Drão de Gilberto Gil para sábado não me parece mal


Patrícia Reis,

Drão, o amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar n’algum lugar
Ressucitar no chão nossa semeadura
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Nossa caminha dura
Dura caminhada, pela estrada escura

Drão não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Entende-se infinito, imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Nossa caminha dura, cama de tatame
Pela vida afora

Drão os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer, aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre nasce trigo
Vive morre pão
Drão, Drão

amizade


Patrícia Reis,

p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal { margin: 0cm 0cm 0.0001pt; font-size: 12pt; font-family: “Times New Roman”; }div.Section1 { page: Section1; }

 

AMIZADE 

 

A amizade

é um lírio

ou uma rosa de seda?

 

Abrindo lugares de sol

onde a sombra se adormenta.

E no peito solitário

faz ninho de amor e renda.

 

Resgatando sonho e esperança

como se fossem de mar

de quem embala e acalenta.

 

A amizade

é de asa

ou de mão no ombro e pulso?

 

De ternura vagarosa

mas também

de sobressalto

de chama acesa e tumulto.

 

Maria Teresa Horta

sem instruções


Patrícia Reis,

 

Esta história podia ter um final feliz, mas não tem final, estão avisados.

Começa com uma alma que quer ser escritor. É o seu sonho. O seu desígnio.

Mesmo que o mundo não tenho dado por isso e até tenha cometido a desfeita de ignorar o original que o putativo autor colocou on-line há uns anos. Era a sua forma de partilhar com todos os que quisessem desfrutar da literatura da sua larva. Nada. Depois, por razões que a razão desconhece, por mistérios insondáveis, o potencial autor consegue uma editora, publica, sai nos jornais, tem mural no facebook, atreve-se a mostrar os seus poemas, a expor as suas ideias, os seus manuscritos, crente de que será compreendido e aceite pelos pares. Como a vida não traz instruções e quem te avisa, teu amigo é, o mesmo autor recebe uma mensagem a dizer: calma, tudo se consegue com calma, não se coloque a jeito que isto vai correr mal. Magoado nos seus sentimentos mais profundos, considerando a total ingratidão do mundo, o autor manda os críticos à merda, diz que se está nas tintas, que quer que a malta vá brincar com as respectivas. Deduzo que sejam as pilinhas, mas não tenho a certeza. Perdeu-se um autor? Não, que ele é persistente e bom rapaz, está cá para ficar e é assaltado por momentos de vaidade, garantem os mais próximos. Alguém se lembrará do seu nome em dez anos? Duvido. Mas isso tem importância? Não tem nenhuma. O mundo dos livros é um mundo estranho, cheio de compadrios, pátios, quintas, reentrâncias, códigos e ligações secretas. O mercado é mínimo, estamos em crise, os livros não vendem, os autores precisam de trabalhar.

Os autores são-no por condição, sempre o disse. Eu continuarei a trabalhar e a escrever quando calhar, escrevo desde os sete, não é agora que vou parar. Se não publicar mais nada não terá grande importância. Este putativo autor? Será um desgraçado de um infeliz e ainda não percebeu. Fazer o quê?

a minha mãe


Patrícia Reis,

Vi a minha mãe chorar três vezes. Uma num funeral. Uma em Ouro Preto, durante o Festival Literário, quando José Luís Peixoto disse o poema “Cinco à Mesa” e, por fim, ontem quando Jamie Cullum tocava com a felicidade estampada no rosto. Numa vida qualquer podia ser ela. Qualquer coisa a arrebatou a música, essa possibilidade maior, e o pensamento: podia ser eu. Não digo que a minha mãe, a mesma que amanhã faz 59 anos, fosse dar pontapés no piano ou algo assim, mas sei que “I got you under my skin” são acordes e acordes, todos juntos que, em vez de fazerem uma sinfonia, são a banda sonora de uma vida que ela acatou e não cumpriu. Não creio que tenha tido hipótese de escolha. Como ela, tantos de nós.

e agora, mãe?


Patrícia Reis,

E agora, mãe? Quando sair da escola vou fazer o quê? E como é que vamos sair da crise? E se acontece alguma coisa como na Noruega? Ou se temos células terroristas em Portugal? E aquele miúdo que desapareceu aos 11 anos e estava só a andar de bicicleta? E o que é a hepatite? E mata mais que a sida? E como é que temos filhos se temos de usar preservativo? E se for um falhado e ficar na caixa de hipermercado com autorização para ir à casa de banho de quatro em quatro horas? E se Deus não existir? E se Deus existir e andar a espreitar os meus gestos? E agora, mãe?

