Um Estado em pré-falência decide construir uma nova esquadra da PSP. Um Estado já em falência trata de inaugurar a nova esquadra. A nova esquadra está equipada com aparelhos electrónicos/informáticos que, como de costume, foram adquiridos pelo triplo do valor de mercado. Os ditos aparelhos, sofisticados, estão destinados a ser usados por gente sem preparação para o efeito e com pouco zelo por equipamentos de secretaria. A agravar a situação, os referidos aparelhos foram vendidos “armadilhados” (obsolescência programada), pois, como é sabido, o verdadeiro negócio está nos contratos de manutenção. Não admira, pois, que os aparelhos estejam já avariados. O que, supostamente, não seria problema, porque ainda estão na garantia. Mas há um pequeno senão: os cortes na despesa originaram que os ditos aparelhos não tenham ainda sido pagos. E enquanto não vir o guito, a empresa que os forneceu recusa-se a repará-los ou substituí-los. Entretatanto, a poupança com os equipamentos resulta em gasto em deslocações (e tempo perdido) até à esquadra mais próxima. Também por corte na despesa, não avança a contratação de uma empresa de limpeza.
Assim, caro Rui, em que ficamos? Está de acordo com estes cortes na despesa? Acha-os contraproducentes? Tem sugestões para outros cortes de despesa? Talvez cortar no papel ou no tonner? Pôr os agentes a fazer o percurso até Alverca de bicla? Ou já percebeu que o verdadeiro corte na despesa, que o caro Rui tanto reclama, implica o encerramento imediato daquela esquadra, acabada de inaugurar? Pelo menos, acaba-se a choradeira com a fotocopiadora…
Caro Sampy, não me pronunciarei sobre a esquadra em concreto. Os cortes na despesa que reclamo decorrem de uma reestruturação essencial do Estado. Passam por, no futuro, e para dar um exemplo, não construir auto-estradas inúteis apenas para manter activo um lobby. E, relativamente ao que já existe, aplicar o mesmo tipo de racionalização. E, se esta implicar fechar a dita esquadra, pois que se feche.
Caro Rui, a reestruturação essencial do Estado é muito simples de enunciar: não se gasta aquilo que não se tem. O problema não está, pois, nos gastos futuros ou nos gastos inúteis. O problema é que o Estado está teso: não há guito para gastar em nada. Tudo o que está a ser arrecadado de impostos é, na prática, para amortizar dívida, para pagar o que já se gastou.
Gostaria de o convidar a ver (ou rever) o filme “127 Hours”. Faça depois a analogia com um Estado aventureiro que se vê entalado e tem forçosamente de agir para sobreviver. E perceberá a inconsciência da esmagadora maioria dos que andam por aí a clamar por cortes na despesa sem darem conta do que isso realmente significa.
Percebo o quer dizer e concordo consigo no essencial. Saliento, todavia o seguinte: não fui eu quem prometeu fazer o ajustamento com 2/3 de corte na despesa; se não é viável fazer outra coisa que não seja cobrar sucessivamente mais impostos, se não é possível reestrurar o Estado, então é melhor acabar já com isto.
Não se aflija com as promessas. Neste momento, já nada disso interessa. Veja a realidade com os seus próprios olhos. Continuando a analogia do filme: para o Estado ter hipóteses de sobreviver, vai ter de cortar o braço. Não é a manga da camisa ou do casaco; é o braço. E vai ter de cortá-lo a sangue frio. E quando se diz “Estado”, diz-se cada um de nós. Neste momento, o Estado está a cortar os dedos do braço (aumentando os impostos). E o pessoal já desespera de dor e reclama que a promessa era de cortar o braço. Como se fosse suposto que o corte do braço doesse menos que o corte dos dedos; ou que, cortando o braço, se pudesse conservar os dedos. A única coisa que haveria verdadeiramente a reclamar é que se cortasse o braço de uma vez, sem andar a cortar aos bocados. Mas, para isso, era preciso estar consciente do dilema que se enfrenta; e ter a coragem de agir. Mas, neste país, o que reina é a inconsciência e a cobardia. Por isso, vai-se cortando a pouco e pouco, para manter um pouco mais a ilusão de que talvez se consiga salvar o braço, ou de que o braço a cortar será de outrem; ou para que a pessoa se habitue entretanto ao sofrimento e já não sinta o golpe final. Claro que, como o caro Rui diz, há outra solução: simplesmente desistir e dar um tiro na cabeça. E não falta quem esteja a fazê-lo, curiosamente levando as esposas/companheiras à sua frente. Espero que essa solução não esteja a atrair demasiado o caro Rui. Portanto, a pergunta é: está pronto para cortar o seu braço?
Ora cá está o exemplo paradigmático dos cortes na despesa tão ansiados pelo autor do post…
Parece-me não, Sampy. O que está aqui em causa é um Estado acéfalo que eu tenho ainda esperança que possa mudar nos próprios tempos.
