Podia ser melhor?


Patrícia Reis,

Tenham paciência para o meu relato.

Na sexta feira, dia 15 de Março, no retail park de Coina, comprei um telemóvel Iphone 5.

Tudo bem. Como era uma oferta, no dia seguinte dirige-me à mesma loja, representante da Vodafone (GELSOM), onde me foi dito que não tinham de 32 gigs, eu tinha comprado de 16 estupidamente. A menina, muito diligente e simpática, fez várias coisas: ligou para a vendedora do dia anterior, ligou para a loja de Alfragide e, por fim, na loja do Jumbo de Setúbal disseram-lhe que tinham um de 32 gigas. A menina, à minha frente, pediu para reservarem em meu nome, dizendo que eu ia a caminho e que tinha adquirido um de 16 gigas e queria trocar pelo de 32. Quando cheguei a Setúbal, não sei quantos kms depois, a responsável da loja fez três coisas impensáveis, especialmente para uma pessoa como eu que tem uma empresa (todos têm nrs vodafone, todos deixarão de ter): disse que não trocavam aparelhos iphone e que eu já deveria saber disso – ninguém mo disse e, sendo uma oferta, se tivessem dito não teria comprado ali, teria ido a outro sítio -, que a menina do retail Park tinha ligado mas não mencionara que era uma troca (portanto, acabou de me chamar mentirosa, eu assisti ao telefonema e a menina do Retail Park, se é uma política da loja, estava largada na loja Vodafone, sozinha, sem saber a política da casa, tal como a vendedora do dia anterior), por fim a responsável da loja atirou com o livro de reclamações para o balcão e, da forma mais cobarde e arrogante de todos os tempos, recolheu ao interior da loja, tendo-me deixado com outra empregada que, coitada, foi pedindo desculpa e desculpa. Eu trouxe o telemóvel de volta, imaculado, sem estar aberto e encontrarei uma solução, no entanto há uma coisa que quero deixar bem claro: as inúmeras situações deste calibre com a Vodafone só me levam a tomar uma atitude: mudar de operador, eu e os meus empregados todos. Não acho normal que os representantes da Vodafone tenham este tipo de atitude e quem quer ter um emprego, mas não sabe estar atrás de um balcão, deverá ir procurar um outro tipo de trabalho. Tenho uma empresa há 16 anos, quase 17, nunca tratei um cliente como fui tratada ontem e lamento profundamente que tal tenha acontecido, mas não me surpreende, por já nada me surpreender. A Vodafone não me responde. A representante da marca em Coina, depois de ter lá ido um representante meu com um representante da GNR, apesar da lei obrigar à devolução do aparelho, se estiver imaculado – como está – recusou-se a tal. Compreende-se? Não.

mau tempo


Patrícia Reis,

Estão 14 distritos em alerta, a chuva parece que não vai parar e as janelas da casa mínima onde estou ameaçam cair. Oiço o vento lá fora e, confesso, tenho medo. O melhor será um livro.

 

Leio:

 

—
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro…

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro…

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa…

[Fernando Pessoa, in Chuva Oblíqua]

Sócrates


Patrícia Reis,

Sócrates parou o país. Literalmente. O telejornal foi um preview da entrevista e pouco mais, como se nada de interessante se passasse no mundo (Obama entregou as secretas a uma mulher? Será notícia? Sismo nas Caraíbas? Adiante…). José Rodrigues dos Santos fez uma espécie de crónica/comentário. A grande reportagem eram os contra e os a favor do ex primeiro-ministro às portas da RTP. Até no Japão, Paulo Portas foi incomodado com a entrevista – o fim do silêncio! – de Sócrates. Respondeu inteligentemente, como é seu timbre, e foi à vidinha e fez muito bem. Os dois entrevistadores, um deles sub director de informação, especialista em economia, não acertaram nos números e não tinham capacidade para… bom, para entrevistar um homem que, para todos os efeitos, anda há muitos anos a virar frangos nesta coisa da política e que, tendo repetido a palavra “narrativa” até à exaustão, arrasou o Presidente da República e nem mencionou o nome do primeiro-ministro (leia-se: não lhe deu importância, simplesmente, o que só prova a falta de carisma que o primeiro-ministro em funções exala). Citou Dante. O meu filho comentou: ena pá, o homem é cultural.