Blog da semana!


Patrícia Reis,

Há um bicho que fica debaixo da nossa pele: chama-se jornalismo. Tenho carteira profissional há quase 23 anos, mas o jornalismo que exerço é nenhum ou, no mínimo, atípico porque se resume à Egoísta. O melhor blog? Simples: o da jornalista Patrícia Fonseca, Blogkiosk.

Aqui encontramos um pouco de tudo, com textos bem escritos e informação correcta, sendo que a Patrícia faz o enorme favor de citar as fontes, de colocar uma lista de links para a imprensa internacional e seleccionar a fotografia da semana. É uma jornalista atenta ao mundo e, desculpem a imodéstia, uma das melhores que nós temos. Sim, é minha amiga. E então? 

conto para DN/JN edição de hoje 24 de Julho assinalando a milésima edição do jornal


Patrícia Reis,

@font-face { font-family: “Calibri”; }@font-face { font-family: “Cambria”; }p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal { margin: 0cm 0cm 10pt; font-size: 12pt; font-family: “Times New Roman”; }div.Section1 { page: Section1; }

Para Saramago, um ano depois da sua morte

Quando o corpo saiu junto do entulho não era mais do que isso. Apenas um corpo. Com a luminosidade excessiva, algo terrífico, o vulto adquiriu os contornos de uma mulher. Uma mulher grávida.  
Atrás dela vinha um cão e o silêncio ao seu redor era estranho, mas não parecia confundi-la. Saída da sua gruta, tinha a missão de procurar água e comida. Falava sozinha. Qualquer coisa que não se entendia. Perto de um monte de lixo encontrou o que procurava: um carro de plástico com duas rodas, um saco de pano vermelho sujo. Começou a andar. O cão atrás dela.
As ruas estavam vazias e a cidade parecia não existir. Nem a cidade literária de Ulisses, nem o porto de abrigo de navegadores. A cidade estava saqueada e semi-destruída e a mulher já não se admirava com o estado das coisas.
Em mil anos a profecia tinha-se cumprido. Não fora um gesto humano, passível de ser cristalizado num único conjunto de culpas. Não. Fora o planeta que se esticara, encolhera, fizera explodir violentando cidades com ventos e marés altas, um cenário apocalíptico inesperado. Nada estava previsto ou descrito nos livros antigos ou em estudos matemáticos. Nem todas as ciências juntas poderiam conceber este dilúvio. Seria preciso um maestro mais hábil. Não por ser o divino. Não o era. A vontade de Deus não tem a força da Terra.

E a força da Terra estava agora ameaçada. Ao mesmo tempo, permanecia teimosa na construção de outras espécies. Surgiam árvores e plantas estranhas com cores sem nome. O rio voltara a encher-se. O Atlântico em fúria estava ainda e sempre numa zanga permanente.
Da cidade pouco ou nada se sabia. Os velhos tinham morrido. A memória perdera-se em buracos profundos, como pedaços esquecidos de um jogo qualquer, uma peça infantil.  A mulher grávida seria uma excepção, sim, mas poucos o saberiam. Ou se importariam com isso.
Os que sobreviventes mantinham-se afastados. Deslocados. Foragidos. Tudo era passível de ser encarado com suspeita porque tudo, afinal, era suspeito e, num repente qualquer, a chuva podia regressar e durar dias e noites em que o tempo já não media. Para quê medir o tempo?
A mulher? Sim, preocupava-se com o tempo. Sentia-o crescer, a pele a esticar, as mamas maiores, os mamilos escuros, um fio de pêlos do sexo ao umbigo. Algo de estranho se passava com ela, dentro dela e, mesmo sem o saber, convenceu-se da sua importância. Assim, resguardava-se num refúgio que criara e tudo parecia mais leve e fácil quando observava os raios de luz que penetravam as chapas de zinco que amontoara. Uma vez cá fora, incomodada com a luz branca, doente, a mulher colhia ervas e remexia no lixo. Toda a cidade era um enorme depósito de lixo, mas, por vezes, aparecia algo e esse pequeno tesouro podia ser a diferença entre passar um ou vários dias dentro da gruta. O cão comia terra e pedaços de coisas que ela não conseguia distinguir. Não tinha nome. Era um cão. Lembrava-lhe outro, de um livro que alguém lhe lera, mas a mulher acreditava que estava a enlouquecer e, por isso, tudo o que recordava era apenas tido como um fragmento de uma outra vida ou, num momento mais prolongado, o equivalente a uma visão de algo antigo. Anterior.
Sabia que teria de deixar que a barriga fosse até um certo limite e que depois a criança nasceria. Era uma questão de tempo. A criança era como uma tempestade, uma tempestade eléctrica e poderosa que podia mudar o que estava. Ao mesmo tempo, a criança podia ser apenas a morte. Cá fora, empurrando o carro de duas rodas, vigiada pelo cão magro de cor indefinida, a mulher sentia algumas pontadas, mas prosseguia. O lixo podia esconder outras coisas. Com excepção da barriga, um estranho que ocupava o seu esqueleto, a mulher sofria de uma magreza que entristecia.
Quando regressava para a gruta, com o saco vermelho cheio de pequenas coisas, algumas inúteis, algumas bonitas e coloridas, o cão aninhava-se aos seus pés e como outro cão parecia esperar lamber as lágrimas de alguém, mas nunca o fazia. A mulher chorava todos os dias.
Na noite em que a criança nasceu, o cão lambeu-a num gesto de purificação e comeu a placenta. A mulher pegou na criatura, hermafrodita, e disse: o teu nome é Lisboa.   

