Novas tecnologias, problemas antigos


Sérgio de Almeida Correia,

Novas tecnologias com sistemas obsoletos, computadores velhos e falta de capacidade de resposta dos serviços só servem para criar mais problemas, gastar dinheiro, indispor os funcionários e os contribuintes, contribuir para a diminuição da produtividade e fazer figura de rico nas estatísticas.

Aquilo que aconteceu nas últimas eleições presidenciais acontece com irritante regularidade com os sites das Finanças e da Segurança Social, com o Ministério da Educação, de cada vez que há concursos e é necessário apresentar candidaturas, por vezes também com a Justiça e, agora, pelos vistos, com o Censos 2011. Já era tempo destas coisas funcionarem de acordo com a procura que vão tendo. Ou então, se não houver capacidade de resposta, não as promovam.  

Nem à esquerda nem à direita: é mais ao fundo


Teresa Ribeiro,

Há problemas responsáveis pelo nosso atraso que transcendem a política. Não vale a pena procurá-los à esquerda e à direita, porque não são consequência directa de programas políticos como a propaganda dos diversos partidos nos quer fazer crer. O Estado engordou desmesuradamente em Portugal não por causa dos keynesianos, mas sobretudo para dar emprego a sucessivas hordas de boys, familiares e amigos. A despesa pública disparou para financiar PPP só em teoria vantajosas para o Estado, para pagar gestores públicos incompetentes, subsidiar fundações de fachada e sustentar institutos inúteis, entre muitas outras aberrações sobejamente identificadas.

Qualquer análise, desde que honesta, não poderá imputar responsabilidades exclusivas por este manual de maus costumes a nenhum dos partidos que conhecemos. Se assim não fosse, a alternância democrática teria funcionado, evitando que esta desastrosa gestão acabasse por minar e tolher a coisa pública a ponto de comprometer a viabilidade de um país.

A corrupção, que é o ponto de convergência de toda esta trapalhada, se fosse controlada poderia, quem sabe, fazer de nós um país tão próspero  como a Finlândia. Daí que mais do que político, o nosso maior problema seja de ordem moral. Quando vejo os políticos a discutir encarniçadamente modelos económicos com mais Estado ou menos Estado e modelos sociais com mais protecção ou menos protecção, pergunto-me quando é que o ímpeto reformista os levará a mudar realmente. E a fazer o que é preciso para que esses modelos que defendem à esquerda ou à direita possam funcionar. 

Há sinais que revelam até que ponto os partidos são conservadores em relação ao sistema e que valem mais que mil panfletos partidários.

Cavaco devolve 75% do dinheiro da campanha


lauraramos,

 

Evidentemente que é obrigatório.

Evidentemente que decorre da lei.

Evidentemente que talvez nem merecesse ter destaque.

Mas merece.

Porquê?

 

Simplesmente porque não gastou e podia tê-lo feito.

 

Declarou que o estado da Nação não lhe permitia uma campanha perdulária. E não a fez.

Recomendou aos seus apoiantes, urbi et orbi, uma intransigente contenção nos actos de aplauso e nas reuniões de propaganda, e cumpriu.

Anunciou que não faria outdoors. E não fez.

Escolheu jantares em locais sem brilho, quase inóspitos, a lembrar os tempos da crise de meados de 80 (quando nos afundávamos também num duplo perigo de ruína financeira e de alienação partidária). E arrancou as palmas mais sentidas quando se referiu ao respeito pelos portugueses e à elementar exigência de moralidade nos gastos que era requerida aos poderes públicos (sim, eu vi toda esta insidiosa perseguição ao voto, galopante…).

 

Não há autoridade sem exemplo.

Mas neste caso, infelizmente tão isolado, tivemos uma pequena lição.

Não gostam do termo, ó subalimentados do bom senso?

Pois é… mas isto não é demagogia: – é dinheiro sonante que voltou aos cofres do Estado e não nos vai ser arrancados dos bolsos.