A seguir juntaram-se não sei quantos comentadores – não sei se pro bono, mas que importa isso depois do Sócrates ter dito que “tomava a palavra” a convite e sem receber um tostão? – para falar e analisar a entrevista. Portanto, mais uma vez, Sócrates parou o país. Só conheço outra situação similar: um jogo Benfica-Porto ou Benfica-Sporting.

Poesia por Filipa Leal


Patrícia Reis,

“No fundo dos relógios”

“Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.”

de Filipa Leal, _A Cidade Líquida e outras texturas_ 2006 (p. 22)

Mais poesia


Patrícia Reis,

«Ainda mal te deixei,
e vais comigo, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, ferida por mim mesmo
ou cheia de amor, como quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem descanso te entrego.

Meu amor,
encontrámo-nos
sedentos e bebemos
toda a água e sangue,
encontrámo-nos
com fome
e mordemo-nos
como morde o fogo,
deixando-nos feridos.

Mas espera por mim,
guarda-me a tua doçura.
Dar-te-ei também
uma rosa.»

Pablo Neruda, AUSÊNCIA, in POEMAS DE AMOR, tradução de Nuno Júdice, Dom Quixote

Dia da Poesia


Patrícia Reis,

«Minha senhora noite desvelada:
Nem chamar-te antiquíssima desejo.
Minha mãe, minha amiga, Noite Minha,
Casa onde sou senhora como tu.

Senhora Noite, Rainha do Silêncio,
Protectora de exércitos furtivos,
Dos sonoros queixumes inimiga
Como da luz do dia e dos quereres.

Minha Amiga, e senhora noite minha
Que me trazes antiga como mãe:
Não direi antiquíssima, nem nada,
Pois que o desejo é dono e tu Senhora.»

Ana Luísa Amaral, NOITE SENHORA MINHA, in Se fosse um intervalo, Dom Quixote

choques relativos


Patrícia Reis,

Quando o miúdo disse que já tinha fumado um charro, o meu primeiro pensamento foi:

 

Ainda bem que não estamos nos Estados Unidos da América. Perdias todas as hipóteses de chegar à sala oval.

 

O pensamento era um truque, como qualquer outro, para não reflectir exactamente no que me fora dito. O silêncio é de ouro? Não, nestes casos. Por isso, não sei porquê, limitei-me a continuar a andar, no mesmo passo, a mesma velocidade. E com ele ao meu lado, eu disse:

 

Os charros davam-me para chorar. Era ridículo. Desisti. Todos se riam menos eu.

 

O miúdo sorriu. Como está naquele idade, limitou-se a passar a sua mão, muito discreto, muito levemente, pela minha. Depois parou, colocou as mãos nos meus ombros e confessou:

 

Foi só uma vez, mãe. E não voltará a acontecer.

 

Eu sorri e continuámos.

Na minha cabeça comecei a contabilizar todas as asneiras que fiz com a idade do petiz até aos vinte e pouco. Ele não ganhará no disparate, é mais sábio. Mesmo que eu saiba que não há “só uma vez”.

Ser crescido


Patrícia Reis,

Ser crescido implica uma série de coisas, o miúdo já sabe: os impostos, as eleições, o estar atento, o saber coisas específicas, pequenos pormenores que não interessam para nada e outros que são preciosos. Ser crescido, ele também sabe, não é o equivalente a ter razão, a ser uma enciclopédia ambulante ou a ter no armário uma capa de super herói.

