Certa


Patrícia Reis,

Não é que tenha de ter razão. Não preciso de me sentir certa todos os dias. Acredita. Posso cometer os mesmos erros de sempre e dizeres que, pese as horas de conversa e acusações mútuas, sou incapaz de aprender. O pior, sabes, é que quando sinto que a certeza mora cá dentro fico cheia de palavras que podem cair como uma chuva de pedras. O amor sem condição é impossível. Estar certa, completamente ciente de que o caminho que percorro é o justo, longe das sombras e outras maldades. Posso arriscar e dizer que, terás de me perdoar, mas desta vez ganho eu. E é assim. Tenho razão. Queres que explique melhor? As palavras não são a verdade inteira da justiça do que sinto. As palavras são poucas e estão gastas, terás de ouvir o silêncio do que te digo ou escrevo. Arrisca um pouco, deixa o pedestal de ser o que achas que tens de ser, desce à rua da amargura, mesmo aqui aos teus pés, e vê como o meu coração se desfaz nas pedras para que o possas pisar. Sim, a razão é essa, o meu coração derramado, incapaz de se moldar de novo, transformar-se num músculo dentro de um corpo. Eu já não tenho corpo e tu nem dás por isso. Olha para mim, não olhes para o que pensas que eu sou, mas para quem eu sou. Não o sabes fazer? Já o sei. Tanta coisa que é impossível saber. Deixa, não te rales, a vida é feita destas intrigas e pedaços de fracasso, sem drama, vamos aprendendo a ver conforme nos é possível. Por isto tudo, o meu coração já não pulsa, permanece aos teus pés e falas para um coração morto. Podes contar das tuas razões até ao Verão. Já cá não estou para te ouvir, mas estou certa. Certa da minha morte em ti. Quando tropeçares naquele líquido não será vermelho de paixão, apenas uma cor vil de fim. Não te surpreendas, mas tens permissão para chorar e dizer que não entendes. Quando foi que entendeste? 

 

http://www.portaldaliteratura.com/cronicas.php?id=85#ixzz2Fk57nQ9I

tudo o que a escuridão te diz


Patrícia Reis,

Podemos ficar apenas em silêncio, os corpos a virar na cama, ajeitar os lençóis, depois as almofadas, uma súbita vontade de ir à casa de banho, regressar, puxar o corpo para a cama como quem arrasta uma rede cheia de peixes, um esforço adicional para encolher as pernas, a posição fetal e o teu corpo a milhares de quilómetros, o teu corpo a mexer-se também, a respiração menos profunda, sinal de que estás tão acordado quanto eu, não dizes nada, mas encolhes o braço e voltas a esticá-lo, tocas na minha anca, um toque acidental e, de imediato, a mão desaparece no escuro e os segundos são a agonia do amor na escuridão quando não se quer dizer o que temos para dizer. Se, de repente, a luz invadir o quarto não te irás reconhecer nos meus olhos e isso – só isso – será a mão divina que tudo esclarece, como um espelho de radiografias emocionais. O amor foi-se. A escuridão apenas esconde a verdade. Não me digas que não.

A enfermeira


Patrícia Reis,

Ler os jornais e os portais é uma forma muito bizarra de ver a vida. Hoje o mundo gira à volta da enfermeira, com apelido português, descendente de indianos, porventura de Goa, que se suicidou depois de uma brincadeira de uns tipos de uma rádio. Os mesmos tipos que já foram à televisão de lágrimas pedir desculpa e explicar que tudo não passou de uma brincadeira.

Eu cá tenho carteira profissional de jornalista, portanto vamos às coisas básicas: se a senhora caiu para o lado, porquê a teoria de suicídio? Se a senhora atendeu o telefone da estação de rádio com tendência para brincadeiras e passou para a chefe ficou muito abalada? A senhora teria uma relação de proximidade tão grande com a Princesa de Gales e a putativa gravidez que ficou transtornada pelo assunto ser comentado? Irra. Outra vez. Há quem esteja na fase dos porquês, eu estou na fase do Irra.

Clarice Lispector, nasceu a 10, morreu a 9 de Dezembro


Patrícia Reis,

 


       “Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
       Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

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       “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

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       “Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
       O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
       […] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

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       “Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[…] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
       O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

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       “Sou tão misteriosa que não me entendo.”

