Um problema Gordillo


Rui Rocha,

Sanchez Gordillo e outros sindicalistas apoderaram-se de bens alimentares em supermercados do sul de Espanha com a intenção declarada de os distribuírem por pessoas carenciadas. A acção tem diversos níveis de enquadramento. Se cingirmos a análise à óptica da relação entre esses agentes e as empresas de onde os bens foram retirados, estamos, naturalmente, perante um delito. Se valorizarmos o aspecto da relação com os cidadãos em geral, nomeadamente com os eleitores, concluiremos que se trata de uma acção demagógica (atenho-me à definição de demagogia que remete para discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político). Todavia, ter em conta apenas a dimensão ilícita ou demagógica destes actos é perder, voluntária ou involuntariamente, uma parte da questão. O que está em causa é, para além do mais,  uma crise do poder. Do poder do Estado e de tudo quanto está na sua órbita. Uma crise que desperta nas pessoas simples (como diria Passos Coelho) um sentimento de indignação que a maior parte ainda vai engolindo em seco. Esse sentimento relaciona-se com a apropriação do Estado por uma clique cujo objectivo único é a satisfação de interesses próprios que se realizam apesar do interesse comum. Uma ferida aberta na relação entre os cidadãos e o Estado de onde vai supurando cada vez mais desconfiança. Uma ferida por onde é fácil que se infiltrem agentes oportunistas como Sanchez Gordillo. Que Sanchez Gordillo pague então pelo seu delito e que se desmonte publicamente a sua intenção. Mas que não se esqueça que a ferida está aí. Em Espanha como em Portugal. E que se tenha em conta que quanto mais pagarem os Gordillos, mais legítimo será perguntar quanto pagaram os outros. Os que não assaltam mercearias à luz do dia, nem praticam demagogia com a distribuição de alimentos. O problema essencial é pois esse de saber quanto pagaram até agora os políticos desbragados, os ideólogos da promessa fácil feita para não ser cumprida, os compinchas venais e os protegidos do regime por toda a sua desmedida cupidez. O problema não é pois declarar a ilegitimidade dos actos de Gordillo. O problema é constatar  que a legitimidade dessa declaração depende mais da autoridade formal do Estado do que da sua autoridade moral.

18 comentários em “Um problema Gordillo”

  1. Meu Caro

    Esou (mos) a ficar totalmente baralhados…

    Precisamente não na mesma altura em que a reportagem estava no ar, lia-se em rodapé:
    “Tribunal de Contas detecta irregularidades na compra dos hilecopteros… se fossem comprados directamente teriam custado menos 80 milhões…”
    —
    Mácário perde autarquia… / Isaltino, continua na Camara e à solta…

    Isto baralha qualque rum…o que é roubo?

  2. Ouvi alguém dizer, que os governantes são julgados nas eleições. Não me lembro quem foi, também não importa, porque lembro que a mim soou mais a: as eleições legitimam os políticos.

  3. Eu que sou voluntário em grupos de acção social, já há alguns anos, gostava de saber quais os critérios com os quais eles se propõem a distribuir os alimentos. É que há muita gente que se diz carenciada, mas é apenas oportunista. E se eles os entregarem a uma instituição, poderão os agentes ser acusados do crime de receptação?

  4. Bem, Rui, não nos esqueçamos que os “Passos” querem menos estado; admira-se que as coisas cheguem a este estado?
    Mais uma vez volto ao tema. Aqui há uns tempos ouvi o nosso Mota, que agora anda de carro, dizer que alguns subsídiados devem fazer trabalho útil (em autarquias e IPSS´s). A perversão nesta mentalidade não reside no facto de se proporcionar trabalho, mas sim de se usar quem está em situação de fraqueza para trabalho “útil”. Explico:
    Eu estaria de acordo com o trabalho se este acto constituísse verdadeiramente uma integração – o que é útil – desses desgraçados na causa comum. Ou seja, dando-lhes trabalho remunerado convenientemente, com direito a descontos e salvaguarda de sua vida futura e também à justeza de um contrato jurídico que os proteja também de eventuais arbitrariedades.
    Todavia, como se quer menos estado, até dá jeito que eles, os desgraçados, existam da forma como existem, para tapar buracos: o da demagogia e o da “oportunidade”.

      1. Quanto a mim, há um tipo de trabalho que deve ser levado mais em conta, aquele que produz e gera valor acrescentado. Mas dinheiro para investir nesse, foi de férias… para bem longe do país.

        1. Olhe que não, parece que já regressaram 2,7 biliões. A minha dúvida é se regressarariam, nas condições em que regressaram, se o estado e os bancos não andassem à nora.

          1. Noras falando, a pedra que esta na mó de baixo, sugeita-se á mó de cima. Penso que já conhece o engenho.

          2. O milho também foi de férias, ganhou uma viagem através do paraíso. Agora é fazer farinha com as sobras que ficaram para traz, bem, sempre se pode dizer que é ecológico.

          3. Para terminar.
            Quando acaba o resto do milho, aparece o cordillo ;/

      2. Vou tornar ainda mais preciso o meu comentário. Esse “trabalho”, quer na forma quer no conteúdo, surje como penalização da condição. A decadência reside precisamente no facto das leis não se basearem na lei natural, mas na conveniência; dando acesso a ela quem pode e para quem ela é conveniente.

        1. Sim, concordo. Eu cá no meu pequeno calhau não tenho nem poder nem conveniência Quanto ao que mais possa estar contido no seu comentário , são pormenores . A lei natural é a lei da selva.
          Seja bem vindo à republica das bananas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *