Quando foi inaugurada a rotunda dupla (ou a inceptunda) do Marquês, houve uma imagem passada em directo televisivo que me ficou na memória: a de António Costa, tão hábil na arte de dizer nada como na de sacudir a água do capote, a chutar para a bancada – leia-se: para o melhor bode expiatório que tinha à mão – a pergunta de um cidadão a propósito das sarjetas, ou da falta delas, e de como se faria o escoamento de água caso chovesse em força. Costa, entenda-se, tem mais que fazer hoje em dia (afinal, “muita gente” até votou nele nas autárquicas para lhe dar “força para assumir outras responsabilidades”); e convenhamos, até para falar do tempo é necessário um mínimo de pensamento, algo que se lhe desconhece de todo. Mas não há motivos para alarme: o seu executivo camarário traz na ponta da língua as lições do mestre na arte do passar por entre as pingas da chuva. Como o Público confirma:
O vereador da Protecção Civil da Câmara de Lisboa acusou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de não ter previsto tanta chuva, acrescentando que a cidade se teve de preparar “à última da hora”.
“Houve uma grande precipitação. As informações que nós tínhamos do IPMA não iam nesse sentido, portanto a cidade teve de se prevenir à última da hora, uma vez que não tinha sido lançado aviso laranja para o distrito de Lisboa”, disse Carlos Castro que falava aos jornalistas numa conferência de imprensa convocada devido ao mau tempo.
A coisa seria cómica se não fosse trágica. Ou se Lisboa não ficasse inundada pelo menos uma vez por ano, sem que os (ir)responsáveis camarários (estes e os anteriores) movessem uma palha para tentar encontrar soluções para um dos mais previsíveis problemas que a cidade enfrenta a cada Outono ou Inverno – e a culpa é do IPMA, que até previu chuva mas que não previu tanta chuva, obrigando “a cidade” a fazer “à última da hora” aquilo que todos sabemos que de qualquer maneira não teria feito – e que continuará sem fazer agora (até porque outras responsabilidades se alevantam). Se o descaramento pagasse imposto…

O ilustre edil tem carradas de razão:
— Se IPMA o tivesse avisado de véspera, que ia haver um carga d’água, a CML teria providenciado a limpeza em 24 horas ( ou menos) de todas as sargetas da cidade!
Estou seguro que foi sabotagem de Seguro!
Limpar sarjetas? Isso são contas de merceeiro. Óbvio economicismo de quem não pensa nas pessoas.
Obviamente que a solução seria a CML aprovar uma Lei a proibir a inundação da cidade.
Isto sim é demonstrar a preocupação com os cidadãos que se espera da edilidade.
Como o IPMA não avisou a tempo a Câmara não pode proibir a queda excessiva de chuva…
Heh. Precisamente! O Costa já quer fazer tanta coisa por decreto, não vejo por que motivo não possa também proibir a precipitação.
A realidade? Essa é uma chata, não interessa para o caso.
Bem visto!!! a culpa é da previsão!! palhaço.
Se não se pode culpar a chuva…
Parece-me óbvio que S. Pedro devia ser chamado para dar satisfações. Enviar chuva para Portugal, país que se sabe de sol e nada chuvoso? Vergonhoso.
Mais a sério, é óbvio que os responsáveis autárquicos se têm que preparar para as chuvas fortes. Por um lado, Portugal, ao contrário do que se pensa por toda a Europa e se tenta fazer passar para o país, é um país onde chove bastante (chove mais por ano que em Berlim ou Londres e um pouco menos que em Amesterdão, dados da Wikipédia), mas normalmente de forma torrencial. Com as alterações climáticas estes fenómenos de chuvas torrenciais apenas se tenderão a acentuar. O trabalho dos autarcas é ouvir os especialistas que lhes dizem para criar “caminhos” para a água poder escoar e não se acumular em zonas planas nem criar torrentes em zonas inclinadas.
Não ligar a uma pergunta de alguém que poderia não ter ideia do que dizia (é impossível sabê-lo) não é mal. O mal é não ouvir os muitos especialistas que, esses sim, sabem do que falam e avisaram vezes sem conta para os problemas da cidade (isto aplica-se a Lisboa e a muitas outras cidades).