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       “Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

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       “Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
       “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
       O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
       “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

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       “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca […].”

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“Eu disse a uma amiga:
       — A vida sempre superexigiu de mim.
       Ela disse:
       — Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
       Sim.”

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       “Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto…”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

 

Rui Zink também pode dizer sobre o Estado do país? Sim.


Patrícia Reis,

Cinco leis que o escritor Rui Zink (o último livro chama-se Instalar o Medo e é muito bom, não está no top da Bertrand mas deveria estar) faria aprovar: 1) Proibir a hipocrisia. 2) Multar a demagogia. 3) Obrigar os filhos dos ministros a frequentarem a escola pública. 4) Interditar por dez anos que ex-governantes ocupem cargos em empresas com as quais negociaram, em nome do Estado, com prejuízo óbvio para o Estado. 5) Duplicar, no legislador e classe dirigente, os “sacrifícios” que pedem aos outros.

o professor Marcelo


Patrícia Reis,

Primeiro é preciso dizer que eu gosto do Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Sempre foi simpático e educado comigo. Portanto, socialmente, nada a dizer.

 

Nos últimos tempos dou comigo a pensar:

É evidente que é um homem inteligente, com muitas horas de televisão para reforçar a sua credibilidade e imagem. Mas não chega já?

 

Ou seja, o meu sentimento é quase básico: o homem sabe de tudo, lê tudo, vê tudo, pontifica sobre tudo, conhece todos e continua a dizer que não tem uma agenda política, nada de querer ser presidente da República ou coisa que o valha. Seja. Ninguém se lembra de como foi um desastre à frente do seu partido e tão pouco de quer saber quanto cobra por pareceres jurídicos, como e quanto recebe pelos seus comentários na televisão – aquilo a que chamo as Lições de Marcelo – e se é mesmo o que parece ser.

Sei que estou a ser politicamente incorrecta. O senhor é inteligente e simpático, já o disse. E terá, para muitos, um carisma televisivo que se deve medir em audiências ou share. Consta que a guerra para ser o seu interlocutor na televisão é renhida: cada jornalista acha que o merece. Como se o homem fosse um rebuçado.

Dizem-me ainda de como é excelente professor e – atenção, não menos importante – como é que ele, autor de diversos livros, tem agora um volume já no top de vendas da Bertrand. isto num país onde os livros vendem pouco (excepção feita às tais sombras de Grey que, deduzo, nada tenham a ver com o conteúdo dos livros do professor).

Depois de ver os jornais e os portais, blogues e afins, fico a pensar neste ideia de saudosismo que todos nós temos. Precisamos de acreditar em alguém e se este senhor diz que as medidas da Grécia não podem ser aplicadas a Portugal ou que o o cinema deveria ser organizado em toda sua extensão ou que as crianças devem aprender francês e alemão, está tudo bem. A malta acata e faz manchetes de jornal. A malta tem pouca memória, concluo ainda. Não faz mal.

Na televisão e no top da Bertrand, o professor pode-nos salvar e, caso não o faça, não é por não querer, é porque não pode e nós perdoamos.

E porque não?

a crise


Patrícia Reis,

A crise é viajar pela cidade de Lisboa e ver cartazes a dizer: arrenda-se, vende-se, trespasse. A crise é ver o número de sem abrigos na Gare do Oriente a crescer. A crise é uma chamada para os bombeiros quando um velho só quer dois dedos de conversa. A crise é não saber como explicar que sim, são restos outra vez. A crise é ver o fundo do armário. A crise é ver os computadores vazios de coisas. 

 

O melhor da crise é puxar pela imaginação, rir na cara da crise como quem ri na cara de alguém que desprezamos e sabemos ser má pessoa. O melhor da crise é a oportunidade de fechar uma porta e abrir uma janela. O melhor da crise é, finalmente, ver como algumas pessoas têm de cair na real. O melhor da crise é saber dar a volta.

