A nova Egoísta: dedicada ao Traço (só com ilustradores maravilhosos)
Patrícia Reis,
Na quarta-feira, às 21h30, na Biblioteca de Carnaxide, estarei à conversa com Carlos Vaz Marques. A coisa promete.
O começo do soneto é de Shakespeare. Dá título ao livro de Mary Westmacott, aliás Agatha Christie. A história singular de uma mulher que espera por um comboio para regressar à vidinha? Sim. Em simultâneo, a personagem central fica com tempo para rever o seu tempo de vida, com o marido, os três filhos, as coisas da vida. Pensar é um acto violento, disse Vergílio Ferreira. Nada mais certeiro.
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Crónica para a Única / Expresso
Entregar um livro ao público é como levar o filho à escola pela primeira vez: o miúdo já sem fraldas mas ainda com o boneco e, por vezes, a fralda de pano. Fica pendurado na professora e à mercê de uma mão cheia de desconhecidos. Um livro novo, depois de mais de três anos de trabalho, torna-se estrangeiro para quem o escreve, é um território que pode ser lido, interpretado, amado ou odiado. Por quem conhecemos e por todos os outros, potenciais leitores, sem rosto, sem referências que nos confortam.
A seguir, a pergunta central é a de saber: depois de “Por este Mundo Acima” que vou escrever? Devo escolher outro trilho? E será isso uma boa ideia ou pode prejudicar todos os frutos recolhidos? Se escrever é condição e não profissão, uma necessidade ou terapia, para tantos, é ainda um exercício de algum masoquismo, porque nos expomos e não temos certeza de nada. Há, de certa forma, um regresso à insegurança infantil de não se ter a certeza, até porque quando temos a certeza somos apelidados de “convencidos” ou “arrogantes”.
Na Festa da Literatura no Funchal em finais de Maio, primeira edição da responsabilidade dos Booktailors, alguém disse: “Podia ser só uma mulher gira”. Outra presunção? Certamente. Quem é que quer ser apenas uma mulher gira? Ou um homem? Ou até uma criança? Desejamos sempre que a beleza venha de mão dada com a inteligência e o sentido de humor, prática pouco exercitada por estas bandas onde dizer mal é mais fácil do que dizer bem; por isso festejar o sucesso do outro é, desculpem dizer, uma enorme maçada. Como a beleza alheia. Mesmo que a beleza seja de uma tristeza infinita.
Eu encontro beleza nos livros e por isso leio e releio. Gosto de ter amigos que são escritores e outros que não estão sequer interessados em saber o nome do próximo ou anterior Prémio Nobel. Na multiplicidade é que está o ganho. Mesmo que não seja giro.
Não lhe soube responder e o miúdo seguiu para o jogo da Fifa 11 com a descontracção de quem não sabe o futuro, já esqueceu o passado e o que lhe interessa é o golo do momento.
Sim, coisas que fazem bem ao ego:) para variar.
“Por Este Mundo Acima”
Patrícia Reis
I
“A amizade é um amor transfigurador e potente. É uma arma.”
Pag. 127
Patrícia Reis oferece-nos um livro optimista, onde a amizade é a verdadeira reconstrução num mundo destruído. No seu 6º romance, transporta-nos para um mundo pós apocalipse e arruinado em estruturas e emoções. A sobrevivência é imperiosa e o Homem regride à sua condição de animal.
Nas primeiras páginas, a autora demonstra que existem relações produtivas e explícitas (intertexto) com outros textos. Neste caso, existem relações identificadas com textos de Fausto, «Por este rio acima», e com Brecht, «Do pobre B.B.». Por ser um livro que aborda directamente o papel da literatura na sociedade, existem outras aproximações a outros autores com a subtileza exigida, ou não, pela própria autora. “Por este mundo acima” é um livro que dialoga com a literatura; não é fechado em si mesmo, mas antes abre possibilidades de leituras a outros livros. De outra forma, pode-se afirmar que existe abertura do texto ao pensamento sobre a historicidade e sociedade onde o Homem se insere e influencia.
