás, por cá costuma ser usada principalmente na política, área bastante mal frequentada.

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