O exemplo de um socialista


jmmcc,

O socialista afastado e actual presidente da Mota-Engil Jorge Coelho desistiu há dias, segundo foi discretamente noticiado, da subvenção que recebia mensalmente do Estado. É uma boa notícia, depois da divulgação anterior e muito menos discreta — que comentámos aqui — em que o visado se revelava um verdadeiro filantropo com o dinheiro dos nossos impostos, ao ensaiar uma explicação desconcertante sobre o destino que dava àquele abono: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade.»

Desta feita, só temos de nos congratular perante a nova atitude de Jorge Coelho, que passa a ter de aplicar rendimentos próprios nas iniciativas pessoais de solidariedade. É mais um bom exemplo para os que conservam — sem que precisem — as subvenções vitalícias que andamos todos a pagar injustamente. Melhor exemplo ainda por demonstrar que socialista não pode ser uma palavra vã.

Um café na manhã quente


lauraramos,

Para amansar o peso do decreto de Outono e a loucura que tomou os relógios, fui para a outra banda, encafeinar-me ao final da manhã.

Gosto deste mosteiro, 300 anos esquecido, que nos foi devolvido com um brio invulgar e que tem vida, energia, programação constante (e um belo auditório). 

Um caso de gestão de património histórico que se segue a uma gigantesca obra de recuperação e que depois conseguiu ganhar outro desafio  ainda mais difícil: ser gerido com alma por gente irrequieta e indiferente às profecias.

Da esplanada do bar-restaurante, para lá do espelho de água, ali está ele, teimosamente afundado numa cota inferior ao rio, finalmente enquadrado, gracioso e nosso.

Gosto de conversar aqui. Inspiram-me a gravidade das pedras e a sobriedade elegante do edifício românico ou, dizem, do gótico experimental.

E é como se nunca  tivesse a certeza absoluta de que, de repente, uma horda de clarissas palradoras não invadisse o relvado em sentido a nós, directamente saídas do século XIII e com uma alegria de agora, ao contemplarem o exterior liberto da tirania das águas.

Vamos… isto ainda é do efeito-woody (pensei). Mesmo assim, é melhor não dizer o que me vai na cabeça, ainda meio ensonada, quando me perguntam porque é que eu hoje não estou ali. Estou, estou: aliás, nunca estive tanto.

Se elas – as freiras mendicantes – aterrassem, de facto, nos dias de hoje, encontrariam imenso que fazer à sua volta.

Por que há-dem pagar-lhe?


jmmcc,

 

O que mais me toca é haver ex-políticos que recebem do Estado as famosas subvenções vitalícias de que se fala e, mês após mês, andem há anos a dar largas ao seu espírito altruísta, ao seu lado benemérito, à sua veia filantrópica: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — diz o socialista retirado e presidente da Mota-Engil Jorge Coelho.

Há gente assim, gente que entrega o dinheiro todo como se tivesse uma arma apontada às costas. Entregam-no todo. Todo-todo? Todinho mesmo? Nunca ficou um centimozinho nestes anos que já passaram? Claro que não: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — garante Jorge Coelho. Mesmo que seja sob anonimato, todo é todo, não é?

Recusa ele receber a subvenção que sai dos meus impostos? Não. Recusa receber a subvenção para aliviar as contas do Estado? Também não. O que é que ele faz? Desprendido do mundo de perdição dos homens, desinteressado dos bens materiais, recebe o vil metal e dá o mais abnegado dos exemplos apressando-se a sacudi-lo para longe: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — assegura Jorge Coelho. Bem longe dos comuns mortais, portanto.

 

Jorge Coelho só precisa de ter cuidado com as palavras. Vem-me à ideia que, quando vou na rua e dou algum dinheiro a um pedinte, jamais me passaria pela cabeça pensar que apliquei dinheiro num pobre. Quando posso doar algum dinheiro a uma instituição de apoio humanitário, não me vejo a dizer que apliquei dinheiro numa obra que cuida dos que mais precisam. Aplicar dinheiro é um tique capitalista que nem me ocorre, menos ainda para legendar um donativo.

Eu sei, Jorge Coelho, que o socialismo está démodé. É verdade, meu caro, mas tente por um momento recuar ao vocabulário dos seus velhos tempos, pegue na subvenção vitalícia deste mês, do mesmo modo que deve andar a pegar há dezenas de meses, e diga para si mesmo em voz alta que vai aplicar o dinheiro todo em instituições de solidariedade. Soa-lhe bem? Aplicar o dinheiro a ajudar os outros parece-lhe uma linguagem adequada ou sequer normal? Como vão longe aqueles tempos, Jorge Coelho, não acha?

 

Pode Jorge Coelho continuar a vestir-se como um socialista retirado e a falar como um liberal insensível, com as celulazinhas cinzentas canalizadas para a aplicação de dinheiros. Pode, mas deve fazer coisa diferente do que aplicar a subvenção por conta própria, que não é para isso que a gente lha paga. Deve recusá-la e não ter pretensões de se substituir ao Estado, que é de onde ela lhe chega aos bolsos. Deve abdicar dela, que é só o que se espera de um antigo socialista que já teve outrora algumas preocupações de solidariedade. Afinal, por que é que os portugueses há-dem pagar-lha?

Os enteados da Nação


lauraramos,

 

Na verdade, ninguém está verdadeiramente interessado em saber porque é que os funcionários públicos são tidos pelo que são.

Se estivermos em dia sim e tomados de complacência, vemo-los como uns pobres diabos.

