Crónicas maiorquinas (6)


Pedro Correia,

  • Além da catedral, há muitas igrejas em Palma – como acontece em todas as grandes cidades espanholas. À entrada e à saída das missas, vêem-se mulheres de mãos estendidas, a pedir esmola. São magrebinas, de véu islâmico. Interrogo-me: haverá cristãos a pedir esmola às portas das mesquitas nos países que seguem o islão?
  • O Corte Inglés ocupa um quarteirão inteiro de Palma de Maiorca, na zona central da cidade. Bate certo. É um símbolo perfeito da Espanha contemporânea. A Espanha frívola e consumista, onde o cartão de crédito substitui o espírito de poupança. A Espanha que vive cada dia como se não houvesse amanhã.
  • Crónicas maiorquinas (5)


    Pedro Correia,

     

    Come-se muito bem em Maiorca. E a preços extremamente razoáveis. Há mais de dez anos que aqui não vinha e não me apercebo que o custo de vida – na perspectiva de um turista – esteja pior. Antes pelo contrário.

    Aconselho o pescado: há excelente peixe por cá, cozinhado na parrilla ou con salsa. E marisco de todo o género – lagosta, lavagante, camarão, amêijoa. Do mar saem os grandes trunfos da culinária balear – este convidativo Mediterrâneo muito azul já a convidar a bons mergulhos. Por mim, o que mais aprecio são as paellas de marisco. Os melhores locais para as saborearmos em Palma de Maiorca são os bairros marítimos de Portitxol e Es Molinar, no prolongamento para leste da avenida marginal. Também no Paseo Mallorca e nas imediações do popular Mercado del Olivar não faltam bons restaurantes para apreciar a cozinha maiorquina, mediterrânica, catalã, valenciana, italiana e das mais diversas proveniências. Acompanhada com excelente vinho da Catalunha, que aqui se encontra a preços muito convidativos.

    Crónicas maiorquinas (4)


    Pedro Correia,

     

    Por estes dias, um dos locais de maior atracção turística em Palma de Maiorca é a sumptuosa mansão do ex-presidente do Governo balear, Jaume Matas, antigo ministro do Ambiente de José María Aznar. Acusado de enriquecimento ilícito e peculato pelo Ministério Público espanhol, Matas arrisca uma pesada pena de prisão a menos que consiga provar detalhadamente como atingiu o nível de vida luxuosíssimo que passou a exibir após ter liderado o Executivo das Baleares. Espantoso: uma investigação exaustiva permitiu concluir que nos últimos três anos só levantou 450 euros das contas bancárias, o que suscita todo o género de suspeições sobre a origem dos seus proventos. O juiz fixou-lhe entretanto a fiança em três milhões de euros – a mais alta de sempre para um político espanhol.

    Os jornais catalães que aqui vou lendo, como El Periódico, dedicam sucessivas manchetes ao assunto. Uma delas com um título muito bem conseguido: “Jaque a Matas”. No mesmo jornal, Jordi Nieva Ferroll – professor de Direito Processual da Universidade de Barcelona – alerta: as autoridades que investigam crimes em Espanha recorrem excessivamente às escutas telefónicas, existindo por outro lado um preocupante “vazio legal” no acesso da polícia a mensagens de correio electrónico. Vivemos numa época em que “vale tudo” em matéria de violação da privacidade, sublinha o professor. Que acentua: “Um estado totalitário é aquele em que a privacidade dos cidadãos desaparece.”

    Isto faz-vos lembrar alguma coisa?

    Crónicas maiorquinas (3)


    Pedro Correia,

     

    O que fazer por cá? Desde logo, um circuito pedestre. Palma é uma cidade plana, que se percorre bem a pé. Não falta também quem prefira a bicicleta. Há aqui o culto do pedal, incentivado pela existência de vastas áreas próprias para o efeito: é raro o espaço da capital balear não abrangido por ciclovias. O extenso Paseo Marítimo, muito maior do que a marginal do Funchal, é um desfile constante de gente a pedalar e a patinar. Faz-me lembrar Copacabana. Com a diferença de que no Rio há praia mesmo defronte do asfalto e em Palma só existe mar.

    Então e ver o quê? Desde logo, a soberba catedral gótica, começada a construir no século XIII, monumental até para os padrões de Espanha. Mesmo ao lado, o Palácio da Almudaina, residência de origem islâmica que foi habitada pelos monarcas medievais do Reino de Maiorca. E é indispensável visitar as igrejas de São Francisco e Santa Eulália, nas belas praças que têm os mesmos nomes. Vale a pena também subir ao Castelo de Bellver, no extremo ocidental da cidade, onde se desfruta o mais deslumbrante panorama de Palma de Maiorca. Importante ainda é uma deslocação à Fundação Pilar e Joan Miró, onde se situava o estúdio do artista catalão, que faleceu em Palma e está representado não só aqui mas também no museu de arte contemporânea da cidade, que exibe igualmente algumas das mais interessantes peças de cerâmica de Picasso.