Blogue da Semana


Patrícia Reis,

O blogue Acordar um dia é da autoria do engenheiro (físico) e escritor Nuno Camarneiro. É preciso dizer que eu gosto do Nuno. Aprendi a gostar numa viagem, já depois de ter lido o seu primeiro romance (No meu peito não cabem pássaros, edições dom quixote). É um homem que gosta da vida, de dar aulas, de cantar o fado de Coimbra, de fumar com os amigos, de poesia e de t-shirt amarelas. Tem um sorriso fácil. Estudou em Itália para se especializar na autenticação de obras de arte. Pelas suas mãos (com as devidas luvas) já passou um original de Leonardo da Vinci. O Nuno conta estas coisas sem qualquer presunção. É de uma gentileza desarmante. E a escrita, sendo da nova vaga, de uma geração que não chegou aos 40, está quase a chegar, é fruto de muito trabalho, de sensibilidade e inteligência. Desde 2009, o blogue segue os dias como um diário, com muitas ilustrações de alta qualidade, num registo contemporâneo e, por vezes, poético. Dizem que o país está em crise. Está. Em termos de criatividade estamos de saúde.

 

Eis a última postagem do Nuno:

21.11.12

Idade Para Estar Calado

Tão novo e já sem metafísica. E eu que estudei, que resolvi as equações de Maxwell e de Schrödinger, que aprendi até as leis da termodinâmica e da relatividade. E depois nada, só este andar por cá, a dizer e a escrever coisas que às vezes se aproveitam e às muitas outras se vão perdendo.

Tão novo e já tão Esteves. Sem nada para lá de mim, um corpo tão pouco guerreiro entre forças e Deus, e sempre sem umas ou o Outro.

Deixei-me apanhar pelo tempo e pelos homens, foi isso, não foi isso? Agora como e deixo-me comer, certo como um relógio de trazer no bolso. Por onde anda o meu compasso metafísico? Pudesse eu ser um jovem antigo…

Tenho apenas a sorte inteira de haver velhos com ideias velhas. Homens e mulheres (alguns até alemães) que me dizem o que sou, e porque sou, e até como deveria ser.

O melhor é calar-me, ou dizer o que dizem, se pensaram tanto quem sou eu agora? O melhor é estar calado e esperar que passe, afinal não hei-de ser novo por muito mais tempo.

João Berhan


Patrícia Reis,

 

A música portuguesa é como a literatura, imune à crise. Aqui está uma produção independente e familiar, um disco que se chama “toda a gente a fugir para a frente”. Façam o favor de divulgar. Esta canção é uma homenagem à avó. E eu, como se sabe, estou com a nostalgia de outros tempos. Acresce que o João Berhan compõe, escreve, toca e agradece a todos, dedica à família e ninguém sabe quem ele é. Por isso, partilhem, procurem.

Maria Teresa Horta


Patrícia Reis,

Ontem, na entrega do Prémio Máxima a Maria Teresa Horta calhou-me o privilégio de falar sobre ela. Assim:

A Maria Teresa disse:
Estou a fazer marmelada mas como me pode surgir um poema e depois perco a noção do tempo, ligo um alarme. Para não deixar queimar os marmelos com o açúcar. Não posso é deixar que o poema me escape da mão, percebes?

A desobediente disse tudo isto com uma calma imensa, um

riso pequeno guardado no canto de cada palavra.
Podíamos esquecer o cinzento lá de fora e ainda o estranho barulho na cabeça. Somos uma aparição uma da outra entre a marmelada e o poema. Agitamos a solidão, uma da outra, na panela já gasta. Uma colher de pau na mão, sempre na direcção do relógio. Sem pressa.

A minha relação com Maria Teresa Horta é feita destes pedaços. E, através dos seus olhos cor de mar, vejo o mundo de outra forma. Desde que a descobri, por fim, a palavra que melhor me serve surgiu com enorme clarividência: desobediência. Ela é desobediente e eu sou igualmente feita desse molde que não se encaixa em nada.

Há muito que nos separa, a começar pela idade, mas isso pouco nos importa. As nossas conversas fluem como água fresca num riacho e, de repente, pela noite, chega um poema numa letra a azul que a Maria Teresa escolhe e, no fim, a assinatura para aqueles que ama: beijo-te de te adorar. Nunca ninguém me tinha escrito nada de semelhante: beijo-te de te adorar. O amor entre as mulheres, amizade que nos cola e não se explica, nasce de uma forma algo inusitada. É um mistério. E, ao mesmo tempo, um regresso a um lugar de consolo, de renascimento.
Eu, a admiradora, ela, a escritora, poetisa, activista que tanto me tinha dado.

Leio a Maria Teresa desde os meus 13 anos.

No ano passado li e reli as Luzes de Leonor e nunca perco a sua poesia de vista. Preciso que esteja perto. E preciso ainda de um sentido ético que existe na Maria Teresa e que, ligado à desobediência e a um sentido político de cada acto individual, define a sua maneira de estar e ver o mundo. Não é – nunca foi ou será – uma mulher como as outras, uma acomodada, comodista, politicamente correcta, calada, submissa. No entanto, nada disto invalida o outro lado da moeda. É que com a Maria Teresa aprendemos a paixão, o empenho, o entusiasmo, a não desistência que é diferente da militância cega e fundamentalista.

Os poemas ditos eróticos de Maria Teresa são poemas de amor e ela carrega em si, na sua pele, na escrita, um amor imenso por pessoas que a rodeiam, do marido, Luís, ao filho Luís Jorge, à nora e filha de coração Antónia e aos netos Bernardo e Tiago. Mas há mais outros laços e rotinas que a encantam. As sextas-feiras da família. O bolo que faz, a marmelada que pode queimar e, acima de tudo, a ideia de que a escrita está na ponta dos dedos, no fim ou princípio de um caudal de alma que será derramado, diariamente, num poema. E um poema pode ser uma frase ou um desabafo. Ou, para quem saiba entender, um exercício de expulsar a tristeza. Pelo menos de tentar expulsar a tristeza.

Há um certo espelho da vida da Teresa que eu encontro na minha. Talvez por isso tenha demorado tanto tempo a ter a coragem de lhe falar. Depois disso nunca mais nos largámos e sei que será assim.

Esta homenagem, ou qualquer outra, comove-me e enche-me de orgulho, já que todas as vezes que alguém acarinha, lê e apreende o que Maria Teresa Horta anda a escrever há mais de 52 anos (faz este ano 52 anos de vida literária, teve o seu primeiro prémio como um prémio de carreira da revista Máxima em 2008 e o Dom Dinis no ano passado) eu acredito que fico menos sozinha no mundo. Tudo graças a esta mulher absoluta, a minha nossa senhora dos anéis.

Ok, então vamos lá


Patrícia Reis,

Quando se começa no mundo empresarial há ilusões que enchem várias caixas. Uma década e meia mais tarde, em plena crise, as caixas estão vazias ou cheias de outras coisas. Podemos falhar melhor? Não sei. O que sei é que o atelier 004, onde se faz a Egoísta, por exemplo, é uma estrutura quase familiar que começa a ser uma casca de noz num mar que se agita. Oiço as notícias, faço as minhas contas. Observo a vida das pessoas e, no fim, percebo que a única solução é continuar a fazer o melhor possível. Dá o mesmo trabalho que fazer mal feito.

alto de São João


Patrícia Reis,

O crematório foi mandado construir em 1920.

Há uma lápide, à esquerda, antes do crematório, se andarem um pouco, depois do jazigo da baroneza, onde se lê que um Manuel era inimigo da Companhia de Jesus. Nesta lápide está o símbolo da maçonaria. O rapaz reconhece tudo com calma.

O dia está bonito.

A mulher seca. Não lhe resta uma gota, as forças são virtuais.

Há muitos anos, quando era miúda, a mulher andou por ali, como agora anda o rapaz, e descobriu a história da cidade pelas histórias de um tio-avô. Agora está apenas contente por estar sol. Por estar um dia bonito e, podendo reviver a história da cidade, vendo dois muçulmanos entrar no cemitério, acaba por se juntar à família.

Não há o ruído do caixão que vai à terra. Uma cortina e o caixão desaparece. Ninguém sabe muito bem o que fazer ou dizer. O cansaço ainda não prevalece. A mulher abraça a mãe, o tio, as primas, o rapaz e o pai do rapaz. Depois, sozinha, regressa a casa e é outra forma de fechar a cortina.

Em memória do senhor comandante


Patrícia Reis,

Para o senhor comandante

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone.

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling in the sky the message

He is Dead,

Put crêpe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun.

Pour away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.

 

Wystan Hugh Auden (1907-1973)