Mundo Inteiro


Patrícia Reis,

 

Se tiverem paciência oiçam. Mal não faz.

Esta semana está a correr bem? pergunta a minha mãe ao telefone.

No Saldanha estava um casal de sem-abrigos com dois filhos. Há duas semanas não tinham ar de sem-abrigos. Agora são e agem como tal.

Uma das minhas melhores amigas está em casa de licença de parto e não se queixa da solidão, mas eu sinto-a na voz.

Um indivíduo com quem troquei algumas palavras morreu e tenho a sua voz no gravador e preciso de transcrever mais umas tantas coisas. O senhor está morto. A voz dele está ali. Da mesma forma, não falo com Agustina Bessa-Luís, mas mantenho o telefone com a fotografia dela, assim como mantenho o do Eduardo Prado Coelho.

Coisas estranhas, dirão. Pode ser.

O meu filho mais velho já tem mais de um metro e oitenta. O mais novo preocupa-se com o estado da crise.

O que vão fazer? Como irão ganhar dinheiro? Digo-lhes que o futuro é um país lá longe. Hoje, numa conversa de leitores, percebi que não estou sozinha no sentimento de perplexidade face a tanta coisa: falta de contacto visual, sentir os amigos, dizer amo-te, deixar os filhos irem à sua vida, ter medo da morte sem dignidade.

Percebi que ter 40 anos não é metade da minha vida, é mais de metade e que preciso de saber onde estou no mundo para que o mundo inteiro não me assuste.

Dirão que sou lamechas e, para ser sincera, estou-me nas tintas.

A hipocrisia a que chegámos é hedionda. E faz mal.

Hoje disse a um cliente tudo o que pensava, sem filtros, sem diplomacia, correndo o risco de perder o trabalho. Ele não se importou.

Podia ser ao contrário.

Há uma série de gente que amo que sofre todos os dias e há quem esteja doente.

Não aguento mais a palavra crise e quero mandar tudo à merda, mas depois não posso porque tenho dois filhos e uma empresa e, por isso, terei de andar no mundo. Este é um desabafo que não serve a ninguém, não é delito, nem opinião. É terapia. Desculpem lá. Respondi à minha mãe: “Tudo normal.”

13 comentários em “Mundo Inteiro”

  1. Será que num mundo mais agitado e incerto, o errado e o certo terão fronteiras mais claras?
    Não sei a resposta, mas se esperarmos algum tempo, acho que todos iremos saber.

  2. Não não estás sozinha nessa perplexidade. E talvez o mais estranho seja o facto de sermos muitos a estar sozinhos. Se somos muitos, e somos, devíamos sentir que estamos acompanhados. O mundo é, ou está, muito estranho.

    Excelente, a música.

  3. Por mim desculpo. Eu ouvi e li e é mesmo isso. “Tudo normal”. E é cada vez mais normal achar que está tudo normal. O nosso instinto de sobrevivência obriga-nos a pensar dessa forma. E o que vale é que esse é dos últimos a abandonar-nos.

  4. Talvez o mundo, com toda a sua estranheza dos dias de hoje, esteja a dar-nos uma oportunidade – de sermos diferentes no modo de viver, no modo de trabalhar em parceria, no modo de enfrentar a crise, no modo de olhar para os outros. Este tempo também pode ser um tempo precioso. Assim o saibamos aproveitar.

  5. Viver sem ver, sem sentir, sem ajuizar para “pensar” que está tudo bem! Isso é vegetar. Isso, é não estar bem. Falta alimento para a alma. O cão, neste mundo materialista, expressa mais sentimento que homem.

  6. A todos: o meu filho mais velho diz que o mundo se divide entre dois tipos de pessoas. As que apoiariam Hitler em 1933 (eleito por maioria chanceler alemão) e as que não apoiariam. É uma forma um pouco singela de ver o mundo. E boas pessoas podem fazer más coisas, é verdade. Os quarenta são tramados, Rui, e eu também não quis pensar nisso. Quando vi o casal de sem abrigos no Saldanha o meu coração não deixou de bater, encolheu-se e tive vergonha de tudo o que tenho. Ontem, numa comunidade de leitores no Banco de Portugal, disse que se não publicar mais nada, depois de “Por este mundo acima”, não faz mal. E sabem? Não faz mal nenhum. Tudo aquilo em que acredito está ali. Não tenho mais nada a dizer. Pelo menos agora. A normalidade, como diz a Ana, é demasiado anormal:) beijos a todos

    1. Agora imagine que tem sessenta anos e que acaba de vir do médico e que ele lhe diz que não tem a certeza que você não tem um cancro.Uma radiografia hoje, segunda um tac e depois se verá. Apesar de tudo prefiro a normalidade.

    2. Queria felicitá-la pelo texto. Deixou-me a curiosidade aguçada até ao fim.E, depois, também penso, às vezes, que a realidade é demasiado anormal e que me apetece mandar tudo às malvas. Mas hoje não me apetece nada.

      1. Ibel. Compreendo muito bem o: “Mas hoje não me apetece nada.”
        Há dez anos foi-me dito, por um médico, que teria oito anos de qualidade de vida. Ainda cá ando. Vivo num ciclo de doenças, minhas e de outros, que de tão anormal se tornou normal. Aprendi, talvez por ter filhos pequenos, que a cabeça pode tudo e que a força de vontade é maior se a quisermos com ganas (uso a palavra ganas no sentido a que lhe dão os espanhóis, entenda-se). Disseram-me que a tristeza também é uma forma terrível de egoísmo e eu não compreendi. Hoje compreendo. Tenho a certeza de que todos os seus exames correrão bem e não tenha medo da palavra cancro. Há palavras que só têm o poder que lhes damos. De resto, não sei se é crente ou não, mas pensarei em si enquanto examinam o seu corpo. Pensarei de forma alegre. Como as pessoas que me amam pensam em mim. É uma forma, como qualquer outra, de sobreviver à ideia de desistir. Desistir seria mais fácil? Às vezes. Mas, como escreve o Carlos, a vida tem merdas boas. Um beijo grande (e se tudo isto for muito lamechas, peço desculpa:))

  7. Ser solidario na apreciacao do mundo que nos rodeia, deixa-nos em estado de solidao estrutural. Mentalmente a realidade hipocrita da vida transforma-nos com perplexidades evitaveis naquilo que gostariamos estivessem ao nosso alcance.
    Mas a vida tem merdas boas…

  8. Realmente os quarenta são tramados…talvez, porque nos acelerem os pensamentos, e nos leve a valorizar diversos tipos de coisas e atitudes, às vezes dadas como certas e dignas, no entanto, todos temos dias assim – normais…tão normais que podem parecer lamechas. E depois dos quarenta convêm dar uma folga às mães , afinal elas merecem:)

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