 

– Já agradeceram?

CP: uma empresa ao serviço do défice


Sérgio de Almeida Correia,

 

Ainda recentemente, o Pedro Correia deu o devido destaque a uma notícia do Diário Económico que nos dava conta da CP – Comboios de Portugal EPE ser a empresa do Estado com mais cargos de chefia na sua estrutura. E que cada um desses chefes ganhava em média € 3.100,00 brutos.

De uma empresa com tantos chefes e a ganharem tão bem face àquela que é a média salarial nacional, o mínimo que seria de esperar era que tivesse um serviço de atendimento ao público aceitável.

O Alfa Pendular que esta manhã saiu de Lisboa-Oriente às 08.40, ficou parado no Pinhal Novo por volta das 09.40. Motivo: furto de cabos eléctricos. Entretanto, prosseguiu viagem e era suposto ter chegado a Faro às 11.55.

Sabendo do atraso, tentei telefonar para a estação de Faro para saber a que horas chegaria ao destino. Acontece que o número de telefone da estação de Faro não existe em parte alguma. O site da CP não tinha qualquer informação, a lista telefónica da região também não. Informações sobre os atrasos dos comboios nicles.

Vai daí liguei para o 808208208. Uma gravação mandou-me escolher uma opção, o que fiz, ficando depois durante cinco longos minutos a ouvir música. Quando finalmente me atenderam e eu perguntei se me sabiam dizer a que horas o Alfa chegava a Faro a menina disse-me que não tinha essa informação e que se havia atraso seria momentâneo.

Disse-lhe que não, que não era momentâneo, que já eram quase 13 horas e que o Alfa ainda não tinha chegado a Faro embora a chegada pelo horário estivesse prevista para as 11.55. Pedi-lhe então o número de telefone da estação de Faro. A menina respondeu-me que não havia números de telefone nas estações porque tinham acabado com eles.

Por sorte, uma vez que em regra não há rede dentro do Alfa, consegui falar com quem vinha nesse comboio que me informou, por volta das 13 horas, que o comboio ainda não tinha chegado a Albufeira, mas que previsivelmente estaria em Faro por volta das 13h e 30m.

Ciente, uma vez mais, quanto à qualidade do serviço da CP e à sua completa inutilidade relativamente aos serviços que devia prestar aos utentes, a única coisa que me apetece perguntar é por que razão não a fecham? Era preferível fechá-la, mandar os seus inúteis chefes todos para casa e fazer uma nova, de raiz, com os quadros necessários, competentes e que estivessem dispostos a trabalhar.

É que nem sequer vale a pena reclamar destas situações fazendo uso do livro respectivo. Todas as que até hoje fiz tiveram todas o mesmo resultado: um sms a dizer que estão a analisar o problema. 

Perante isto fica a certeza de que a CP não é uma empresa. A CP é um desastre ambulante que custa rios de dinheiro aos contribuintes e que para tal conta com a conivência dos ociosos dos sindicatos, com a irresponsabilidade dos partidos políticos, com a complacência dos sucessivos governos e, acima de tudo, com a tremenda falta de cultura cívica dos seus utentes.

Transportes oficiais


jmmcc,

Quando Manuela Ferreira Leite era líder do PSD e se deslocou em visita partidária ao PSD/Madeira, foi ver “cair o Carmo e a Trindade” por ter apanhado uma boleia de Alberto João Jardim em automóvel oficial.

Amanhã, a confirmar-se que José Sócrates voará num Falcon para o encerramento do congresso regional do PS/Açores que está a decorrer, será interessante ver o que irá cair.

