Dar ao apito


Rui Rocha,

O Carlos Guimarães Pinto insurge-se aqui contra o gasto de dois milhões de euros em salsichas. Ora, uma pesquisa rápida permite concluir que também temos investido forte em chouriços. Na verdade, desde 1 de Janeiro de 2009 o dinheiro dos contribuintes foi investido com alegria em, entre outros, concertos de Tony Carreira, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa e Quim Barreiros. A bandeirada do senhor Carreira ronda os quarenta e cinco mil euros por espectáculo. A do sócio Pedro Abrunhosa e a de Paulo Gonzo os vinte e cinco mil euros para cada um. Cada uma das récitas de Quim Barreiros custou, por seu turno, cerca de dez mil euros. Sem grande preocupação de rigor, que não é para aqui chamado, no período indicado o país terá investido coisa de dois milhões e tal de euros só para estes quatro (os curiosos poderão pesquisar aqui). Como diria um dos artistas, e se fossem todos

Peculiaridades


José Maria Gui Pimentel,

O debate em torno da extensão óptima do papel do Estado na economia é antigo e complexo, e é difícil avaliar em cada caso específico qual a melhor solução a adoptar. Há, porém, um sinal em particular que me faz sempre suspeitar de que algo não está como devia: quando os trabalhadores de uma empresa pública se manifestam contra a sua privatização. Os empregados têm, naturalmente, todo o direito a ter uma opinião sobre essa medida, mas quando vejo uma larga maioria a opor-se ruidosamente não consigo evitar ficar desconfiado. Afinal, a decisão de privatizar uma empresa do Estado pode ser boa ou não para a economia e para os contribuintes, mas para os trabalhadores dessa mesma empresa – sobretudo sem saberem quem a comprará – custa-me compreender tanta aversão a priori a mudar de patrão. A não ser, claro, que o patrão actual seja muito bondoso. Porventura demasiadamente bondoso. 

Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Antes de se tocar nos rendimentos, nas poupanças e nas reformas obtidas como fruto do trabalho útil, qualquer reformador verdadeiro precisa de olhar a sério para as possibilidades de corte não simulado, nem caridoso, deste ‘Estado anti-social’ que subsiste, feito de demasiadas entidades artificiais, supérfluas, redundantes, inúters, muitas criadas por mera conveniência da partidocracia. Se quiserem uma verdadeira reforma, histórica, pensada, eficaz, com resultados, os portugueses têm de exigir não o fim dos serviços e entidades que custam dinheiro ao Estado, mas o fecho dos serviços e entidades que, custando dinheiro, não servem ninguém a não ser os seus ocupantes.»

Nuno Rogeiro, na Sábado

Isto e aquilo


cadernoelastico,

O aumento de impostos chateia-me. Chateia-me não só porque implica menos dinheiro, mas por uma questão de princípio. Pagamos impostos em troca de serviços prestados pelo Estado. Ora, o Estado é particularmente voraz a desperdiçar, e os serviços vão sendo reduzidos. A reforma do mapa judiciário continua por fazer, os quartéis onde dez soldados varrem o chão e vêem tv continuam abertos, as PPPs mantêm-se em negociação, a RTP é o que é, a CP e a Refer vão-se divertindo, etc., etc.

Eu percebo as dificuldades do governo. A cada corte de despesa, cai o Carmo e a Trindade. E depois vêm os brados de que “não cortam na despesa, não cortam na despesa!”. E percebo as pressões externas, para termos números decentes para apresentar, e voltarmos rapidamente a ser um país normal, que se financia sozinho. Mas o governo tem de ter coragem. Foi para isso que foi eleito. Esta era a oportunidade ideal para reformar o Estado, para apresentar uma reforma séria, alicerçada e sustentada para o futuro. Pedir mais dinheiro aos contribuintes, ainda que por emergência, devia ser sempre a última solução, esgotadas todas as alternativas. É que os bolsos estão vazios, e o dinheiro do colchão já se foi. Compreendo perfeitamente que o Estado está falido, e não é com as histerias do “não pagamos” e do “troika fora” que isso se resolve. Mas convenhamos que para um Estado falido ainda há muita administração com carros novos, ainda há muito salário bem acima dos privados, ainda há muita renda certa para grandes empresas.

 

Um problema Gordillo


Rui Rocha,

Sanchez Gordillo e outros sindicalistas apoderaram-se de bens alimentares em supermercados do sul de Espanha com a intenção declarada de os distribuírem por pessoas carenciadas. A acção tem diversos níveis de enquadramento. Se cingirmos a análise à óptica da relação entre esses agentes e as empresas de onde os bens foram retirados, estamos, naturalmente, perante um delito. Se valorizarmos o aspecto da relação com os cidadãos em geral, nomeadamente com os eleitores, concluiremos que se trata de uma acção demagógica (atenho-me à definição de demagogia que remete para discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político). Todavia, ter em conta apenas a dimensão ilícita ou demagógica destes actos é perder, voluntária ou involuntariamente, uma parte da questão. O que está em causa é, para além do mais,  uma crise do poder. Do poder do Estado e de tudo quanto está na sua órbita. Uma crise que desperta nas pessoas simples (como diria Passos Coelho) um sentimento de indignação que a maior parte ainda vai engolindo em seco. Esse sentimento relaciona-se com a apropriação do Estado por uma clique cujo objectivo único é a satisfação de interesses próprios que se realizam apesar do interesse comum. Uma ferida aberta na relação entre os cidadãos e o Estado de onde vai supurando cada vez mais desconfiança. Uma ferida por onde é fácil que se infiltrem agentes oportunistas como Sanchez Gordillo. Que Sanchez Gordillo pague então pelo seu delito e que se desmonte publicamente a sua intenção. Mas que não se esqueça que a ferida está aí. Em Espanha como em Portugal. E que se tenha em conta que quanto mais pagarem os Gordillos, mais legítimo será perguntar quanto pagaram os outros. Os que não assaltam mercearias à luz do dia, nem praticam demagogia com a distribuição de alimentos. O problema essencial é pois esse de saber quanto pagaram até agora os políticos desbragados, os ideólogos da promessa fácil feita para não ser cumprida, os compinchas venais e os protegidos do regime por toda a sua desmedida cupidez. O problema não é pois declarar a ilegitimidade dos actos de Gordillo. O problema é constatar  que a legitimidade dessa declaração depende mais da autoridade formal do Estado do que da sua autoridade moral.