a mala


Patrícia Reis,

A mulher desfez a mala com gestos de cansaço que, à partida, por serem de cansaço, a irritam ainda mais. O corpo mantém o nível de doer, mas ela insiste: é apanhar a roupa, dobrar o corpo, voltar ao cesto da roupa suja. Na memória tem ainda as palavras trocadas antes, a inutilidade das palavras quando se quer fazer o melhor e se faz o pior. Um ser humano deveria ser um jogo de computador e passar apenas de nível de acordo com as suas competências. As dela não servem sequer para fazer roupas de máquina. Acresce que odeia a mala. Tudo o que a mala pode significar, passado ou futuro e, lembrando Yeats, diz o poema para dentro como uma oração, the years to come, the years behind…, qualquer coisa assim e tenta sorrir quando se sabe incapaz de um sorriso. Não é momento. O momento chegará. A mala vazia, a máquina a rodar, o detergente a limpar e tudo arrumado. Depois será a vez do cão. Da água do cão. A seguir o despotismo esclarecido do filho mais novo, a história da música do afilhado e ainda o piano do mais velho. Tudo junto podia ser um filme. É apenas a vidinha.

3 comentários em “a mala”

  1. E depois viria a noite, a insónia. Com o cansaço. O homem a seu lado roncava de forma cadenciada, incomodava-a. O homem não sabia nem das máquinas de roupa, nem dos filhos que teimavam em ser adolescentes, nem das hormonas, das suas, nem da mala que ela arrumara, a custo, na prateleira de cima, nem da conta de luz que teria de ser paga, sem falta, no dia seguinte. O cansaço e as dores no braço de tanto puxar o estendal, o homem não sabia. Ela fazia a lista de tudo o que tinha feito, de tudo o que teria ainda de fazer: “Amanhã. Amanhã”, pensou. As dores de novo: dão-te limões faz limonada, pois, ela sabia. Lembrou-se que “um ser humano deveria ser como um jogo de computador”, ou ter um botão “on ” e um botão “off “.Talvez ajudasse. A vidinha, com um bom argumento, um bom realizador, daria um bom filme. Atores ela conhecia muitos.
    Na cabeça apareciam-lhe rostos. Palavras. Teria de contar, escrever um romance, qualquer coisa. A memória fazia-lhe companhia, sossegava-a enquanto o sono não chegava. Os ruídos da casa. O cheiro da roupa lavada nas mãos. O cheiro da casa arrumada. No silêncio. Lembrou-se de uns versos de E.E.Cummings I carry your heart with me/i carry it in my heart “. Deveria ser isto: a vidinha. Sabia o poema de cor. Verso a verso. Com suavidade, deixou-se embalar pela poesia. Esqueceu as dores. Adormeceu.

    and whatever a sun will always sing is you here is the deepest secretnobody Knows “

    1. Apenas uma pequena correcção , na transcrição dos últimos versos de E.E.Cummigs :
      and whatever a sun always sing is you
      here is the deepest secret nobody Knows »

      Desculpem, são coisas que acontecem nestas escritas.

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