Quando abdicar é próprio dos fortes


Patrícia Reis,

Por FERREIRA FERNANDES no DN de hoje 

 

Quando um papa, de 85 anos, se sente sem forças e aponta para a sua renúncia, eu não olho para o Anel do Pescador. Olho mesmo, como quando alguém aponta a Lua, para a dimensão do facto. O mundo está demasiado perigoso para que a Igreja Católica – demasiado importante, para além até dos seus fiéis – continue a ser liderada por quem considera que as suas próprias forças “devido à idade avançada, já não são idóneas”. Em 2005, muitos católicos emprestaram à agonia de João Paulo II um significado que eu não via: sentiam-no Cristo, humano e perplexo pelo abandono a que o Pai o votava. Eu só via, respeitador, um velho admirável que morria. Admito que fico mais tranquilo com a decisão de Bento XVI. Ele entendeu as suas limitações: não posso, saio. Quando isto se passa numa instituição como a Igreja Católica e com a instituição que é o próprio Papa (ele e a circunstância de séculos de outros papas) se calhar era preciso um cerebral e um ideólogo como Bento XVI para tomar decisão tão terra a terra. Percebo a cirurgia com que anunciou: “(…) pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20.00 horas, a sede de Roma ficará vacante.” Um intelectual não faz revoluções à marretada, mas de bisturi. Um líder não se agarrar ao exercício do seu poder quando já não tem as condições físicas de o exercer pode ser um pequeno passo para uma pequena empresa; acontecer com um papa é um grande salto para a Humanidade.

bomba relógia


Patrícia Reis,

A rapariga do brinco de pérola de Vermeer, 1665, decidiu ir ao brunch da Bica do Sapato.

Vestiu as calças de ganga, a camisola e, sem reflectir muito, deixou um parco pequeno-almoço pronto para o companheiro. Para quando tiver fome. Assim não precisa dela. Talvez não precise dela em momento algum, mas agora pouco importa. Quando desceu as escadas, muito devagar, mirando as suas sabrinas novas, agarrada a um livro, sentiu-se mais livre.

 

(esta imagem foi “roubada” ao mural do restaurante Bica do Sapato em Lisboa)

 

Coisa soltas


Patrícia Reis,

A vida é para ser vivida.

E vamos todos morrer e não sabemos quando.

Por estas razões podemos apostar em viver em velocidade cruzeiro ou vertiginosa. A mulher tinha optado por viver a mil à hora, fazendo tantas coisas ao mesmo tempo que ninguém a acompanhava.

Sentia-se, evidentemente, sozinha. Não era para menos.

Mantinha a versão de ter de viver uma vida cheia e com significado. Mesmo que fosse sozinha.

Apesar de tudo.

Fosse o tudo o que fosse.

Ela estava na vida e a vida iria reconhecê-la, um dia, pois claro, como não?

 

A mulher passou dos oitenta.

Sozinha, numa casa silenciosa, a vida entrou-lhe pela janela e não lhe sorriu. Quando a encontraram morta tinha uma fotografia de uma criança na mão. Até hoje ninguém sabe quem era a criança. Ela também não.

O livro


Patrícia Reis,

O livro, este ou outro, pouco importa, é um parto com urgência, sem epidural, sempre sofrido e ansioso. Quem disser o contrário, mente. Publicar é, porventura, um dos actos de maior exposição e risco que conheço. Podemos levar pancada de muitos lados e a mesma quantidade de mimos e elogios. Há um lado de vaidade na publicação. Sempre que deitamos um livro para o mercado somos alguém com uma bandeira que afirma que temos algo para dizer.

A vida talvez seja só três dias, como o Carnaval. Nunca tive pressa de publicar e sempre escrevi. Desde que tenho memória. Tudo começou com uma máquina de escrever rudimentar e há umas fotografias a preto e branco que mostram que aos sete anos já escrevia na mesma posição. Têm alguma graça, embora sejam tristes. A tristeza faz parte da escrita, da minha. Não o afirmo com um sentido trágico, apenas pragmático. O que virá a seguir pode ser outra coisa. 

Hoje recebi a capa finalizada do livro novo e pensei: Não sei se tenho coragem. Imediatamente depois deste pensamento bizarro, tive um ataque de riso. Afinal, é só um livro, mais um filho. E os filhos, como se sabe, são do mundo, um empréstimo a curto prazo. Neste caso, dois anos depois de ter começado a escrever, é tempo de deixar a criança ir. E, em Março, aí estará. Para que a cabeça não comece a fazer demasiadas perguntas comecei a escrever outra coisa. Acho que será sempre assim. Tudo se desfaz, mas os gestos são os mesmos.