Na verdade, o que o miúdo sabe com toda a segurança é que ser crescido é muito chato. Portanto, do seu metro e meio, diz:

 

Ser pequeno é uma outra espécie de chatice, mas menos chata.

Receita para fazer o azul


Patrícia Reis,
Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho da madrugada,
até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areiado meio-dia,
até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam com o tempo,
deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez ali o puseste;
e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre na superfície dourada.
Podes, então, levantar a cor até à altura dos olhos,
e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes,
sem que possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

Senhor Comandante


Patrícia Reis,

Todos nós o tratávamos assim.

O Senhor Comandante, era sabido, gostava de doces e de contar as suas histórias.

Dizia ser um marinheiro que, afinal, acabara a ser piloto. Foi para a Marinha para não irritar a mãe, ela que não o queria lá no alto, a voar. Ele, já sabendo que podia ser piloto da Marinha, trocou-lhe as voltas.

As histórias são muitas: a vida fez-se com cinco filhos, nove netos, dois bisnetos. E foi uma vida com altos e baixos mas bonita. Não se pode dizer de outra forma.

Depois um Verão terrível, o senhor Comandante despediu-se, prometendo não morrer no dia do aniversário de um dos bisnetos ou da mulher. Morreu no meio. Os sentimentos são sempre contraditórios e é difícil ver a morte com bons olhos.

Vivemos, imediatamente depois da sua morte, momentos extraordinários: os primos juntaram-se para um almoço e discutiram tudo,  a importância de manter a família unida, as receitas para a consoada e ainda a existência de som no espaço (parece que não há, dizem os meus primos!).

O meu filho mais novo salvou o natal inventando um personagem estranho chamado Dipak que falava inglês com sotaque e todos nos rimos e abraçámos. As minhas primas, de um lado, fizeram um livro com as fotografias e as histórias e textos do avô com design gráfico da mais nova. Todos nos ligámos ao Facebook, todos tentamos ir ao mural uns dos outros de quando em vez e colocar uma mensagem. Porque uns vivem no Algarve, outros em Inglaterra, porque o tempo tem voltas e revoltas. Hoje, o senhor comandante faria anos. Nós, os netos e bisnetos, tal como os filhos, brindamos com saudade. Mas com alegria. Por tudo isto, aprendi que se pode olhar a morte nos olhos e sorrir. Levemente.

a manifestação, o papa e o aniversário do avô que acabou de morrer há meses


Patrícia Reis,

Pensamos que podemos resolver tudo ou que tudo passa, os clichés do costume e depois ficamos no marasmo de sempre, na queixa, a ver se a manifestação encheu o Terreiro do Paço ou nem por isso, a dizer que não fomos por termos uma agenda lixada, por termos amigos no governo que também precisam de trabalhar.

Pensamos que podemos explicar aos mais novos que a responsabilidade do que se faz e do que se diz tem consequências e que gozar e repetir anedotas sobre o papa, este ou outro, é lamentável, é uma falta de respeito. Sim, a Igreja tem defeitos. É feita por homens. Os portugueses têm tendência para arranjar logo meia dúzia de graças e a coisa passa, até ao próximo jogo de futebol.

Depois percebemos que faltam dias  para o aniversário do avô, que morreu há uns meses. Pensamos que podemos sobreviver e damos de caras com uma fotografia dele, uma fotografia com os netos e bisnetos no aniversário do ano passado.

E aí a vida torna-se outra coisa.

Ups


Patrícia Reis,

Uma rapariga faz por ser normal, quer dizer, por cumprir nos mínimos olímpicos. Hoje descobri que os óscares foram há uma semana e estou deprimida. Mesmo.

A desgraça de ser puta


Patrícia Reis,

Para que fique claro a palavra “puta” não tem, neste texto, qualquer género, até porque puta era o homem que se descartava às suas responsabilidades e a sua mãezinha não era tida ou achada para o assunto.

Portanto, a puta, no sentido masculino, se quisermos, olhou para os potenciais comensais com algum desdém.