A narração é sobretudo psicológica e não pude deixar de me lembrar de “Fome” de Knut Hamsun e de “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago (Saramago começa, no entanto, com uma impossibilidade, ao contrário de Patrícia Reis). Assim sendo, a narração ocorre na 1ª pessoa do singular. Esta perspectiva confere uma maior proximidade do leitor ao pensamento do personagem Eduardo (principal narrador). A sua visão sobre as outras personagens será a nossa, também, uma vez que não existe uma entidade omnisciente e concretizada numa 3ª pessoa. No entanto, através da estratégia narrativa de uso de cartas/apontamentos (aqui temos o diferimento da mensagem que abordaremos mais à frente) a autora dá-nos a oportunidade de estarmos mais próximos das emoções e ideias de uma entidade essencial no livro: Sofia. É sobre ela, não exclusivamente mas principalmente, que incide o espírito de tolerância das outras personagens, individualmente e como grupo. É por este meio que descobrimos os acontecimentos da sua vida que influenciaram a sua formação emocional. A aceitação das suas características e o amor que todos sentem por ela é a chave de leitura deste texto. É este tipo de amor que pode levar o Homem à sua salvação. A relação entre eles é de longa data: “ Há mais de trinta e tal anos que falamos das listas do Eduardo” pag.79. E a interdependência emocional é partilhada por todos.
Mais do que um texto musical, construído com frases mais longas interrompidas por frases mais curtas originando mudanças de ritmos, diria que o texto é, sobretudo, fílmico devido à construção de imagens fortes e sugestivas.
A nível temático, o texto relaciona-se com os factores externos (contexto) a si próprio, fundamentando a sua produção, recepção e interpretação em acontecimentos possíveis. Nunca ficamos a saber o que realmente aconteceu. Nem é importante. O que o texto nos transmite é a ruptura com um passado (contexto situacional), um apocalipse que reduz o ser humano à sua essência, ao seu instinto de sobrevivência (universo simbólico).
“O meu corpo estremece. Não o controlo. Vejo as mãos suadas e tento continuar. Sou um animal. Regresso a isso” pag. 126
“É fundamental deixar de pensar” pag.124
Posteriormente, é sobre este movimento niilista que se constrói a salvação, a aceitação e, essencialmente, a elevação do melhor do Homem: A amizade como amor, como dedicação ao próximo em detrimento das próprias necessidades (visão do mundo). Segundo Levinas, o altruísmo, a decisão de colocar o Outro em primeiro lugar pode atenuar o terror da existência. Essa é a nossa transcendência. É esse terror que existe ao longo do livro de Patrícia Reis e é o amor, composto por altruísmo e inclinação para o Outro, que o pode atenuar, sem o derrotar.
II
O homem constrói, permanentemente, narrativas. o Homem constrói um texto narrativo quando fala do seu percurso de vida, da história clínica, ou quando conta algo a alguém. Assim sendo, não pode viver sem a produção e recepção desses mesmos textos. Eduardo tem essa percepção e insiste, permanentemente, em recordar/narrar os acontecimentos passados e, principalmente, dar a conhecer a sua memória, os acontecimentos que o marcaram, a Pedro.
“ Ele fazia lista de livros que era importante circular. Livros luminosos que, não sendo lamechas, nos revelavam a vasta matéria dos sentimentos que definem a condição humana” pag.164
Segundo Aguiar e Silva (1990), « a narratividade encontra-se intimamente correlacionada com o conhecimento que o homem possui e elabora sobre a realidade- o Génesis pode-se considerar, sob esta perspectiva, como a narrativa paradigmática e primordial -, devendo ser sublinhado que lexemas como “narrar”, “narrativa” e “narrador” derivam do vocábulo narro, verbo que significa “ dar a conhecer”, “tornar conhecido”, o quel provém do adjectivo gnarus, que significa “sabedor”, “que conhece”, por sua vez relacionado com o verbo gnosco(<noscp), lexemas estes derivados da raiz sânscrita gnâ, que significa “conhecer”» pp. 201
A narração é indissociável do tempo. Uma característica interessante de “Por este mundo acima” é o facto de a narração ocorrer no futuro, no espaço de um mundo possível, viajando entre o passado (tempo presente do leitor) e o presente do narrador (tempo futuro do leitor). Entre os vários marcadores temporais que nos fornecem essa informação, além do sistema verbal, há um que pretendo sublinhar: A referência ao próprio livro de Patrícia Reis remete-nos à actualidade e indica que ele narra no futuro. E este aspecto é intrigante porque um texto escrito é uma forma de diferimento da mensagem. Através da escrita pode-se perpetuar, ou pelo menos assegurar a permanência no tempo, da mensagem. O personagem adjectiva o livro de “datado”, isto num diálogo sobre o Facebook , o MSN e o Youtube. Ou seja, podemos utilizar esta referência como “ a leitura do texto”, necessariamente mais próxima desse futuro possível; ou como a “edição do texto”, mais afastado desse futuro apocalíptico.
A narração situada no futuro levanta uma outra característica importante e coerente com a temática de “Por este mundo acima”: A presença do verbo “Ser” no futuro é uma vitória, ainda que escassa e ténue, sobre a morte. E o texto é isso mesmo: uma narração no futuro que encontra os seus alicerces no passado para, com esperança e renovação, continuar a adiar a morte definitiva dos valores culturais do Homem e, por fim, dele próprio.
A morte da memória ou a ignorância invalida a continuação da história. Analise-se a conjugação verbal da seguinte frase: “O homem da gabardina bege terá uma história e eu gostaria que alguém me contasse tudo em pormenor” pág. 93
A probabilidade desce do futuro imperfeito até ao imperfeito do conjuntivo… porque não há ninguém para contar.
III
“Voltámos ao princípio e até temos um livro para nos guiar” pág. 157
A reorganização social começa quando Eduardo encontra uma criança: Pedro. E devido ao poder transformador deste personagem, a autora divide o tempo em antes e depois do apocalipse:
“O caos aconteceu quando ele andava pelos quatro anos de idade, quase cinco. Fizera os 8 há dois meses”. Pag.114
Pedro é um recomeço, é um exemplo de generosidade num mundo destruído pela falta de comida, de água, de higiene e falido de cooperação e altruísmo: “Ele parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços” Pag. 119
Pedro incentiva Eduardo a quebrar o seu medo de convivência, de partilha de um espaço e diálogo com outros sobreviventes. E assim conhecem Miguel, jornalista, que vagueia pela Península Ibérica transportando notícias. Este personagem, aparentemente secundário, tem um papel importantíssimo na história: Ele é o responsável pela interacção entre os povos, pois é ele que transporta as notícias sobre os outros, os sobreviventes. Miguel é o mensageiro (apóstolo?).
“ A sua vida resume-se a ter estado sozinho, a recolher histórias para depois partilhar. Não criou raízes, não se deixou ficar num qualquer outro lugar. Partiu à procura de algo de melhor que possa, um dia, trazer de volta uma certa ideia de humanidade” pág. 161,162
A reorganização vai-se consolidando. Os anos passaram e com eles veio a capacidade da sociedade se organizar. São mencionados progressos em países distantes.
Pedro descobre as caixas com as recordações escritas de Eduardo. A memória de Eduardo sobrevive, através de várias caixas com textos que foi armazenando desde a infância, na interpretação e na memória de uma criança. A memória individual é transmitida, desta forma, para as mãos e memória individual de Pedro. Mas não chega. Era imperativo a sociedade, que tem a força de uma personagem, manter a sua memória colectiva de forma a não repetir os erros do passado:
“ Decidiram passar a biblioteca da avó de Eduardo para um centro cultural, para estar sempre disponível, para ser a memória de todos” pag.180.
Pedro começa a recriar o alfabeto, primeiro passo para a impressão em papel, e, além do livro de Sebastião, outros livros foram escritos e difundidos pela nova sociedade que emergia dos escombros. Miguel, o jornalista, fala com Eduardo sobre a escrita de um novo manuscrito, uma história sobre o presente, a nobreza, onde a linha do Bem e do Mal se distingue (O Novo Livro/Testamento). A revisão do livro foi a última tarefa de Eduardo.
– O livro como salvação
Na cultura judaico-cristã, como afirma Victor Aguiar e Silva (1990), texto significa obra escrita, o livro, obras religiosas detentoras de autoridade. Na idade média, texto significa a obra do autor, ou seja, obra da pessoa que exerce autoridade. Até ao século XXI, o termo texto não apresenta uma mudança de significado, embora tenha ganhado alguma ambiguidade semântica.
A autoridade emana do livro de Sebastião. É uma obra-prima, segundo Eduardo, e, mais do que isso, é o livro que transporta o passado recente para o futuro. É a continuação temporal, a passagem cultural do que aconteceu antes do acidente. Pedro, já mais velho, é muito céptico em relação a esta hipótese: “Não é um livro orientador, é uma ficção e isso é claro, é uma parábola do tempo em que foi escrito e um achado futurista adequado às circunstâncias» pág. 157
E numa frase simples e ingénua interroga o leitor e o próprio texto: “Voltar ao princípio? Será possível? O que é o princípio?” pag.157
Estamos perante a dúvida a que Steiner, em “Gramáticas da criação”, responde: “Já não temos começos”. Mais: Nas palavras de Pedro, há um reflexo das dúvidas do Homem em relação aos Evangelhos, ao livro orientador e fundador da moral cristã. É no livro de Sebastião, hipotético pilar da refundação social, que incide o debate entre Pedro e Eduardo.