Dia de São Sebastião no Brasil


Patrícia Reis,

Perpetuando a tradição, centenas de fiéis lotaram a Igreja de São Sebastião, mais conhecida como Igreja dos Capuchinhos, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, para assistir às missas em louvor do santo padroeiro da cidade.
A igreja abriga a imagem de São Sebastião trazida em 1565 pelo fundador da cidade, o português Estácio de Sá, em homenagem ao então rei menino de Portugal, D. Sebastião.
O dia de Sâo Sebastião, 20 de Janeiro, feriado municipal na capital fluminense, destina-se também a assinalar a expulsão dos ocupantes franceses, no século XVI.
Foi, com efeito, no dia 20 de Janeiro de 1567, que os portugueses venceram a batalha do forte Uruçumirim, (hoje Outeiro da Glória), naquela que constituiu a primeira grande vitória sobre os invasores.
Em 1555, os franceses invadiram o Rio de Janeiro pretendendo aqui fundar uma colónia. Em 1564, os portugueses organizaram uma expedição para expulsá-los e fundar uma cidade fortificada com o objectivo de impedir para sempre outras investidas.
Estácio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, chegou no dia 28 de Fevereiro de 1565 com alguns navios e soldados, desembarcando na praia entre o morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar. No dia seguinte, 1º de março de 1565, fundou oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao rei menino de Portugal e escolheu o santo de mesmo nome para padroeiro.
Finalmente, no dia 20 de Janeiro de 1567, travava-se a batalha decisiva, ganha pelos portugueses.

São Sebastião também é padroeiro de numerosas outras cidades de norte a sul do Brasil:

*Estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, Barra Mansa, Três Rios, Aperibé, Araruama.
*Goiás: Rio Verde.Palmeiras de Goiás
*Pará: Altamira e Parauapebas.
*Mato Grosso: Alto Garças.
*Bahia: Alcobaça, Caravelas, Itambé, Trancoso e Maraú (No sul do estado a festa também é chamada de Cavalhada).
*Ceará: Monsenhor Tabosa.
*Minas Gerais: Montes Claros,Alpinópolis, Andradas, Cruzília, Coronel Fabriciano, Leopoldina, Bom Jardim de Minas e São Sebastião do Paraíso.
*Estado de São Paulo: Cajamar, Valinhos, Ibiúna, Suzano e Ribeirão Preto.
*Pernambuco: Jataúba, Limoeiro, Cabo de Santo Agostinho, Belo Jardim e Ouricuri.
*Acre: Xapuri.
*Paraná: Paranavaí , Sengés , Jacarezinho e Andirá.
*Rio Grande do Sul: Bagé, São Sebastião do Caí e Venâncio Aires.
*Santa Catarina: Sombrio.
*Paraíba: São Sebastião de Lagoa de Roça, Picuí e São Bento.
*Rio Grande do Norte: Caraúbas, Equador, Governador Dix-Sept Rosado e Parelhas.

 

(texto do blogue da embaixada portuguesa)

tudo passa


Patrícia Reis,

Os dias correm. O tempo corre. Isto depois tudo junto dizem são anos. E que, como as crianças, é uma inevitabilidade biológica: passa, cresce e depois mingua. A minha bisavó dizia que eu crescia e ela minguava. Eu tinha quatro, cinco, seis. Não sei. Ela morreu a dormir, foi o que me disseram, não sei se é verdade, porque se mente às crianças sobre a morte, porque todos mentimos, num momento ou outro. Às crianças e aos adultos e à imagem que o espelho nos devolve. O que importa é o cliché que resume a coisa: tudo passa, os dias correm, nada que foi pode voltar a ser e o que será é imprevisível até certo ponto ou mesmo na totalidade e não há super homem algum. E eu vou sempre a jogo. Mesmo quando não me convidam, por isso sigo no carril, teimosa, no mesmo carril, sabendo que está gasto e que não me leva a lado algum, mas faz com que o tempo passe e se o tempo passar, os dias passam a semanas, as semanas a meses e os meses a anos e, a seguir, logo se vê. Logo se vê é uma expressão que eu uso com o meu filho mais novo. Logo se vê. E ele acata. Não por ser um menino muito certinho, mas para não levantar ondas, prefere fazê-las de outra forma e faz por estar na idade de as fazer e ainda bem. Até o invejo. O que não invejo é este carril que tenho e que é meu, não posso descartar-me e ninguém o leva daqui. Podia aparecer uma alma gentil que tivesse o condão de me fazer mudar de linha mas dizem que está tudo na minha cabeça e, se for o caso, estou tramada, porque tudo passa e, daqui a nada, já não me lembro. Como aquelas palavras que sei dizer e que não sei pronunciar ou que não me saem, ficam só a boiar na cabeça. Há quem teime nas más notícias e em ver bruxas e nuvens cerradas, o meu carril já passou as bruxas, as traições e as nuvens cerradas, há uma clareira e mesmo que depois seja o mesmo, sinceramente, quem é que se importa?

Alastrar


Patrícia Reis,

O livro ganhou um prémio. É um bom livro, está bem escrito e, de repente, aqui está: alastrou-se. E eu fico logo com comichão. Alastrar não é reflexo. Podem por favor informar o povo em geral e os escritores em particular? Continuei a ler. Temos sete vezes “alastrou-se”. Avisem os editores também.

a melhor frase do ano


Patrícia Reis,

“Adorávamo-nos para além de todas as diferenças. Mais: adorávamo-nos também por causa das nossas diferenças. Cada um de nós procurava no outro a sua parte de maior verdade.“

Paulo Portas sobre Miguel Portas (29.4.2012)

 

Bom 2013


Patrícia Reis,

O homem deve ter uns cinquenta anos.