conto para a edição de hoje do jornal i


Patrícia Reis,

a necessidade razoável da felicidade


Não estás feliz?
Olha, não sei, as coisas acontecem apenas e temos de as enfrentar. Como num tribunal, as acusações nos olhos de terceiros, a garganta seca, a culpa, a maldita culpa a castigar tudo e todos. Não há espaço para mais nada, não voltarei a ser criança nos teus braços.
Cometo erros por falta de tranquilidade. O que é a tranquilidade? O nosso mundo está partido aos pedaços, tem brechas brutais que se agravam a cada hora de um relógio que não nos pertence. Estamos em colisão, em extinção, ameaçados. Relacionar-se-á com amor? Duvido. O amor morre de repente. Quando damos por isso, foi-se. Partiu numa direcção estranha e desconhecida. O nosso amor é agora o amor de outros, cumpre a sua função, deixou um vazio, mas preenche as necessidades de quem vive, neste minuto, o momento da excitação de descobrir outro, qualquer outro que seja.
Por esta altura, julgaras que me desfaço nas palavras, que as atiro contra a folha do computador apenas num acaso, a ver se formulo um pensamento, um desvario. Estou sossegada, sabes, porque os dedos correm no teclado sem grande pressa e sinto-me despegada de tudo, sobretudo das palavras que te deixo hoje,  na véspera das férias de verão.
Tu visitas a tua mãe e eu, a pretexto de um trabalho que não terminará nunca, deixei-me estar aqui. Não faz calor. Há um silêncio confortável. Vejo os candeeiros desligados, as mesas de trabalho, os estiradores, as maquetas tridimensionais, edifícios por construir. Os arquitectos têm uma expressão – fazer cidade –  e é fácil de entender que o ambicionam, embora seja altamente duvidável que o consigam concretizar. Seja como for, sou apenas uma desenhadora. Muito boa, dizem. Pouco importa. Gosto das linhas e do desenho preciso, dos cálculos matemáticos que colocam todas as questões numa qualquer ordem. Preciso disso, dou-me mal no caos.
Há um abismo que me atemoriza primeiro. Depois chego, como hoje, à indiferença. É o pior dos sentimentos porque não leva a qualquer espécie de emoção, de tristeza ou de ruptura. Ficas como que dormente depois de teres tomado uma decisão. Basta comunicá-la e está tudo resolvido.
Não verei as estrelas contigo amanhã à noite. Perdoa-me. O mundo não me ama e eu tão pouco te amo. O amor fugiu, escapou. Estou a repetir a mesma ideia, já sei. Perdoa-me, mas a coerência nunca foi o meu forte. Sabes que sonho em viajar no espaço? Não numa nave, não, nada disso, nada de tão sofisticado. Sonho que voo baixinho e sinto a relva com as pontas dos dedos, que posso subir e ver as janelas dos prédios mais altos, a vida das pessoas, que atravesso nuvens e me junto ao ballet acertado do bando de aves migratórias, sabedoras de coisas sobre o tempo e o vento. Não me importava de ficar assim, uma ave humana perdida num bando. Tem algo de poético ou de ridículo, ainda não decidi. Há muitas coisas sobre as quais ainda não decidi. Outras, porém, tenho-as com a certeza esmagadora de uma inevitabilidade biológica.  Acredito que Jesus sabia estas coisas. As fantasias à sua volta são apenas isso: fantasias. Jesus sabia sobre o amor e a sua fuga e quis avisar-nos. Ouvimos? Não. Estamos sempre muito ocupados e há dois mil e tal anos já estávamos a cumprir com uma qualquer azáfama. Não queres saber de Jesus. Compreendo. Lembrei-me de como será o natal sem ti. A coisa do menino Jesus nas palhinhas e tal.  Desculpa. Sim, é um pouco lamechas, mas o que queres? Podemos conversar sobre o logótipo da cristandade, inventado no século IV? A cruz, o melhor logótipo do mundo. Não? Certo. Estou a desconversar.
Posso pegar na mala, ligar o alarme, sair para a avenida deserta, ver as janelas iluminadas e imaginar as famílias. Sabes o que eu queria? Queria um filho, já to disse e não me valeu de grande coisa. As tuas prioridades, as minhas prioridades, o dinheiro, a condição de vida, a saúde, o aquecimento global, a paz no mundo, tudo o que teima em falhar. Se pensares bem é sempre a mesma história: começamos por querer o mesmo e depois seguimos trilhos distintos, como índios especialistas em pegadas e coisas assim, cada um a desvendar o seu mistério, o respectivo segredo.
Não me digas nada.
Quando chegares a casa não terás nada meu, nem uma peça de roupa, um livro, um quadro. Deixei-te o gato, porque… enfim, é uma companhia e vais precisar por seres tu o abandonado. Essa maldade – “ela levou-me o gato” – não a quero em cima da minha cabeça. Desculpa. Precisas de comprar areia e comprimidos para desparasitar a criatura. Está na altura. O gato deve ter percebido tudo porque escapou às minhas festas com um certo desdém. Não faz mal. Eu até sou alérgica ao pêlo, era um esforço por amor. Seja lá isso o que for. Sabes o que é? Eu não. Já soube. Agora não.
Deixo-me estar quieta no meu canto e não digo nada, o meu corpo não se movimenta na direcção certa, pouco me importa que não me apreciem ou que o façam com excesso. Estou a salvo. Sobrevivi a tudo e estou imune. Mesmo a gripe A não me pode apanhar. É como a euforia do Verão ou o espírito de natal. Dentro do meu carro, com as coisas amontoadas na bagageira, sinto-me livre de obrigações. Se tivesse um filho, repara, seria diferente. Não tenho, ou melhor, não temos, por isso desejo-te um resto de ano extraordinário. Eu irei encontrar um bando para voar baixinho. E, mesmo que fique sozinha, posso sempre encarar o vazio do meu corpo e culpar-me inteiramente.  Pouco ou nada sobrará para ti.
Não estás feliz?

