o professor Marcelo


Patrícia Reis,

Primeiro é preciso dizer que eu gosto do Professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Sempre foi simpático e educado comigo. Portanto, socialmente, nada a dizer.

 

Nos últimos tempos dou comigo a pensar:

É evidente que é um homem inteligente, com muitas horas de televisão para reforçar a sua credibilidade e imagem. Mas não chega já?

 

Ou seja, o meu sentimento é quase básico: o homem sabe de tudo, lê tudo, vê tudo, pontifica sobre tudo, conhece todos e continua a dizer que não tem uma agenda política, nada de querer ser presidente da República ou coisa que o valha. Seja. Ninguém se lembra de como foi um desastre à frente do seu partido e tão pouco de quer saber quanto cobra por pareceres jurídicos, como e quanto recebe pelos seus comentários na televisão – aquilo a que chamo as Lições de Marcelo – e se é mesmo o que parece ser.

Sei que estou a ser politicamente incorrecta. O senhor é inteligente e simpático, já o disse. E terá, para muitos, um carisma televisivo que se deve medir em audiências ou share. Consta que a guerra para ser o seu interlocutor na televisão é renhida: cada jornalista acha que o merece. Como se o homem fosse um rebuçado.

Dizem-me ainda de como é excelente professor e – atenção, não menos importante – como é que ele, autor de diversos livros, tem agora um volume já no top de vendas da Bertrand. isto num país onde os livros vendem pouco (excepção feita às tais sombras de Grey que, deduzo, nada tenham a ver com o conteúdo dos livros do professor).

Depois de ver os jornais e os portais, blogues e afins, fico a pensar neste ideia de saudosismo que todos nós temos. Precisamos de acreditar em alguém e se este senhor diz que as medidas da Grécia não podem ser aplicadas a Portugal ou que o o cinema deveria ser organizado em toda sua extensão ou que as crianças devem aprender francês e alemão, está tudo bem. A malta acata e faz manchetes de jornal. A malta tem pouca memória, concluo ainda. Não faz mal.

Na televisão e no top da Bertrand, o professor pode-nos salvar e, caso não o faça, não é por não querer, é porque não pode e nós perdoamos.

E porque não?

Um comentário em “o professor Marcelo”

  1. Não está em causa a pessoa de Marcelo Rebelo de Sousa. Longe disso. É preciso na arena pública. Ponto.

    O seu maior dote é a “visibilidade” do seu texto oral. Luminoso. Os neurónios podem estar parados…que a malta percebe. Só.

    Mas, atenção, por vezes a facilidade da comunicação transmite ela própria erros. Não estou a referir-me a erros de previsão. Estou tão somente a referir-me a erros factuais. Mas em Portugal tudo passa…pois o que interessa é saber como o vizinho vive, e o seu estado d´alma, …e se tanto pior para ele, melhor para nós.
    O povo não mudou muito desde Gil Vicente.

    Vamos ver o papel que para esta gente está reservado quando o telhado estiver mesmo a arder…

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