Está na porta da igreja, ali à rua da Madalena, encostado à parede. Em cima da sua cabeça, pendurado no edifício, vê-se um telão enorme com a palavra Fé. O homem fuma um cigarro e não parece nem pobre, nem rico, nem feliz, nem infeliz.

Por momentos ponderei se não será um daqueles anjos que eu via no Saldanha. Talvez se tenha mudado comigo para a Baixa. Nunca se sabe.

O sol está frio, mas o meu marido mostra-me a cafetaria/padaria com bom ar e a loja do chinês.

Na Travessa das Pedras Negras nr.1 começa a minha vida em 2013, tudo será melhor, vivemos ciclos de sete em sete anos e há mudanças. Chegada aos 42 anos é o que me espera: um novo ciclo. Quando penso nisto só me lembro de remoinhos e pouco mais. Ou tornados. Ou espirais. Pouco importa. Dizem que o espaço não tem som. Na minha cabeça tudo se atropela e o som é fortíssimo.

O resto? O resto é a vidinha.

Ora vamos lá descansar


Patrícia Reis,

A ironia do descanso: tu vais descansar, ok? levas o miúdo, ele ajuda e faz companhia, vai às compras contigo, faz-te companhia, diz-te que o Pinto da Costa faz 75 anos, e eu: quem?, liga e desliga máquinas, faz de aspirador e varre, anda à cata de trevos de quatro folhas (temos imensos de três, mas de quatro parece que não) e não te rales com nada, por isso quando o frigorífico estoirar na tua cara e ficares inundada de alho picado e de um monte de água podre é apenas o Universo a dizer que tens de descansar, quando a água quente não correr nem na cozinha, nem na casa de banho, pensa mais é em comer fora e em perfumar-te mesmo que sejas alérgica à maioria dos perfumes, quando o telemóvel continuar a tocar como um maluco tu atira-o para a lareira que não está acesa porque a dona Helena – jóia de senhora – mandou os homens entregar 50 quilos na porta ao lado, na porta ao lado estão uns vizinhos novos, eu até gostava muito, mesmo muito dos antigos, mas fazer o quê? é a vida, os vizinhos novos querem uma canalização para a máquina de lavar a roupa e eu penso – a ver o canalizador no pátio – que era uma boa ideia, mas esqueço-me logo do assunto, para quê mais problemas, deixem lá, preciso de ir ao Rio Sul, parece que é um shopping no Seixal à loja da cabovisão para trocar o equipamento mas para isso preciso de uma factura que o meu marido, muito diligente, levou para casa e, portanto, estou sem net, acho eu, até que volto a acender tudo e, milagre, o universo sorri: descubro um trevo de quatro flores, tenho acesso aos emails, chamo cabrão a um tipo que merece, telefone ao meu filho mais velho, vejo a lenha a ser carregada para dentro de casa sem mexer uma palha e, cereja no topo do bolo, dois homens levam o frigorífico mal cheiroso, embora imaculadamente limpo por mim durante uma hora. Ah, descansar deve ser isto (e não vou rever o texto, ok? é que estou a descansar e catar gralhas dá muito trabalho, ainda se fosse para o cabrão do velho, podia ser, mas como o texto é meu, estou-me a borrifar, expressão muito grata ao coordenador do meu filho mais novo, homem que eu admiro imenso)

Roma não perdoa a traidores


Patrícia Reis,

Então hoje não posso, mas amanhã serei um gladiador e irei colocar todos os apetrechos e fazer-me ao circo que são estes últimos dias do ano.

Depois, em 2013, serei apenas eu e mais nada do que eu sem uma cambada de idiotas às costas e entro no ano com neon na cabeça que diz que tenho vontade de fazer, construir, ir e partir, escrever e fazer. Já disse fazer. Por estes dias repito-me muito.

Tenham um 2013 como eu vou ter.

Porque Roma não perdoa a traidores e eu tão-pouco.

Depois da porrada, a malta levanta-se e volta a entrar no circo.

Lição aprendida. Pela milésima vez.

até Janeiro, um bom Natal e boas entradas


Patrícia Reis,
Oração

Senhor
Não me ajudes hoje
Deixa-me só e triste
Dá-me só o amanhã
A certeza da Tua mão
A voz que chegará a mim

Senhor
Não me ajudes hoje
Não Te digo nada
Não apresento queixas
Amanhã saberás apagá-las e apaziguar-me
Com os outros
Comigo
Contigo

Senhor
Dá-me hoje apenas o teu colo
Sem perguntas nem certezas
Um colo apenas
Um ventre protegido das coisas que batalham
Em mim
De mim
Por mim

Senhor
No teu colo serei egoísta e centrada
Na minha dor de hoje
Amanhã, Senhor
O teu amor terá o poder apagar a dor
E voltarei ao meu caminho

Senhor
Hoje o teu colo
Apenas isso

Amanhã serei melhor