conferência de Mia Couto, vale a pena ouvir
Patrícia Reis,
Cavaleiros da Ordem do Infante Dom Henrique
Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Aníbal Cavaco Silva,o meu nome é Catarina Patrício, sou licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, fiz Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou doutoranda em Ciências da Comunicação também pela FCSH-UNL, projecto de investigação “Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo” distinguido com uma bolsa de doutoramento individual da Fundação para a Ciência e Tecnologia. A convite do meu orientador, lecciono uma cadeira numa Universidade. Tenho 30 anos.
Não sinto qualquer orgulho na selecção de futebol nacional. Não fiquei tão pouco impressionada… O futebol é o actual opium do povo que a política subrepticiamente procura sempre exponenciar. A atribuição da condecoração de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique a jogadores de futebol nada tem que ver com “a visão de mundo” (weltanschauung) que Aquele português tinha. A conquista do povo português não é no relvado. Sinto orgulho no meu percurso, tenho trabalhado muito e só agora vejo alguns resultados. Como é que acha que me sinto quando vejo condecorado um jogador de futebol? Depois de tanto trabalho e investimento financeiro em estudos?!! Absolutamente indignada.
Sinto orgulho em muitos dos professores que tive, tanto no ensino secundário como no superior. Sinto orgulho em tantos pensadores e teóricos portugueses que Vossa Excelência deveria condecorar. Essas pessoas sim são brilhantes, são um bom exemplo para o país… fizeram-me e ainda fazem querer ser sempre melhor. Tenho orgulho nos meus jovens colegas de doutoramento pela sua persistência nos estudos, um caminho tortuoso cujos resultados jamais são imediatos, isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade. Tenho orgulho até em muitos dos meus alunos, que trabalham durante o dia e com afinco estudam à noite….
São tantos os portugueses a condecorar…
e o Senhor Presidente da República condecorou com a distinção de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique jogadores de futebol… e que alcançaram o segundo lugar… que exemplo são para a nação? Carros de luxo, vidas repletas de vaidades… que exemplo são?!
apresento-lhe os meus melhores cumprimentos,
Catarina
Há dez anos o terror mudou de significado. A Egoísta fez um tributo a NY e recebeu uma série de prémios. Numa das páginas, o meu filho mais velho, então com cinco anos, substituiu o texto do MEC que nunca chegou. As perguntas eram:
Mãe, sabes que a América foi atacada?
Mãe, não é a América que ataca sempre?
Mãe, ainda há pessoas na América?
Dez anos se passaram. Hoje, o meu filho, já não mora aqui e continua a fazer perguntas.
Tenho uma empresa há 14 anos. Sou, portanto, masoquista. Uma empresa com sete pessoas na área da comunicação e design é um puro suicídio. Nunca escapei ao fisco, até nem sei como se faz. Nunca tive um director financeiro. Não tenho dívidas ao Estado. Cortei nos salários de todos e ninguém tem subsídios de férias ou de natal. Desde 2008 que a nossa vida é complicada. Animada, é certo, mas complicada. Temos um curriculum invejável e a Egoísta como cartão de visita, diria que não podia ser melhor. Temos um portfolio, desculpem, do caraças. Então porque é que tem de ser tão difícil? Com este Governo ou com outro qualquer, é-me indiferente, a pergunta mantém-se. Com o banco A ou o banco B. O exercício de masoquismo talvez vá correr mal um dia ou não correr de feição. Entretanto, os filhos crescem e os cabelos brancos também. Adoro o que faço. Tenho uma equipa de ouro que nem nos jogos olímpicos da resistência, criatividade e amor à camisola há algo semelhante. Estou mesmo chateada com esta instabilidade e comigo. Devia ter coragem e mandar tudo às urtigas porque o que sinto, todos os meses, é que são pérolas a porcos, que o país não merece e que sou tótó porque nunca serei rica, nunca pagarei uma comissão e nunca saberei o significado real da palavra off shore. Não tenham pena de mim, não é preciso tanto. A média de idade de um mulher portuguesa é de 78,8. Eu tenho 40. Digamos que vou manter o ânimo. Ou mudar de país.
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Não, não trouxemos medalhas para casa, como se isso fosse o mais relevante, mas vimos uma recuperação extraordinária de um grande atleta: Nelson Évora. O homem que esteve um ano a recuperar, que tem um parafuso no pé e é o quinto melhor do mundo. Nunca se pensa nisso, mas é a verdade: qualquer lugar a que um atleta deste nível vá parar significa que é o quinto, o sétimo, o décimo melhor do mundo. Melhor medalha do que isto? Não me parece.
Então foi assim, o tipo ia na rua, descansado, não viu o buraco e caiu. Começou aos berros
Socorro, socorro!
Passou um bombeiro que, preocupado, com ar cansado, desgastado, disse:
Acabei o meu turno, quando chegar a casa ligo para o ajudarem.
