tudo o que a escuridão te diz


Patrícia Reis,

Podemos ficar apenas em silêncio, os corpos a virar na cama, ajeitar os lençóis, depois as almofadas, uma súbita vontade de ir à casa de banho, regressar, puxar o corpo para a cama como quem arrasta uma rede cheia de peixes, um esforço adicional para encolher as pernas, a posição fetal e o teu corpo a milhares de quilómetros, o teu corpo a mexer-se também, a respiração menos profunda, sinal de que estás tão acordado quanto eu, não dizes nada, mas encolhes o braço e voltas a esticá-lo, tocas na minha anca, um toque acidental e, de imediato, a mão desaparece no escuro e os segundos são a agonia do amor na escuridão quando não se quer dizer o que temos para dizer. Se, de repente, a luz invadir o quarto não te irás reconhecer nos meus olhos e isso – só isso – será a mão divina que tudo esclarece, como um espelho de radiografias emocionais. O amor foi-se. A escuridão apenas esconde a verdade. Não me digas que não.

Um comentário em “tudo o que a escuridão te diz”

  1. Belo texto minha querida. Poderoso no seu retrato de um quotidiano com o qual nos cruzamos sem quase dar por isso…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *