Santiago


Patrícia Reis,

Há um ano fui porque alguém que não era ainda alguém precisava ou eu precisava por ele, não sei. Agora volto e estaremos todos juntos na capelinha de Nossa Senhora do Pilar, padroeira de Espanha, a santa que adorna o nome da minha avó, da minha mãe e o meu. Dizem-me que a minha ideia de consolo pode ser louca, afinal são 540 km para cima e para baixo. Eu preciso de consolo. Deve ser muito exigente não acreditar em nada que nos transcende. É-me difícil de entender também quem se diz uma coisa e depois outra, como se a Fé fosse algo a que basta juntar pó e água.
Dói-me o fundamentalismo e compreendo o tempo dentro do tempo da instituição mesmo que me irrite. Diria que sou uma cristã em recuperação, como os toxicodependentes. Todos os dias, mais um dia. Só por hoje.
E hoje será em Santiago por causa de um outro e de mim, porque a Fé também é egoísta e não há mal nenhum nisso, pelo menos não o vejo. Vejo o Mal em todos gestos pequenos e intolerâncias, pontos minúsculos que não valem nada mas que magoam. A facilidade com que se magoa o outro e depois se crê em Deus dá-me vontade de rir. Uns dias. Outros dá-me vontade de chorar. Dirão, somos humanos, erramos. Sim. Na prática. Mas não será possível suavizar a teoria? Porque quem quer ser boa pessoa não o consegue ser todos os dias. Fazer o quê? Consola-nos acreditar. É uma sorte.

5 comentários em “Santiago”

  1. É uma sorte mesmo, Patrícia. Eu estou nesse meio caminho entre o sim e o não sei, entre o não e o não pode ser não. Ora tenho a água e me falta o pó, ora o contrário, ora tenho ambos e não sei juntá-los. A fé é um caminho difícil e cheio de dúvidas, e quem disser o contrário é porque não a conhece. Mas amo Santiago (e toda a Galiza) e vou lá muitas vezes. Em Santiago não é difícil ser-se espiritual, tudo é lindo e profundo. Boa viagem, e que te faça muito bem.

    1. Ui, Ana, matéria complicada, esta… A coisa é uma interrogação permanente, mas é justamente da interrogação que vive. Faz parte… (pelo menos é assim que eu sossego, normalizando a agitação da dúvida). Já não ligo nada aos exemplares que me rodeiam: a coisa é connosco e mais nada. Ouvimos as mesmas coisas e depois cada um vai à sua vida e faz disso o que pode. Se há matéria em que os alunos da fila de trás podem mais que os do quadro de honra, deve ser esta… 😉

      1. Tens toda a razão: a coisa é connosco e mais nada. Acho que a minha rebeldia é (sempre foi) com os símbolos. Adiro à essência e é ela que me prende, mas não engulo bem que lhe dêm um nome, uma regra, uma posse. Acho que a essência tem de ser universal e livre de conveniências humanas. Mas é um problema meu, claro.

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