Passou um padre. Olhou para o buraco e para o seu ocupante, encolheu os ombros e atirou uma Bíblia, dizendo:
Não posso fazer mais por ti, meu filho.
A seguir, ouvindo uma voz que reconheceu, um amigo abeirou-se do buraco no asfalto.
Olá, o que estás a fazer aí?
Tira-me daqui, caí.
O amigo suspirou e atirou-se para o buraco. Uma vez lá em baixo, limpando as mãos cheias de terra às calças de ganga, o outro, o primeiro a cair, largou aos berros:
Estás maluco? Eu quero sair, não quero companhia.
O amigo sorriu.
Deixa-te estar. Calma. Eu já estive neste buraco e sei como se sai.
Sou casada com um homem rico. Não parece grande coisa, mas tem três talhos em Sacavém e um em Moscavide. Comprou uma carrinha com sete lugares porque diz que quer uma família grande. Não podemos ter gatos ou cães porque ele é alérgico. Não faz mal. Pintou o quarto como vi numa revista e só vê um jogo de futebol por dia. Eu faço as unhas de gel com a irmã dele e vimos a novela da TVI e os gordos da Júlia Pinheiro, para lhe dar uma força, lemos nas revistas que aquilo na SIC não está fácil. Somos uma família feliz. Sei que vem aí a crise não tarda, mas as pessoas têm que comer e o meu homem é muito esperto, controla tudo. Vou abrir um pequeno negócio de venda de qualquer coisa, mas ainda não me decidi. O facto de estar grávida não ajuda muito e ando com os nervos feitos num fanico. Durmo mal, já nem a almofada entre os joelhos me ajuda. A minha cunhada fica triste a ver a minha barriga crescer, ela que tem a dela vazia, vazia como um ovo podre. Nunca terá filhos, coitada. Tento fazer com que pense noutras coisas, mas não é fácil. A minha mais nova, fez quatro anos na semana passada, está traquinas e não pára, às vezes acho que deve sofrer de um mal qualquer porque não está quieta, anda sempre a dançar e a fugir e eu não tenho pachorra e o meu homem muito menos, ele que se levanta tão cedo, coitado, e tem tantas responsabilidades. A menina tem tudo, tudo como é suposto. Até o quarto brilha, como se fosse tirado de um filme. Enerva-me que ela só queira brincar com as coisas da cozinha quando tem um quarto cheio de coisas e já perdi a cabeça mais de duas ou três vezes. Dou-lhe uns safanões, uns estalos e dois berros. Eu também levei e não me fez mal nenhum, digam lá o que disserem. Por isso, diria que a minha vida é um pouco melhor do que a dos outros e que sou feliz. Sim, foi a cruzinha que coloquei no teste felicidade que saiu hoje na revista com o jornal do meu homem. Sou feliz a mais de setenta por cento. Às vezes vejo aquelas escanzeladas, cheias de coisas de marca, cursos superiores e filhos criados e pergunto-me se serão felizes. Não são de certeza. Pelo menos não são como eu sou. Posso apostar.
Então o casal arrumou os sacos no carro, abandonou o carro do supermercado e, sem uma palavra ou toque, voltaram para o centro comercial. Qual espião, fui atrás. Ele seguiu para a Fnac, ela para o cabeleireiro (a precisar de retocar as raízes com urgência, não tenho dúvida). Perto do balcão do café com pastéis de nata aquecidos estavam dois adolescentes aos beijos e o segurança veio pedir decoro. Decoro foi a palavra empregue. Um miúdo com rastas passou a comer um gelado enorme que escorria, escorria de felicidade. Na livraria vi que as capas são quase todas iguais, obedecem a critérios que me ultrapassam. Calvino perto de Nora Roberts? Ok. Quem sou eu? Uma senhora perguntou-me onde é a casa de banho. Depois, quase com vergonha, encolheu os ombros, um gesto tímido, e pediu para a acompanhar. Nunca tinha posto os pés num centro comercial. O marido veio ver se arranja trabalho com o cunhado. Para os lados de Sacavém. Tem uma neta com média para entrar em Medicina que é o seu orgulho e mostrou-me a fotografia: tirou o papel da carteira e vi uma miúda com o cabelo escorrido e um sorriso torto. Fiquei de olhos rasos de água à porta da casa de banho das senhoras, atrapalhando o trânsito. Depois o telemóvel tocou e era um dos miúdos, o mais novo. Eu disse: olá passarinho.
Confrontada com um erro, uma falha, peço desculpa com facilidade. Há mesmo quem diga que o faço com demasiada facilidade. Pouco importa.
O problema do erro é apenas um: pode ser deliberado, ocasional, por defeito, por incapacidade, por maldade, por falta de cultura e por aí fora.
Não somos um povo educado para festejar o sucessos dos outros.