São aqueles cromos queirosianos de sempre, alheados de qualquer chama, brio ou ambição. Uns mangas-de-alpaca empedernidos e previsíveis, tecnicamente desclassificados e com cara de fraco ordenado (que em absoluto merecem).

Mas se estivermos em dia não e tomados pelos azeites, o julgamento enfurece-se e vemo-los com as cores fortes de uma caricatura de Bordalo.

São os agentes do atraso nacional; a corja de incompetentes do costume; os oportunistas com ideário de pacotilha; os abusadores do erário público, bafejados pela sorte imerecida de um dolce far niente que o tesouro nacional sustenta.

 

É uma vexata quaestio que reproduz o timbre das nossas relações com o Estado, enquanto cidadãos.

Mas o facto é que quem por lá está- ou esteve – sabe bem como as coisas são na realidade.

Um universo laboral igual a muitos outros, onde coexistem bons e maus profissionais; possuídos de espírito de missão ou de puro mercenariado; gente brilhante ou de uma limitação confrangedora; homens e mulheres sérios e ‘menos sérios’.

E quem por lá está sabe também que isto acontece a qualquer nível.

Quer quanto aos trabalhadores do fundo da pirâmide, quer quanto aos directores e sub-directores gerais nomeados pelos governos. Porque se estes lá calharam muitas vezes pelos melhores motivos (a competência técnica) não se livram de ombrear com criaturas incapazes e oportunistas.

 

Cá de fora, vislumbramos sempre a sombra do pecado evidente, os sinais de parasitismo, as garantias especiais (na verdade, lendárias, na pura acepção da palavra).

Presos destes atavismos pré-democráticos, se não conhecemos a realidade, como poderemos sequer apreciá-la?
E perceber os seus efeitos benéficos (ou os seus fundamentos)?

 

Há uma falta de cultura gritante nesta reprovação social: entendem isto?

Tão confragedora que nem permite alcançar o quanto se reflecte negativamente sobre os todos os cidadãos em geral, e não só sobre os membros da dita classe maldita.

Não têm pão, bebam café


Rui Rocha,

 

Os sucessivos buracos nas contas públicas, o apertão orçamental que aí vem e o contexto internacional pouco favorável, traçam um quadro negro para os próximos anos. Há tempos, António José Seguro perguntava, a propósito da situação da Madeira, quem paga a irresponsabilidade? É uma pergunta pertinente que, todavia, deve ser feita com âmbito mais geral: quem paga anos e anos de gestão vergonhosa do país e das contas públicas? Na verdade, trata-se de uma questão retórica. Já sabemos que quem paga somos nós. Os do costume. Se tivermos em conta que a partir de hoje a electricidade passa a ter IVA a 23%, penso que é razoável dizer que estamos a apagão e água. Para pão, já não deve haver. Enfim, com um bocado de sorte, há-de sobrar qualquer coisa para um ou outro café.

Para os que acusam as autoridades de estarem pouco tempo nas ruas


Rui Rocha,

Os agentes da esquadra da PSP da Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira), inaugurada em maio, têm de fazer cerca de 15 quilómetros para tirar uma fotocópia, já que a sua fotocopiadora está avariada há várias semanas. O ‘scanner’ também avariou há alguns dias e, sempre que precisam da cópia de algum documento, os polícias de serviço são obrigados a deslocar-se até à esquadra mais próxima, que fica em Alverca do Ribatejo.

Os negócios Roberto e BPN


Rui Rocha,

Na gestão privada, quando a Administração da empresa faz asneira, tenta encontrar um esquema que permita convencer os accionistas e o mercado de que, apesar de tudo, o negócio foi proveitoso. Com sorte, safa-se no curto prazo e depois logo se vê. Na gestão pública, o Estado tapa o buraco, no curto e no médio prazo, com o dinheiro dos contribuintes.  E depois logo se vê.

Se me dessem um Maserati…


Sérgio de Almeida Correia,

 

… ainda poderia pensar em ir para motorista do senhor secretário de Estado. Como não me dão, fico apenas com o valor dos ordenados dos motoristas na Secretaria de Estado da Cultura. Se Álvaro Santos Pereira soubesse disto teria tido outros argumentos para justificar o ordenado da sua chefe de gabinete. E quanto ao jovem motorista, o dos 21 anos, espero que se esclareça qual o respectivo currículo, isto é, se foi campeão nacional de velocidade, se andou no europeu ou no mundial de turismos ou, eventualmente, se foi esse o primeiro emprego. E, já agora, também quais as perspectivas de progressão na carreira (se aos 21 ganha assim, aos 40 deve ter o ordenado de um piloto de fábrica do WRC).

Popupoupismo e popudespesismo


Rui Rocha,

Um dos assuntos que nos vai entretendo neste país à beira da reestruturação da dívida plantado é o das viagens em classe económica do primeiro-ministro. Símbolo, clamam alguns. Populismo, contrapõem outros tantos. Parto do princípio que a medida, considerada isoladamente, não terá efeitos por aí além. Positivos ou negativos. E, a benefício da análise, estou até disposto a aceitar que se trata de uma decisão populista. Nesse caso, será tão populista como a construção de auto-estradas inúteis. Mas, mesmo que seja assim, temos que distinguir  uma situação da outra. O eventual populismo concretizado em viagens em classe económica não endivida o Estado de forma absurda e insustentável. As obras sumptuárias e inúteis comprometem (comprometeram) o nosso futuro. No primeiro caso, estaremos, no pior cenário, perante popupoupismo. No segundo, trata-se de popudespesismo. Em qualquer circunstância, prefiro o primeiro.