
Há lugares que parecem feitos para os adoradores do sol. Não é o caso de Esposende. Aqui, celebra-se o vento. É ele o grande organizador dos dias de Verão. É a permanência do vento que nos dá tempo para saborear a pequena cidade. Em tantos dias, é impossível estar na praia. Não são horas perdidas. Praticamente com um pé no Cávado e outro no Atlântico, abrigo-me no Café da Foz, numa plácida disputa entre a contemplação de uma das mais belas paisagens de Portugal e o afago daquele livro que guardei todo um ano para o poder ler naquele exacto momento. É também ali que a angústia do dia-a-dia, por momentos, me toma. Mas, logo na Foz do Cávado, é a calma que contemplo. Está tanto vento. Esse é o meu sossego. Tenho tempo. O vento, o vento. É com ele que chegam as recordações do dia em que o meu pai correu meia praia, e eu com ele, atrás de um guarda-sol desgovernado que a nortada teimava em levar para longe de nós. Já então a vida lhe fugia. E as de mergulhos gelados envoltos em nevoeiro. Com os ossos a doerem da cabeça aos pés. E da toalha tão morna que a minha mãe me estendia. A mesma que ainda estende quando preciso e que lhe devolvo sempre encharcada. Aqui a maresia entra-nos pelos olhos dentro. Será por isso que os tenho marejados. Será por isso que peço uma cerveja. Não porque o calor imponha a sede. Mas, porque preciso de retomar o fio do tempo. E o livro que guardei todo um ano para ler aqui. Talvez ainda não seja este o exacto momento. Há lugares que não são carne nem peixe. Esposende é peixe. Aquele que servem no Forno, na Apúlia. Ou o que hei-de comprar com a Adélia, no mercado, depois de escolhermos, na vendedeira do costume, os pimentos de Padrón de cada sábado. Apetece-me dar o corpo ao manifesto do vento que varre a marginal. Sei que me há-de levar lá bem ao centro, à Marbela ou à Lili. O vento salgado pede um doce. O vento, o vento. Devia ser assim a vida também. A cada pedaço de sal, a garantia de um doce que nos compensasse. Em Esposende, os doces são clarinhas. Percorrer a marginal dá-me tempo. Para lembrar as mãozitas do Dinis quando, na praia mais lá atrás, pegou em areia pela primeira vez. Era então um Dezembro e a areia fugia-lhe por entre os dedos. Esses com que começa, agora adolescente, a agarrar a vida. Essa vida que a Leonor, por agora ainda menina, também há-de agarrar com a mesma alegria com que gritava Zendi sempre que aqui chegávamos. Gosto de os ver dormir nas noites frias de Esposende. Aconchegados, tal como nós, pela sirene do farol. Sei agora que, mais logo, quando adormecerem, será a sirene a anunciar o momento em que vou, finalmente, abrir o livro que guardei um ano inteiro para ler. Exactamente aqui. Em Esposende.

Pois eu abriguei-me anteontem de manhã na Berlenga e voltei ontem à noitinha a casa. Sabe bem reencontrar o que nos faz gostar da vida.
Que nunca nos tirem os nossos refúgios, Fernando.
Meu caro Rui Rocha, este texto com que nos brindou, é das coisas mais bonitas que eu li nos ultimos tempos. Aceite o meu muito obrigado!
ACS
P.S. Que saudades que eu tenho do Norte.
Eu é que agradeço, Alexandre. Estive pouco por Esposende este Verão. Sei que vai fazer-me falta, lá mais para a frente.
Belíssima crónica, Rui. Também já passei férias inesquecíveis em Esposende, na magnífica praia da Restinga, com o Cávado na vizinhança e um ‘drink’ de fim de tarde no hotel Suave Mar. Esposende já passou por cá nas minhas séries dos melhores rios portugueses e das melhores praias portuguesas. Volto lá sempre com gosto. Como volto a Moledo, a Afife, à Tocha, a Quiaios e a tantas outras magníficas praias do Norte e do Centro-Norte.
E a requalificação da beira-rio realizada há um par de anos foi a cereja em cima do bolo, Pedro.
Belo texto.
Consegui sentir pelas suas palavras todo o amor que tem por essa terra.
Obrigado, André Miguel. Esposende merece.
Que beleza de texto, Rui. Entendo-te muito bem. Com outro nome e outra geografia, as minhas memórias de infância são iguais: vento e maresia, muito iodo e um farol ao longe. Soube-me bem ler-te.
Sabemos que estamos no sítio certo quando o vento agreste nos aconchega, Ana.
Devo admitir que fiquei maravilhada com ao ler o seu texto. O amor que mostrou por esta terra é realmente imenso. Consigo imaginar-me em Esposende, vivendo tudo aquilo que descreveu, devido à sua escrita tão profunda e à enfase que oferece a cada palavra. Tenho a obrigação de lhe agradecer por esta excelente escrita. pois os minutos que tomei ao lê-la foram como horas de viagem .
Eu é que agradeço as suas palavras, B. Ainda bem que gostou.
“Há lugares que parecem feitos para os adoradores do sol. Não é o caso de Esposende. Aqui, celebra-se o vento”
Tifon!!! Tifon!!!
Oh, maravilha das maravilhas, não é que acertou em cheio?
Nem vou acrescentar mais nada, para bom entendedor…
“E as de mergulhos gelados envoltos em nevoeiro”
Ofir, nessas manhãs, é lindíssima. Uma dádiva da natureza.
(estou a ler o post devegarinho, eheh…)
Muito obrigada.
Eu é que lhe agradeço a sua leitura atenta, Fátima.
Li hoje. Esposende é a minha cidade natal. Este seu texto é lindíssimo.
Obrigado, Rute. Ainda bem que gostou. Confesso que foi um dos que mais gostei de escrever aqui no Delito.
Saudades…
Nasci ai, onde escreves-te esse texto. Ao lê-lo foi relembrar todo o meu passado. Saí por motivos profissionais e ai vou poucas vezes para meu lamento… Obrigado por escreveres sobre a minha terra dessa forma. Está fabuloso…Parabéns
Eu é que agradeço a leitura, Rui.
Este texto sobre a minha terra é fantástico! Muitos parabéns Rui e obrigado!
Rui Rocha, como filha da “terra” quero agradecer a forma tão bonita e profunda, como a descreveu. É um privilégio receber pessoas assim em Esposende, bem haja.
Cumprimentos.