Mundo Inteiro


Patrícia Reis,

 

Se tiverem paciência oiçam. Mal não faz.

Esta semana está a correr bem? pergunta a minha mãe ao telefone.

No Saldanha estava um casal de sem-abrigos com dois filhos. Há duas semanas não tinham ar de sem-abrigos. Agora são e agem como tal.

Uma das minhas melhores amigas está em casa de licença de parto e não se queixa da solidão, mas eu sinto-a na voz.

Um indivíduo com quem troquei algumas palavras morreu e tenho a sua voz no gravador e preciso de transcrever mais umas tantas coisas. O senhor está morto. A voz dele está ali. Da mesma forma, não falo com Agustina Bessa-Luís, mas mantenho o telefone com a fotografia dela, assim como mantenho o do Eduardo Prado Coelho.

Coisas estranhas, dirão. Pode ser.

O meu filho mais velho já tem mais de um metro e oitenta. O mais novo preocupa-se com o estado da crise.

O que vão fazer? Como irão ganhar dinheiro? Digo-lhes que o futuro é um país lá longe. Hoje, numa conversa de leitores, percebi que não estou sozinha no sentimento de perplexidade face a tanta coisa: falta de contacto visual, sentir os amigos, dizer amo-te, deixar os filhos irem à sua vida, ter medo da morte sem dignidade.

Percebi que ter 40 anos não é metade da minha vida, é mais de metade e que preciso de saber onde estou no mundo para que o mundo inteiro não me assuste.