    Crónicas maiorquinas (2)


    Pedro Correia,

     

    Palma de Maiorca, só por si, já merece uma visita. É uma das mais belas cidades espanholas – não apenas pelo magnífico cenário natural mas também pelo lastro histórico que aqui se foi sedimentando ao longo dos séculos, imprimindo características únicas à sua traça urbana. As Baleares orgulham-se justamente de terem sido um importante entreposto nas rotas comerciais do Mediterrâneo, desde o tempo dos fenícios, passando pelos romanos, vândalos e árabes. Mantiveram uma cultura própria, muito ligada à catalã, e resistiram a vários invasores. Os últimos, antes da chegada em força do turismo europeu na década de 60, foram as tropas expedicionárias de Mussolini: no arquipélago desenrolaram-se alguns dos mais sangrentos episódios da Guerra Civil de Espanha, como Bernanos documenta no seu livro Os Grande Cemitérios sob a Lua. Os tempos, felizmente, são agora bem mais pacíficos. E a única batalha actual – tirando a que se relaciona com a crise económica, pois há hoje 112 mil desempregados nas Baleares – é a linguística. A autonomia balear fez da língua catalã uma bandeira – ainda mais do que na própria Catalunha. É frequente os anúncios, os sinais de trânsito e os próprios folhetos que nos entregam em terminais rodoviários ou ferroviários estarem escritos apenas em catalão, o que indigna muitos madrilenos. Alguns protestam, em jornais como El Mundo, dizendo que sentem aqui uma atmosfera estrangeira. Ora eis o que nunca poderemos dizer da nossa Região Autónoma da Madeira, por mais esforços em contrário que faça Alberto João Jardim, candidato falhado a “libertador” da Pérola do Atlântico.

    Crónicas maiorquinas (1)


    Pedro Correia,

     

    Meia estação em Maiorca: nada das enchentes estivais. Circula-se à vontade em Palma, há lugar a qualquer hora em qualquer restaurante, os preços são convidativos: este é o lado bom da crise. Contemplo a belíssima baía da varanda do meu hotel, em Porto Pí: estou no alto de uma encosta, o panorama é soberbo. Paquetes de cruzeiros atracados no porto, largas dezenas de iates na marina, uns veleiros cruzando o horizonte. A televisão informa-me: prossegue o mau tempo na generalidade da Europa. Nada que afecte este reduto mediterrânico, soalheiro e já com temperaturas superiores a 20 graus. Turistas banham-se na piscina: ninguém diria que há dois meses a cidade onde os reis de Espanha têm a residência de férias chegou a estar coberta de neve. Entre os turistas que deambulam pelo casco histórico – o maior da Europa, como gostam de sublinhar os maiorquinos, com aparente exagero – vêem-se muitos alemães, bastantes italianos, alguns ingleses. Mas há sobretudo espanhóis do continente, com a sua ruidosa jovialidade e com uma capacidade de comunicar com estranhos bem maior do que a dos portugueses. “Hola”, cumprimentam invariavelmente à entrada de um elevador. “Hasta luego”, dizem à partida.

    Não vejo um só português por cá. Aos olhos lusitanos, estranhamente, as Baleares não são um destino da moda. Ainda bem.

    Até já


    Pedro Correia,

     

    Vou mergulhar algures por aí, aproveitando estes dias de bom tempo. Durante quase duas semanas deixo-vos com a minha selecção de praias, que vão aqui aparecendo a um ritmo diário, e com algumas expressões que detesto, que também surgirão com regularidade. A rubrica Ligação Directa, que se mantém sem interrupções (nem repetições) desde o primeiro dia deste blogue, irá igualmente continuar mesmo comigo em férias: ficou tudo programado para o efeito. Apesar do calor, convém que não se perca a pedalada.

    Então até já.

    Tavira, a minha terra


    Pedro Correia,

     

    Há cidades e vilas portuguesas onde me sinto sempre bem. Viana do Castelo, por exemplo, que há muito pertence ao meu roteiro afectivo. O Fundão, Castelo Branco e Coimbra, onde tenho as minhas raízes mais fundas. Mas também Chaves, Torre de Moncorvo, Amarante, Vila do Conde, Guimarães, Figueira da Foz, Tomar, Óbidos, Sintra, Castelo de Vide, Marvão, Évora, Alcácer do Sal, Mértola, Funchal, Horta.

    E ainda Tavira, aonde regresso agora. Quase não se vê um turista: estamos ainda na ‘época baixa’. Mas esta cidadezinha é sempre acolhedora. Com os seus largos, os seus jardins, as suas encostas, as suas igrejas, o seu castelo. A "casa de pasto" que anuncia meias doses a 3,5 euros. A Vela 2, onde já comi algum do melhor peixe grelhado que guardo na memória. A livraria Quinito, onde passo sempre para me abastecer de livros – acabo de trazer de lá um de Juan José Millás (O Mundo), outro de Rosa Montero (Instruções para Salvar o Mundo). O cineteatro, onde ontem à noite vi um filme interessantíssimo: A Onda (Die Welle), do alemão Dennis Gansel. O mercado, o rio, a ponte, a magnífica pousada, a geladaria de sempre, os ninhos das andorinhas no edifício do tribunal, os rostos que já me parecem familiares.

    Há aqui uma certa doçura de viver que cada vez encontro menos em qualquer outro lugar. É também por isso que venho a Tavira com tanta frequência: apetece-me chamar minha a uma terra como esta.