Partilhavam o mesmo espaço, era preciso trabalhar e comer e a puta sabia, há meses, que tudo se transformaria em pouco tempo.

Ele era, digamos, o mestre, o autor dessa mudança drástica que, além de puta, lhe daria outros nomes menos apropriados. Estava decidido a avançar. Era um homem que demorava tempo, mas decidia. A seu tempo. Tinha até uma ideia vaga que podia acumular informações que lhe dessem, no futuro, qualquer poder.

Era uma ilusão. Qualquer um dos comensais lhe podia dizer que os emails podem ser alterados e que os sms também não são fiáveis. Ele não se ralava com esses pormenores, tinha levado o seu tempo de puta, decidira e, convicto da sua inteligência, preparava o fim do mundo.

Fez tudo conforme planeado, desenhando no palco uma cena de malabarismo digna de qualquer prémio de representação. O mundo não caiu como previsto e, dois meses depois, já ninguém proferia o seu nome. Ou das duas açafatas que com ele congeminaram o plano, o golpe, com base em informações que, sabe Deus, só o Diabo podia ter tecido.

A mulher que tinha estado ao lado da puta durante muito tempo não se sentiu atropelada ou magoada. Sentiu-se aliviada e depois triste. Afinal, as açafatas eram piores que a puta e este, sendo homem, até podia ser descartado, mas mulheres capazes de traição e bradando aos céus a sua potencial amizade com palavras e gestos? Não, tudo isso era demasiado triste. Com a puta no seu carril, as açafatas correram atrás e o cenário transformou-se para melhor.

De repente, a mulher começou a ver o azul do céu e, longe de muitas coisas estranhas que lhe acontecem por norma em dias que outros tendem a compreender como vulgares, ela soube que o destino estava traçado há muito.

Lembrou-se de casamentos, exposições de pintura, brincadeiras, gravidez, crianças, seguros e férias, consolos e terapia, consultas pagas e, feita a lista do deve e haver, mandou a puta para o raio. E ele, que já tinha ido, sentiu o raio mesmo no centro da cabeça, o corpo dividiu-se e tudo terminou em beleza. Era uma puta, podia dar a volta às coisas.

As outras duas? Pouco importam, já ninguém se lembra dos nomes, dos gestos, das brincadeiras, do potencial talento, apenas do roubo, da deslealdade, da cobardia de não darem a cara.

A mulher pensou em tudo isto, meses depois do terramoto emocional, da descarga de dinamite que seria suposto tê-la atingido de forma mortal.

Encolheu os ombros e enviou um email aceitando mais um trabalho.

Sim, a vida é tramada. E não é para as putas. Porque a sorte dá muito trabalho.

Tão simples, afinal.

a mala


Patrícia Reis,

A mulher desfez a mala com gestos de cansaço que, à partida, por serem de cansaço, a irritam ainda mais. O corpo mantém o nível de doer, mas ela insiste: é apanhar a roupa, dobrar o corpo, voltar ao cesto da roupa suja. Na memória tem ainda as palavras trocadas antes, a inutilidade das palavras quando se quer fazer o melhor e se faz o pior. Um ser humano deveria ser um jogo de computador e passar apenas de nível de acordo com as suas competências. As dela não servem sequer para fazer roupas de máquina. Acresce que odeia a mala. Tudo o que a mala pode significar, passado ou futuro e, lembrando Yeats, diz o poema para dentro como uma oração, the years to come, the years behind…, qualquer coisa assim e tenta sorrir quando se sabe incapaz de um sorriso. Não é momento. O momento chegará. A mala vazia, a máquina a rodar, o detergente a limpar e tudo arrumado. Depois será a vez do cão. Da água do cão. A seguir o despotismo esclarecido do filho mais novo, a história da música do afilhado e ainda o piano do mais velho. Tudo junto podia ser um filme. É apenas a vidinha.