Para os que acusam as autoridades de estarem pouco tempo nas ruas


Rui Rocha,

Os agentes da esquadra da PSP da Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira), inaugurada em maio, têm de fazer cerca de 15 quilómetros para tirar uma fotocópia, já que a sua fotocopiadora está avariada há várias semanas. O ‘scanner’ também avariou há alguns dias e, sempre que precisam da cópia de algum documento, os polícias de serviço são obrigados a deslocar-se até à esquadra mais próxima, que fica em Alverca do Ribatejo.

7 comentários em “Para os que acusam as autoridades de estarem pouco tempo nas ruas”

  1. Permita-me que o elucide, caro Rui Rocha.

    Um Estado em pré-falência decide construir uma nova esquadra da PSP. Um Estado já em falência trata de inaugurar a nova esquadra.
    A nova esquadra está equipada com aparelhos electrónicos/informáticos que, como de costume, foram adquiridos pelo triplo do valor de mercado.
    Os ditos aparelhos, sofisticados, estão destinados a ser usados por gente sem preparação para o efeito e com pouco zelo por equipamentos de secretaria. A agravar a situação, os referidos aparelhos foram vendidos “armadilhados” (obsolescência programada), pois, como é sabido, o verdadeiro negócio está nos contratos de manutenção.
    Não admira, pois, que os aparelhos estejam já avariados. O que, supostamente, não seria problema, porque ainda estão na garantia.
    Mas há um pequeno senão: os cortes na despesa originaram que os ditos aparelhos não tenham ainda sido pagos. E enquanto não vir o guito, a empresa que os forneceu recusa-se a repará-los ou substituí-los.
    Entretatanto, a poupança com os equipamentos resulta em gasto em deslocações (e tempo perdido) até à esquadra mais próxima.
    Também por corte na despesa, não avança a contratação de uma empresa de limpeza.

    Assim, caro Rui, em que ficamos? Está de acordo com estes cortes na despesa? Acha-os contraproducentes?
    Tem sugestões para outros cortes de despesa? Talvez cortar no papel ou no tonner? Pôr os agentes a fazer o percurso até Alverca de bicla?
    Ou já percebeu que o verdadeiro corte na despesa, que o caro Rui tanto reclama, implica o encerramento imediato daquela esquadra, acabada de inaugurar? Pelo menos, acaba-se a choradeira com a fotocopiadora…

    1. Caro Sampy, não me pronunciarei sobre a esquadra em concreto. Os cortes na despesa que reclamo decorrem de uma reestruturação essencial do Estado. Passam por, no futuro, e para dar um exemplo, não construir auto-estradas inúteis apenas para manter activo um lobby. E, relativamente ao que já existe, aplicar o mesmo tipo de racionalização. E, se esta implicar fechar a dita esquadra, pois que se feche.

  2. Caro Rui, a reestruturação essencial do Estado é muito simples de enunciar: não se gasta aquilo que não se tem.
    O problema não está, pois, nos gastos futuros ou nos gastos inúteis. O problema é que o Estado está teso: não há guito para gastar em nada. Tudo o que está a ser arrecadado de impostos é, na prática, para amortizar dívida, para pagar o que já se gastou.

    Gostaria de o convidar a ver (ou rever) o filme “127 Hours”. Faça depois a analogia com um Estado aventureiro que se vê entalado e tem forçosamente de agir para sobreviver. E perceberá a inconsciência da esmagadora maioria dos que andam por aí a clamar por cortes na despesa sem darem conta do que isso realmente significa.

    1. Percebo o quer dizer e concordo consigo no essencial. Saliento, todavia o seguinte: não fui eu quem prometeu fazer o ajustamento com 2/3 de corte na despesa; se não é viável fazer outra coisa que não seja cobrar sucessivamente mais impostos, se não é possível reestrurar o Estado, então é melhor acabar já com isto.

  3. Caro Rui, permita-me que insista.

    Não se aflija com as promessas. Neste momento, já nada disso interessa. Veja a realidade com os seus próprios olhos.
    Continuando a analogia do filme: para o Estado ter hipóteses de sobreviver, vai ter de cortar o braço. Não é a manga da camisa ou do casaco; é o braço. E vai ter de cortá-lo a sangue frio. E quando se diz “Estado”, diz-se cada um de nós.
    Neste momento, o Estado está a cortar os dedos do braço (aumentando os impostos). E o pessoal já desespera de dor e reclama que a promessa era de cortar o braço. Como se fosse suposto que o corte do braço doesse menos que o corte dos dedos; ou que, cortando o braço, se pudesse conservar os dedos.
    A única coisa que haveria verdadeiramente a reclamar é que se cortasse o braço de uma vez, sem andar a cortar aos bocados. Mas, para isso, era preciso estar consciente do dilema que se enfrenta; e ter a coragem de agir. Mas, neste país, o que reina é a inconsciência e a cobardia. Por isso, vai-se cortando a pouco e pouco, para manter um pouco mais a ilusão de que talvez se consiga salvar o braço, ou de que o braço a cortar será de outrem; ou para que a pessoa se habitue entretanto ao sofrimento e já não sinta o golpe final.
    Claro que, como o caro Rui diz, há outra solução: simplesmente desistir e dar um tiro na cabeça. E não falta quem esteja a fazê-lo, curiosamente levando as esposas/companheiras à sua frente. Espero que essa solução não esteja a atrair demasiado o caro Rui. Portanto, a pergunta é: está pronto para cortar o seu braço?

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