Com o mar em fundo


Pedro Correia,

 

– A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: “Já estamos no Algarve… Sim, já estamos no Algarve… no Algarve.” À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.

 

– A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.

 

– O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.

 

– O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.

 

– A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica “não correu muito bem” e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.

 

– Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. “Don’t do that”, ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.

 

– O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.

 

– Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.

 

– No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. “Eu sou o David Villa”, diz um. “Não, eu é que sou o Villa”, contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.

16 comentários em “Com o mar em fundo”

  1. Amei de paixão, sei lá …!!

    E eu que vou estar de serviço nos próximos dias no aerotrotinetes, com 40º previstos, “racho” o primeiro engraçadinho que aqui vier louvar o fresquinho da praia e mais “ai que bom estou de férias” etc etc !!!!!

    Tende dó !!

    1. Conheço bem o Algarve, de lés a lés – barlavento, sotavento, litoral, interior, serras. Há vários algarves – gosto de quase todos. Ao contrário do que é comum ouvir-se em Lisboa, o Algarve só é “um inferno” para quem não sabe escolher minimamente os locais de férias ou para os tradicionais cronistas com falta de assunto que todos os anos reservam religiosamente uma prosa sobre a “praga” do Verão algarvio, que no entanto jamais dispensam. Vá-se lá imaginar porquê.
      Quanto ao copo, terei todo o gosto. Um dia destes, quando se proporcionar (talvez num dos próximos jantares do DELITO, que começarão a ser abertos a leitores seleccionados).

          1. esperava uma resposta diferente de “Frio, Chloé, frio…” , tipo quente ou morno. só por curiosidade, fica situada entre Ferragudo e a Ponta da Galé?

  2. Boas férias Pedro aí por esse Algarve cheio de tias de Cascais…:))) nada contra, não cabe é no meu apertado orçamento, eu cá me fico pelo Sudoeste Alentejano, que diga-se, está lindo.
    :)))

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