Almoço tardio e prolongado no Caniço, na Prainha (Alvor). Pouca gente no restaurante, onde parece que o tempo se imobilizou. No Verão, é quase impossível estar aqui – e não se consegue arranjar lugar sem marcação prévia. Agora a atmosfera é tranquila. Enquanto aguardo pela sopa de peixe, dou uma espreitadela ao que se vai escrevendo nos jornais. Fantástico: Durão Barroso, o mesmo que debandou para Bruxelas em 2004, deixando o País como sabemos, apela agora à “responsabilidade nacional”. E faz uma pressão indisfarçável para que o PSD viabilize o orçamento, como se um partido da oposição servisse para passar cheques em branco ao Governo ainda antes da apresentação formal da proposta de lei na Assembleia da República. O presidente da Comissão Europeia podia lembrar-se do caso espanhol, onde está igualmente em curso a negociação para o orçamento. O principal partido da oposição, o PP, já deixou claro que não viabilizará as contas públicas para 2011. Zapatero, em minoria no Parlamento, viu-se forçado a dialogar com outra força política – o Partido Nacionalista Basco, que já terá garantido os votos necessários.
Em democracia, o diálogo sem chantagens é fundamental – penso enquanto vejo as ondas a bater no paredão. É um espectáculo deslumbrante. Começa a cair uma chuva fina enquanto aguardo o crepe de camarão. “PSD deve clarificar já posição sobre OE”, declara o ministro das Finanças, que continua sem esclarecer o que correu mal na execução do PEC2 – que antes do Verão tanto ele como o primeiro-ministro garantiam que bastava para estancar a crise. Noutro jornal, vislumbra-se um Teixeira dos Santos bem menos peremptório, garantindo que “o Governo está aberto a negociar”. Negociar como, se o PSD “deve clarificar desde já” a sua posição? E surge um rasgado elogio de capa a Sócrates: “Ele é um dos melhores.” Proferido por quem? Por Tony Blair, reconhecido à escala planetária como um prestigiado estadista.
Nada melhor como remate de refeição. Crise? Qual crise? As ondas continuam a bater contra as rochas enquanto a tarde cai sobre o Caniço. Aos poucos foi deixando de chover.


(…) ” As ondas continuam a bater contra as rochas”…
E quem se f…. é o Zé Povinho!!!
Estas ondas são diferentes Muito mais recomendáveis.
Levar jornais de actualidade política para o Caniço (ou para o Restinga) é quase um crime, Pedro! Para a próxima concentra-te no mar, na sopa de peixe e no sossego de um dia “fora-de-época”. Vais ver como é muito melhor.
Ana, qualquer nativo do signo Gémeos é capaz de dar atenção a duas coisas ao mesmo. Ou três. Ou quatro.
Ou mais.
Humm…
Não é a quantidade, é a qualidade! A política portuguesa estraga qualquer refeição. E uma refeição num desses dois sítios é uma coisa preciosa.
Ana, passei lá uma semana excelente. E gostei tanto que daqui a duas semanas estarei lá novamente. Com almoços no Restinga e no Caniço, e jantares no Búzio. Os jogos políticos reflectidos na imprensa, nestas alturas, servem apenas para confirmar o óbvio: somos mais felizes longe deles.
Bom gosto, Pedro. A Prainha nunca desilude, sobretudo fora de época.