O crematório foi mandado construir em 1920.
Há uma lápide, à esquerda, antes do crematório, se andarem um pouco, depois do jazigo da baroneza, onde se lê que um Manuel era inimigo da Companhia de Jesus. Nesta lápide está o símbolo da maçonaria. O rapaz reconhece tudo com calma.
O dia está bonito.
A mulher seca. Não lhe resta uma gota, as forças são virtuais.
Há muitos anos, quando era miúda, a mulher andou por ali, como agora anda o rapaz, e descobriu a história da cidade pelas histórias de um tio-avô. Agora está apenas contente por estar sol. Por estar um dia bonito e, podendo reviver a história da cidade, vendo dois muçulmanos entrar no cemitério, acaba por se juntar à família.
Não há o ruído do caixão que vai à terra. Uma cortina e o caixão desaparece. Ninguém sabe muito bem o que fazer ou dizer. O cansaço ainda não prevalece. A mulher abraça a mãe, o tio, as primas, o rapaz e o pai do rapaz. Depois, sozinha, regressa a casa e é outra forma de fechar a cortina.

Belo texto minha querida Patricia!
Querida Patrícia, poderia dizer-te tanta coisa, mas tu já sabes tudo o que tenho para te dizer, mesmo assim: há muito, muitos anos, perdi o meu Avô, escreverei sempre com maiúscula, com ele desapareceu uma das melhores fases da minha vida – a minha infância, a candura e a crença de que não morremos nunca. Foi um dia de março e o sol também nos fez companhia. Fiquei, durante muitos dias, arrisco , semanas, perdida, às voltas com a dor e com a certeza de que estava a viver um pesadelo de que acordaria logo, logo e que poderia continuar ir visitá-lo todos os dias. Fui durante anos neta única e a sua adorada menina, que ele sentava no colo e dizia ” Esta neta vale um milhão!” (nunca soube que milhão seria, de quê, de ouro? -nunca descobri). Com a perda deste meu Avô -que tu deves ter conhecido -foram as histórias, as gargalhadas e um dos melhores abraços da minha vida. Passei dias em que chorava muito. Passei dias sem chorar. Mas o tempo, que não atenua a dor,traz-nos , muito devagar, a memória e o silêncio vai ocupando o lugar da tristeza. E, um dia, percebemos que temos um fim e a capacidade de aprender com quem tem alguma coisa para nos ensinar. Com este meu Avô aprendi o sentido da justiça e que não devemos julgar ninguém, o valor da verdade, o peso da amizade, a necessidade de ler jornais e de não desistir dos sonhos. Ele amava a família comia quilos de pêssegos e acreditava que as pessoas são, naturalmente, boas. Tu terás também um Avô igual ao meu. Guarda-o. É teu. Às vezes, dou por mim a pedir-lhe conselhos e mais uma história… Tenho uma mágoa – assim como uma dor fina e – tenho pena que os meus filhos não tivessem conhecido este extraordinário Avó que só usava camisas brancas, conduzia muito depressa e gostava de mim! (não te terei dito nada que tu não soubesses, mas quis dizer-te que conheço bem a tua dor) Beijo
Perder o meu único avô (o outro, nunca o conheci) foi, como diz aqui em cima a Linda David, perder definitivamente uma parte muito especial da minha infância. Mas foi perder também o precioso convívio com um homem muito à frente do seu tempo, que amava as novas tecnologias e comprava tudo o que aparecia de novas maquinetas, pelo puro fascínio de aprender a usá-las. Um homem que deu a volta à Europa (ao mundo até, já nem sei) num Mercedes descapotável com estofos de cabedal encarnado, e nos contava histórias maravilhosas dos lugares por onde tinha andado. Foi perder a inocência de acreditar que tudo seria assim sempre, festivo e aventureiro, num futuro que não tardaria.
Este teu belo texto levou-me a um balanço sobre a memória que guardo do meu avô, em quem já não pensava há bastante tempo. Obrigada por isso, miúda. E um beijo pelo teu dia triste.