Isto e aquilo


cadernoelastico,

O aumento de impostos chateia-me. Chateia-me não só porque implica menos dinheiro, mas por uma questão de princípio. Pagamos impostos em troca de serviços prestados pelo Estado. Ora, o Estado é particularmente voraz a desperdiçar, e os serviços vão sendo reduzidos. A reforma do mapa judiciário continua por fazer, os quartéis onde dez soldados varrem o chão e vêem tv continuam abertos, as PPPs mantêm-se em negociação, a RTP é o que é, a CP e a Refer vão-se divertindo, etc., etc.

Eu percebo as dificuldades do governo. A cada corte de despesa, cai o Carmo e a Trindade. E depois vêm os brados de que “não cortam na despesa, não cortam na despesa!”. E percebo as pressões externas, para termos números decentes para apresentar, e voltarmos rapidamente a ser um país normal, que se financia sozinho. Mas o governo tem de ter coragem. Foi para isso que foi eleito. Esta era a oportunidade ideal para reformar o Estado, para apresentar uma reforma séria, alicerçada e sustentada para o futuro. Pedir mais dinheiro aos contribuintes, ainda que por emergência, devia ser sempre a última solução, esgotadas todas as alternativas. É que os bolsos estão vazios, e o dinheiro do colchão já se foi. Compreendo perfeitamente que o Estado está falido, e não é com as histerias do “não pagamos” e do “troika fora” que isso se resolve. Mas convenhamos que para um Estado falido ainda há muita administração com carros novos, ainda há muito salário bem acima dos privados, ainda há muita renda certa para grandes empresas.

 

13 comentários em “Isto e aquilo”

  1. A Ana em meia duzia de linhas, sem histerismos e usando palavras simples, fez uma análise correctìssima da situação que estamos a viver.
    Assino por baixo.

  2. É isso mesmo. Venham as medidas que vierem, desde que sirvam para endireitar o país (de vez) e que haja uma distribuição justa e generalizada do esforço. Podemos suportar muita coisa, menos a falta de coragem para estender as medidas a tudo e todos. Exemplo: porquê os regimes de excepção para alguns titulares de cargos públicos, ou de empresas do Estado? Era muito simples: ou aceitavam os cortes, como o resto da população, ou iam-se embora. Certamente, não faltariam substitutos com igual qualidade. O 1º Ministro não tem autoridade moral para vir pedir sacrifícios aos portugueses, enquanto não tiver coragem para acabar com o clientelismo e com os parasitas do poder.

  3. O problema, cara Ana Margarida, com todo o respeito, nem é o pedir mais dinheiro aos contribuintes, ainda haver muita despesa do Estado ou muita renda não tributada.

    O problema é falta de autoridade moral de quem decide. É a total ausência de ética na política, de rigor e de responsabilidade na acção política.

    O problema é a frivolidade com que tudo isto é feito, a facilidade com que quem nunca fez sacríficios e teve sempre quem lhe fizesse a cama e pusesse a comidinha na mesa se permite querer dar lições de vida a quem sempre viveu do seu trabalho e sempre pagou os seus impostos.

    O problema é, em resumo, sermos um povo de bananas.

    1. O problema é que já ninguém sabe o que significa justiça.
      Hoje mais do que nunca, é a Lei que esta acima de tudo.
      Pois bem, a Lei não é Justiça.
      A Lei devia ser a mão da Justiça e não uma ideia que existe só na palavra, servindo apenas de organismo “paridora” de leis que nada têm de justas.

  4. Estou de acordo com a sua opinião. Penso mesmo que poderemos falar de falta de legitimidade politica por 2 razões, em 1º porque este governo está a fazer exactamente o contrário do que prometeu e em 2º quando se pedem sacrificios ás pessoas, têm que ser iguais para todos. E para mim que votei ( contrariado) neste governo e neste 1º ministro o que mais me indigna é a falta de coragem. Nunca mais votarei no PSD.

  5. Sem dúvida. Ensinam-nos em Economia, que para equilibrar o saldo orçamental, se deve cortar do lado da despesa. Não vejo isso a acontecer. Vejo tributações e mais tributações aos rendimentos do trabalho, não vejo reformas estruturais a serem feitas, o que seria uma excelente oportunidade para tal. Vejo gente com salários de milhares quando não tem legitimidade para os ganhar, quando o Estado está falido.
    Este país precisava de uma volta mas uma grande volta. Estranho, eu acabei o meu curso com 23 anos e não com 37, e já passei por várias empresas onde tive de prestar contas e ter grandes responsabilidades, caso contrário, até me poderia candidatar a primeira ministra.

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