Cabanas, 28 de Abril


Pedro Correia,

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado “duas sopinhas” e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. “O Arbeloa está lesionado mas o Messi não”, argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português – o futebolístico – já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs…

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

37 comentários em “Cabanas, 28 de Abril”

  1. Também lá estava ainda esta manhã, é uma descoberta tardia mas também já é há três anos o meu pedaço do paraíso (diz que é melhor precaver-se e procurá-lo em vida). Só ainda não provei as famosas pataniscas de polvo…

  2. Gostei muito do texto. Boas férias e um pedido: que tal partilhar os contactos desses tascos e restaurantes aí de baixo onde se come bem? Obrigado.

  3. “Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?”

    … só pode ser excepção no reino dos Algarves, sabe-se bem que essas nomeações calham sempre aos lojistas.

  4. Bela terra Pedro. Por aí passei também alguns anos de férias , é ainda a terra de férias de verão dos meus pais. E a Noélia tem mesmo uns bons petiscos. Boas férias.

    1. Eu gosto de esticar o Verão, Tiago. É um faz de conta que funciona: começar em Abril e não terminar senão em Outubro.
      Sem enchentes, sem confusões, sem tráfego, sem correrias. Preços mais baratos e lugar em todos os restaurantes. Com tempo e espaço para tudo.
      Outras terras têm-se estragado ou decepcionam-nos por algum motivo. Cabanas não. Por isso gosto sempre de voltar.

  5. De regresso da Beira Baixa, Lisboa parece tenebrosa. Deixa-te ficar por aí, sempre te vais lambuzando com os “D.Rodrigo” ou uns queijos de amêndoa.
    Quanto ao polvo gosto dele mais em arroz. Feito por mim, obviamente.
    Boas férias.

  6. Já provei essas pataniscas e confirmo que são excelentes. Passo as férias do Verão nessa zona há quase trinta anos e a praia do Cabeço tem sido a nossa eleita para os banhos de mar. Infelizmente não posso gozar férias nesta altura do ano, quando há muito menos confusão no Algarve, mas sempre que posso dou lá um saltinho. Quanto a outros restaurantes, posso indicar “A Chaminé” e “Marés” (onde fazem uns óptimos filetes de pescada com arroz de marisco) em Altura, e “A Camponesa” (mais conhecido por Índio) em Vila Nova de Cacela, onde se come bom peixe grelhado . Boas férias, Pedro.

    1. Gosto muito da Chaminé: vale a pena ir a Altura só para lá almoçar ou jantar. E dos Pezinhos na Areia, na Praia Verde. E de comer em Cacela. E, por cá, além da Noélia também recomendo o Pedro e o Ideal (atenção às marcações porque são restaurantes que estão sempre cheios nos meses de Verão).
      Obrigado, Ju. Beijinho.

    1. Obrigado, Ana. Aqui não é difícil ser-se feliz. Há tudo quanto nos é mais essencial – ar, luz, sol, mar, bom peixe, boa gente. E não há muito do que é supérfluo. Nem precisamos disso para nada.

  7. Fantástico, PC, fantástico. Também tenho as minhas estórias, que começaram ha ja alguns anos… talvez anos demais. As Cabanas são mesmo um local especial, sem que se encontre um fundamento racional para a “especialidade”. É por isso que talvez seja boa ideia não publicitar muito o assunto, para não atrair turistas ao menos nas épocas do ano em que ainda há restaurares abertos e não há enchentes: maio-junho, e setembro-outubro.

    Quanto aa foto, uma pergunta e uma sugestão;
    a pergunta: a foto é recente (eu diria que não, ou então algo mudou desde há seis meses);
    a sugestão: se ainda estiver por aih, tire uma foto nesse mesmo local (ou até abrangendo toda a largura da ria) na maré alta e outra seis horas depois. E depois publique. 🙂

    Aproveite.

  8. Olha a minha paisagem de férias. (Aquilo agora ainda está melhor desde que as árvores da muralha deixaram de boicotar a Ria) 🙂

    Noélia, figo com presunto e mel. Só um dos muitos bons sítios para acabar a tarde (ou começá-la) entre Tavira e Altura.

    Bom descanso, por mim terá de esperar que chegue o calor.

    1. Está melhor, sim, Luís: e a ‘promenade’ construída à beira-ria valorizou muito a povoação, que conseguiu manter-se imune aos surtos de especulação imobiliária que abastardaram outras zonas do Algarve, tornando-as infrequentáveis.
      Faz bem em esperar pelo calor. Eu gosto de tempo mais fresco, mas tem havido demasiada nortada em vários destes dias.

      Felicidades para a sua Barbearia, apesar da crise. Um abraço amigo.

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