Este livro representa um caminho, individual e/ou colectivo, para o sentimento mais nobre do Ser Humano: Bondade.
“É urgente ensinar a partilhar, Pedro. Para não voltarmos ao mesmo. A Sofia, o Jaime e o Lourenço sabiam o que era bondade. Não por serem bondosos, repara, mas por o saberem distinguir e praticar no dia-a-dia sem se fazerem notar”
Pág. 170
Bibliografia:
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. Lopes (2000) “Dicionário de Narratologia”, Coimbra, Almedina
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de (1990) “Teoria e Metodologias Literárias”, Lisboa, Universidade Aberta.
Mário Rufino
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Patrícia, estás bem?
Cansada, mas bem, obrigada por perguntares. Nem todas as pessoas têm esse cuidado.
Publicar um novo livro, neste caso o “Por Este Mundo Acima”, mete medo?
Sim, de certa forma há sempre um medo associado ao seremos avaliados na forma como escolhemos partilhar ideias com o outro. Apesar disso, acredito que se escreve para que possam gostar de nós, para que se possam identificar com quem somos ou, no limite, para suscitar perguntas e respostas. Publicar é o fim de um processo. Quando o livro já nos saiu das nossas mãos há muito tempo é que começa a suscitar interesse, a chegar ao leitor. Essa sensação, a linha do tempo, é um pouco estranha.
“Por Este Mundo Acima” é uma peregrinação futurista numa Lisboa destruída, mas não é um livro sobre um acidente nuclear, pois não? É sobre o quê?
É sobre aquilo que mais me interessa: as pessoas, as dúvidas, os segredos, os medos, a forma como partilham, como descobrem afinidades. É um livro sobre a memória e sobre o bem e o mal. Num cenário de destruição, um velho editor repensa toda a vida que teve e é obrigado a encarar a sua condição de sobrevivente.
Ser sobrevivente é importante?
Neste contexto é o que permite definir o que é prioritário. Se quiseres, a amizade torna-se o essencial e é, para mim, a melhor forma de amor, ao mesmo tempo que os livros funcionam como um corrimão para mantermos uma ideia de condição humana.
A amizade está presente em todos os teus livros, até mais do que o amor entre homem e mulher, porquê?
Porque podemos separar-nos do homem ou mulher que um dia achámos ser o homem ou mulher da nossa vida, mas um amigo, um amigo verdadeiro, está connosco para a vida. Faz parte de nós. No bem e no mal.
Tens amigos assim?
Tenho, felizmente. Poucos mas bons, como se diz. Este livro é igualmente uma homenagem a essa forma de amizade de que beneficio e, além de ser dedicado ao meu filho Sebastião, é dedicado a duas mulheres que são importantes na minha vida diariamente. Sim, porque o exercício autêntico da amizade é, nisso, semelhante ao amor: precisa de prática e treino constante.
O que esperas deste livro?
Que seja lido pelo maior número de pessoas e que traga, a alguns leitores, uma outra perspectiva sobre a forma como vivem. Pode parecer uma presunção, dito assim, mas é sincero. Há livros transformadores – já li alguns – pode ser que este também o seja para alguém. Só isso deverá deixar qualquer escritor contente, porque a sua tarefa foi cumprida.
Patrícia Reis
A Casa Fernando Pessoa convidou poetas e escritores para passarem a noite no quarto do senhor Pessoa e escreverem, posteriormente, um conto. No fim, teremos um livro. É uma excelente ideia e o fantasma do senhor Pessoa, que lá anda feito gato, vai gostar de certeza. Isto quer dizer que em três anos, com a direcção de Inês Pedrosa, passámos a ter uma série de iniciativas, textos em bilingue, sinalética, a biblioteca digitalizada e disponível no site, um blogue, uma revista e um congresso bi-anual. E esta, hem?
Estou-me nas tintas para o ensaio – aliás, brilhante – de Desmond Morris que defende que o futebol é uma actividade que advém do facto de termos deixado de ser nómadas para passarmos a ser sedentários, deixarmos a caça, para sermos agricultores.
A minha pergunta é muito simples: porque carga de água é que todos os dias os jornais desportivos fazem manchetes com futebol?
Quantas modalidades desportivas existem sem visibilidade?