Há asfixia democrática em Portugal, como acusa Manuela Ferreira Leite?


jorgeassuncao,

Há. E Pedro Santos Guerreiro tem um excelente texto sobre o assunto no Jornal de Negócios:

 

Mas há quem tenha medo e faça auto-censura. E há ameaças de represálias. Ferreira Leite foi pouco específica, mas subentende-se que falava daqueles que trabalham ou têm relações com o Estado: a Administração Pública, as empresas públicas, as empresas privadas que, numa economia tão estatizada, dependem de uma licença, autorização ou beneplácito do Governo. Vários casos de represálias foram sendo tornados públicos. Do processo disciplinar da DREN a um professor que faz piadas de mau gosto, a Paulo Azevedo que assume que a Sonae perde negócios por causa da linha editorial do "Público". […] Sim, o Estado é retaliador, sim há um clima de desrespeito pelo livre funcionamento da economia, da igualdade de oportunidades entre as empresas, da liberdade de crítica e de imprensa. Nunca foi tão mau? Enquanto a sociedade se amochar, será cada vez pior.

 

O exemplo de Paulo Azevedo e da SONAE talvez ajude a explicar as "razões económicas" que  fundamentaram o fim do Jornal Nacional à sexta-feira na TVI.

Solidariedade (1)


jorgeassuncao,

 

Confesso que, ao contrário da Ana, na contratação do Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid não encontro nada de particularmente escandaloso. O futebol é um negócio e os activos mais valiosos para as empresas que actuam no sector são os jogadores. É normal que o mais rico clube de futebol do mundo, o Real Madrid, procure aqueles que são considerados os jogadores mais valiosos do mundo. Ronaldo tinha um contrato de prestação de serviços com o Manchester, é normal que pela cessação desse contrato de serviços o segundo clube mais rico do mundo queira ser recompensado. Noventa e quatro milhões é um valor muito elevado? É, mas recordo que é valor semelhante ao que o Man United recusou a época passada, o que talvez diga alguma coisa da própria avaliação que o clube inglês faz do jogador português. Quanto à crise, se as empresas que dispõem de dinheiro, como é o caso do Real Madrid, cuja actividade financeira passou à margem dos problemas que afectam milhares de empresas noutros sectores, não dispenderem milhões, quem o fará? Se em tempo de crise quem tem dinheiro, tem de ser poupado, numa qualquer solidariedade para com aqueles que viram as suas finanças apertadas, estará tão só a prolongar a crise.

Já encontro alguma imoralidade quando estes clubes de futebol, com tantos milhões, são ajudados financeiramente pelo poder local ou central. Portugal, nesse aspecto como em tantos outros, é um péssimo exemplo. A construção de dez maravilhosos estádios de futebol a propósito de um evento em 2004 está ai para demonstrá-lo. Mas na ligação do poder político com o desporto, não é só com o futebol que encontramos casos escandalosos. Recorde-se a ajuda de dois milhões de euros que o Estado atribuiu a Tiago Monteiro para garantir a sua participação na fórmula 1 (segundo consta, uma ajuda não só imoral, como ilegal). É um valor que representa pouco mais de 2% da transferência de Ronaldo, mas um valor muito mais preocupante. Porque esse mesmo Estado que ajuda desportistas medíocres em desportos de elite é aquele que exige mais e mais dinheiro ao contribuinte português em nome de uma suposta solidariedade social. Pelos vistos, houve quem achasse que tínhamos de ser forçosamente solidários para com o Tiago.

Contas de cabeça


oanonimoanonimo,

Depois de 48 anos sem dor, comecei a visitar os hospitais nos últimos tempos. Coisa que, não tendo a ver só com os cigarros, também tem a ver com os cigarros. Por junto, paguei por aí 80 euros em taxas moderadoras. Um destes dias, perdendo de vista o essencial, pensei no preço real das consultas e exames. Não consigo imaginar, sequer. Deve ser muito o que ando a gastar ao Estado. Depois, tentei calcular quantos cigarros fumei até hoje para, daí, tentar calcular quanto de impostos paguei ao Estado. Esforço inglório. Não consigo chegar lá. Mas, ainda assim, tenho a certeza de que o que já dei ao Estado através dos cigarros comprados deve bastar para cobrir as minhas despesas de saúde no SNS. Sinto-me um pouco melhor.