Dirão que sou lamechas e, para ser sincera, estou-me nas tintas.

A hipocrisia a que chegámos é hedionda. E faz mal.

Hoje disse a um cliente tudo o que pensava, sem filtros, sem diplomacia, correndo o risco de perder o trabalho. Ele não se importou.

Podia ser ao contrário.

Há uma série de gente que amo que sofre todos os dias e há quem esteja doente.

Não aguento mais a palavra crise e quero mandar tudo à merda, mas depois não posso porque tenho dois filhos e uma empresa e, por isso, terei de andar no mundo. Este é um desabafo que não serve a ninguém, não é delito, nem opinião. É terapia. Desculpem lá. Respondi à minha mãe: “Tudo normal.”

Santiago


Patrícia Reis,

Há um ano fui porque alguém que não era ainda alguém precisava ou eu precisava por ele, não sei. Agora volto e estaremos todos juntos na capelinha de Nossa Senhora do Pilar, padroeira de Espanha, a santa que adorna o nome da minha avó, da minha mãe e o meu. Dizem-me que a minha ideia de consolo pode ser louca, afinal são 540 km para cima e para baixo. Eu preciso de consolo. Deve ser muito exigente não acreditar em nada que nos transcende. É-me difícil de entender também quem se diz uma coisa e depois outra, como se a Fé fosse algo a que basta juntar pó e água.
Dói-me o fundamentalismo e compreendo o tempo dentro do tempo da instituição mesmo que me irrite. Diria que sou uma cristã em recuperação, como os toxicodependentes. Todos os dias, mais um dia. Só por hoje.
E hoje será em Santiago por causa de um outro e de mim, porque a Fé também é egoísta e não há mal nenhum nisso, pelo menos não o vejo. Vejo o Mal em todos gestos pequenos e intolerâncias, pontos minúsculos que não valem nada mas que magoam. A facilidade com que se magoa o outro e depois se crê em Deus dá-me vontade de rir. Uns dias. Outros dá-me vontade de chorar. Dirão, somos humanos, erramos. Sim. Na prática. Mas não será possível suavizar a teoria? Porque quem quer ser boa pessoa não o consegue ser todos os dias. Fazer o quê? Consola-nos acreditar. É uma sorte.

até já aos livros


Patrícia Reis,

Qual é a diferença entre uma escritora e uma empresária? A diferença é abissal e tem contornos quase dolorosos para a pele do escritor. Perante uma crise, gerindo um atelier de design há 14 anos, no âmbito do qual se faz a Egoísta, decidi fechar a porta nas trombas da escritora e dizer: minha cara, vai agora para um canto que te agrade e deixa-me trabalhar. Por não ter outro remédio? Sim. E porque os livros, mesmo os que têm boas críticas, não vendem e ninguém vive dos livros. Somos escritores por condição e não por profissão. Há uma diferença muito grande e há quem não a queira ver. Há quem se coloque em bicos dos pés para apanhar um livrinho e dizer: olhem para mim, tenho um livro, sou escritor. Pois. Agustina Bessa-Luís diz que nada disto tem qualquer importância e que escritores e um livro só não valem. Urbano Tavares Rodrigues faz 60 anos de vida literária para o ano. Maria Teresa Horta nunca ganhou um prémio (ups, ganhou uma menção honrosa da revista Máxima, peço desculpa). Ao lado de jovens autores – ou ditos jovens autores – que levam um saco de estrelas para casa, surgem três pobres pontinhos luminosos para uma reedição de Flaubert. Há paciência? Nenhuma. Portanto, a parte da escritora ficou arrumada por uns tempos.

A parte da empresária é aquela que faz contas, que paga IVA antes de ter recebido a factura que já foi emitada há não sei quanto tempo, é que não escapa ao fisco, que atura clientes e ainda outras pessoas que querem pontificar sobre a justiça dos tempos. Faço textos, stands, sites, tenho ideias, ando e corro, corro e ando. A 004 é uma empresa com 14 anos, tem sete pessoas. Para nós, a crise começou em 2008. Há três anos que só sabemos conjugar tudo com esta palavra: crise. Nada de subsídios, redução de ordenados, cortar, cortar, cortar. Pergunto-me seremos nós demasiado estúpidos ou demasiado espertos por andarmos nisto há três anos? Agustina diz que a pesquisa dá menos trabalho que a imaginação e eu sonho com a reforma para apenas escrever. Odeio domingos.