Permita-me que o elucide, caro Rui Rocha.
Um Estado em pré-falência decide construir uma nova esquadra da PSP. Um Estado já em falência trata de inaugurar a nova esquadra.
A nova esquadra está equipada com aparelhos electrónicos/informáticos que, como de costume, foram adquiridos pelo triplo do valor de mercado.
Os ditos aparelhos, sofisticados, estão destinados a ser usados por gente sem preparação para o efeito e com pouco zelo por equipamentos de secretaria. A agravar a situação, os referidos aparelhos foram vendidos “armadilhados” (obsolescência programada), pois, como é sabido, o verdadeiro negócio está nos contratos de manutenção.
Não admira, pois, que os aparelhos estejam já avariados. O que, supostamente, não seria problema, porque ainda estão na garantia.
Mas há um pequeno senão: os cortes na despesa originaram que os ditos aparelhos não tenham ainda sido pagos. E enquanto não vir o guito, a empresa que os forneceu recusa-se a repará-los ou substituí-los.
Entretatanto, a poupança com os equipamentos resulta em gasto em deslocações (e tempo perdido) até à esquadra mais próxima.
Também por corte na despesa, não avança a contratação de uma empresa de limpeza.
Assim, caro Rui, em que ficamos? Está de acordo com estes cortes na despesa? Acha-os contraproducentes?
Tem sugestões para outros cortes de despesa? Talvez cortar no papel ou no tonner? Pôr os agentes a fazer o percurso até Alverca de bicla?
Ou já percebeu que o verdadeiro corte na despesa, que o caro Rui tanto reclama, implica o encerramento imediato daquela esquadra, acabada de inaugurar? Pelo menos, acaba-se a choradeira com a fotocopiadora…
Caro Sampy, não me pronunciarei sobre a esquadra em concreto. Os cortes na despesa que reclamo decorrem de uma reestruturação essencial do Estado. Passam por, no futuro, e para dar um exemplo, não construir auto-estradas inúteis apenas para manter activo um lobby. E, relativamente ao que já existe, aplicar o mesmo tipo de racionalização. E, se esta implicar fechar a dita esquadra, pois que se feche.
Caro Rui, a reestruturação essencial do Estado é muito simples de enunciar: não se gasta aquilo que não se tem.
O problema não está, pois, nos gastos futuros ou nos gastos inúteis. O problema é que o Estado está teso: não há guito para gastar em nada. Tudo o que está a ser arrecadado de impostos é, na prática, para amortizar dívida, para pagar o que já se gastou.
Gostaria de o convidar a ver (ou rever) o filme “127 Hours”. Faça depois a analogia com um Estado aventureiro que se vê entalado e tem forçosamente de agir para sobreviver. E perceberá a inconsciência da esmagadora maioria dos que andam por aí a clamar por cortes na despesa sem darem conta do que isso realmente significa.
Percebo o quer dizer e concordo consigo no essencial. Saliento, todavia o seguinte: não fui eu quem prometeu fazer o ajustamento com 2/3 de corte na despesa; se não é viável fazer outra coisa que não seja cobrar sucessivamente mais impostos, se não é possível reestrurar o Estado, então é melhor acabar já com isto.
Caro Rui, permita-me que insista.
Não se aflija com as promessas. Neste momento, já nada disso interessa. Veja a realidade com os seus próprios olhos.
Continuando a analogia do filme: para o Estado ter hipóteses de sobreviver, vai ter de cortar o braço. Não é a manga da camisa ou do casaco; é o braço. E vai ter de cortá-lo a sangue frio. E quando se diz “Estado”, diz-se cada um de nós.
Neste momento, o Estado está a cortar os dedos do braço (aumentando os impostos). E o pessoal já desespera de dor e reclama que a promessa era de cortar o braço. Como se fosse suposto que o corte do braço doesse menos que o corte dos dedos; ou que, cortando o braço, se pudesse conservar os dedos.
A única coisa que haveria verdadeiramente a reclamar é que se cortasse o braço de uma vez, sem andar a cortar aos bocados. Mas, para isso, era preciso estar consciente do dilema que se enfrenta; e ter a coragem de agir. Mas, neste país, o que reina é a inconsciência e a cobardia. Por isso, vai-se cortando a pouco e pouco, para manter um pouco mais a ilusão de que talvez se consiga salvar o braço, ou de que o braço a cortar será de outrem; ou para que a pessoa se habitue entretanto ao sofrimento e já não sinta o golpe final.
Claro que, como o caro Rui diz, há outra solução: simplesmente desistir e dar um tiro na cabeça. E não falta quem esteja a fazê-lo, curiosamente levando as esposas/companheiras à sua frente. Espero que essa solução não esteja a atrair demasiado o caro Rui. Portanto, a pergunta é: está pronto para cortar o seu braço?