E, já agora, em tempo de crise – com as dívidas ao fisco dos clubes a serem pagas em suaves prestações via totonegócio da Santa Casa da Misericórdia, aquele instituição que devia zelar pelas crianças e pelos mais velhos com necessidades – que empresas é que irão financiar os verdadeiros heróis que temos que são OS PARA-OLÍMPICOS?!
Esses trazem medalhas de ouro, prata e bronze e fazem da vida uma lição de vida.
Não se fala nisso, não é? É chato. É como falar da dívida pública, mais um zero, menos um zero, para quê maçar a malta? Dito isto, não sou fã de futebol e tão pouco da sua fauna. Tenho respeito e desapareço por 90 minutos com uma facilidade incrível. Não compreendo como se compram lugares cativos ou bilhetes a mais de cem euros. Não entendo a forma como se gere a paixão por um clube através de actos violentos. Não entendo o futebol e como este país ainda é gerido por três “F” – Futebol, Fado e FMI – acho que sou estrangeira.
A Cultura é uma merda, desculpem o termo. Isto, claro, na cabeça dos nossos políticos que não a sabem definir ou o que fazer com ela. Talvez não sejam cultos. Azarinho (que é um azar pequenino). Pedro Passos Coelho diz que vai chamar a Cultura ao seu gabinete de putativo primeiro-ministro. Para quê, pergunto? Para ter um ou dois assessores? Para acabar de vez com a Cultura?
Esta pequena palavra é que nos define enquanto povo, faz parte da nossa identidade nacional e não é por mero acaso que temos as fronteiras mais antigas da Europa (e não, não é um recado para a Finlândia, não moro em Cascais). Em crise pensamos em empregos, em pagar as contas, em vestir os filhos, em cuidar dos mais velhos? Sim. É prioritário? Sim, mas sem uma educação eficaz e uma noção de Cultura abrangente o que é que estamos a dar às novas gerações? Um legado de contas, dívidas e muitas folhas com ideias? E quem vai assessorar o Dr Passos Coelho nestas coisas da cultura que vão dos livros ao cinema, do teatro à dança, da música ao canto, etc? Um tio? Primo? Um especialista? Um curador, como agora se diz? Um cirurgião tipo Dr Fernando Nobre? E pachorra? Há? Culturalmente eu não tenho, lamento. Fico triste quando festejo o Prémio Camões entregue a uma grande figura e perguntam: quem é? Fico triste porque o Eduardo Prado Coelho escreveu durante 10 anos – repito, 10 anos – todos os dias, no jornal Público, e parece que ninguém se lembra. Como ninguém se lembra da Natália Correia, do Vergílio Ferreira, do José Cardoso Pires e tantos actores que por andam, bailarinos, músicos, gente nova, média, velha, que quer expressar-se. Diz o Woody Allen que as pessoas boas dormem bem e que as más se divertem mais. Tem graça, mas quando a questão é a herança cultural que estamos a deixar às novas gerações, pergunto-me: estamos no bom caminho? Quando se juntam vários institutos na Fil para uma coisa chamada Futurália, um evento que permite aos jovens perceber novas oportunidades de carreira que, porventura, nunca lhes tinha ocorrido, as Jotas (de todos os partidos) correm como moscas a pedir assinaturas, dizendo que os pais nem precisam de saber. Porque o que contam são os números. Francamente? Uma merda, é o que é.
Mais de sessenta pessoas à minha frente, caras que vou reconhecendo, alguns nomes que decoro, mas que não sabem que morro de medo de trovoada. Por isso, no meio de uma oficina de escrita na Casa Fernando Pessoa, maldisse São Pedro, respirei fundo e atirei-me à coisa, quer dizer, aos textos e opiniões dos diferentes escribas. Porque vos escrevo sobre isto? A façanha não é o ter superado o medo, é saber que existem mais de sessenta almas, de vários géneros e idades, profissões e meios, credos e origens, que se reunem à volta dos livros e dos textos e o fazem sem sentido crítico destructivo, apreciando a escrita do outro, ouvindo atentamente o outro. É um feito e muito bom de se partilhar, especialmente por estes dias em que maldizemos tudo, do emprego ao tempo, do dinheiro às relações humanas (estas que teimamos em dizer que temos mas que são, tantas vezes, mantidas somente por sms ou por email).
As pessoas à minha frente estão descontraídas, têm os telemóveis desligados, e aproveitam as duas horas e meia em que estão juntas. Mesmo que eu morra de medo de trovoadas.