A água e o capote


eventhorizon,

Quando foi inaugurada a rotunda dupla (ou a inceptunda) do Marquês, houve uma imagem passada em directo televisivo que me ficou na memória: a de António Costa, tão hábil na arte de dizer nada como na de sacudir a água do capote, a chutar para a bancada – leia-se: para o melhor bode expiatório que tinha à mão – a pergunta de um cidadão a propósito das sarjetas, ou da falta delas, e de como se faria o escoamento de água caso chovesse em força. Costa, entenda-se, tem mais que fazer hoje em dia (afinal, “muita gente” até votou nele nas autárquicas para lhe dar “força para assumir outras responsabilidades”); e convenhamos, até para falar do tempo é necessário um mínimo de pensamento, algo que se lhe desconhece de todo. Mas não há motivos para alarme: o seu executivo camarário traz na ponta da língua as lições do mestre na arte do passar por entre as pingas da chuva. Como o Público confirma: 

 

O vereador da Protecção Civil da Câmara de Lisboa acusou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de não ter previsto tanta chuva, acrescentando que a cidade se teve de preparar “à última da hora”. 

 

“Houve uma grande precipitação. As informações que nós tínhamos do IPMA não iam nesse sentido, portanto a cidade teve de se prevenir à última da hora, uma vez que não tinha sido lançado aviso laranja para o distrito de Lisboa”, disse Carlos Castro que falava aos jornalistas numa conferência de imprensa convocada devido ao mau tempo.

 

A coisa seria cómica se não fosse trágica. Ou se Lisboa não ficasse inundada pelo menos uma vez por ano, sem que os (ir)responsáveis camarários (estes e os anteriores) movessem uma palha para tentar encontrar soluções para um dos mais previsíveis problemas que a cidade enfrenta a cada Outono ou Inverno – e a culpa é do IPMA, que até previu chuva mas que não previu tanta chuva, obrigando “a cidade” a fazer “à última da hora” aquilo que todos sabemos que de qualquer maneira não teria feito – e que continuará sem fazer agora (até porque outras responsabilidades se alevantam). Se o descaramento pagasse imposto…

mau tempo


Patrícia Reis,

Estão 14 distritos em alerta, a chuva parece que não vai parar e as janelas da casa mínima onde estou ameaçam cair. Oiço o vento lá fora e, confesso, tenho medo. O melhor será um livro.

 

Leio:

 

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Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro…

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro…

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa…

[Fernando Pessoa, in Chuva Oblíqua]