Se algo que faço tem um determinado sucesso, prémio, crítica, etc., o telefone permanece no maior silêncio. Se for o contrário, a população virtual ou não, junta-se para partilhar a dor comigo. Tenho sempre a mesma imagem: a ferida aberta e a malta a esburacar para doer mais.
Apontar a falha é português, dizem-me. Pode ser que sim. Passo os meus dias a ver falhas em trabalhos diversos, em sítios diferenciados. Quando um dos meus filhos assume um discurso mais radical, sou sempre a primeira a pôr água na fervura, a procurar ver outro ângulo. Serve este texto para quê? Para vos desejar um bom fim de semana, 24 horas depois de ter chorado a morte de um amigo, alguém que era bajulado e cravado para tudo e por todos e que agora é olimpicamente ignorado. Porque os mortos também morrem. Todos os anos lhe escrevo uma carta e, crime!, a carta deste ano tinha um erro por ter sido escrita de rajada, com o coração. Lamento que algumas almas só tenham o erro a apontar. Que não se recordem do homem que escreveu todos os dias no Público durante dez anos – todos os dias, repito – e que nos deu tanto em tantas circunstâncias. Se era a melhor pessoa do mundo? Não, mas divirtia-se com os erros. Eu não me divirto com os erros, vejo-os e tento perceber como é que surgem. Será por ignorância, por maldade, por cansaço? Talvez seja apenas a dita da falha humana. A partir de hoje agradeço a todos os que me lêem, por uma ou outra razão, que ignorem os meus erros, são decerto fruto de um acaso ou pura ignorância. E quando se é ignorante não se pede desculpa e é-se mais feliz.
Querido Eduardo
E passou-se mais um ano.
O tempo tem sempre o condão de me surpreender.
Já não compro o Público porque me custa ver que não estás.
As boas novas são as que já sabes: a maria manuel publicou a sara k, o verão de todos os silêncios, pela Planeta. Uma capa linda, um lançamento emotivo com várias leitoras (todas nós a invejar a bela voz da Filipa Leal, mas enfim, sabes como é a inveja das mulheres, quando não é má, é de admiração saudável). É um belo livro.
A MM tem uma história para desembrulhar e estamos juntas raras vezes, mas estamos sempre perto. A Inês continua na sua saga na Casa Fernando Pessoa, uma máquina de ideias e iniciativas e a nossa senhora dos milagres, já que dinheiro, como calculas, nem vê-lo. O Francisco José Viegas é novo secretário de estado da cultura – foi-se o ministério – e o Passos Coelho faz as vezes de PM. O ministro que comentarias seria o Paulo Portas que ficou com o MNE. Novidades literárias além da MM? Temos o livro de vida da maria teresa horta, as luzes de leonor, sobre a Marquesa de Alorna, a sua penta avó e uma lista infindável de livros novos, livros de desconhecidos, livros de vedetas de televisão, livros de vedetas de futebol, livros de pessoas que se acham (como se diz no Brasil) e livros de pessoas maravilhosas.
Terias muito para dizer e para escrever sobre tudo isto. Sei que é estúpido contar-te todas estas coisas porque estás num sítio onde as sabes, porventura, antes de mim e com mais pormenores, picantes ou não.
Uma coisa é certa, as saudades apertam os corações de todos os que te querem bem. Desculpa se uso o verbo no presente, para mim estás sempre aqui. Não consegui ainda eliminar o teu número de telemóvel e a MM diz que o tem com ela. Por isso mantenho essa ligação. Estranho? É um certo consolo. Preciso disso. Conclui que precisamos todos, alguns, e que já não existem ideias proibidas, pensamentos reservados.
Tudo é possível. Mais uma vez, regresso à ideia do bem e do mal, ideia que acarinhas, decerto, mesmo que de forma infantil. A infantilidade também mora comigo.
Juntaram-se a ti alguns, terás companhia e histórias para partilhar.
Onde quer que estejas não deixes de te rir da vida mesmo na morte. A vida só tem graça quando se sabe olhar para ela. Como tu sabes. Um beijo P
A cama desfeita leva para uma escada de caracol e lá em cima guardam-se tesouros, da janela vê-se o mar e há ainda um toucador à antiga e milhares de páginas de centenas de livros. As duas mulheres não ficam a ver nada disso, é apenas o cenário que as envolve e seria ideal para um outro filme ou história, mas encaixa-se nelas com uma certa perfeição. Falam uma para a outra. Somente. Louvam a rotina. Descascam as manias dos menores. Riem-se com pormenores e matam saudades. Enumeram coisas que acham que mudaram ou que aprenderam ou que decidiram. Vêem coisas no tempo e cada passo é um momento de lucidez.
O céu vai escurecendo e as duas, deitadas na cama por fazer, não se importam com nada. Ou quase nada. São uma da outra naquelas duas horas com a intensidade de poucos.