a coisa da empresa


Patrícia Reis,

Tenho uma empresa há 14 anos. Sou, portanto, masoquista. Uma empresa com sete pessoas na área da comunicação e design é um puro suicídio. Nunca escapei ao fisco, até nem sei como se faz. Nunca tive um director financeiro. Não tenho dívidas ao Estado. Cortei nos salários de todos e ninguém tem subsídios de férias ou de natal. Desde 2008 que a nossa vida é complicada. Animada, é certo, mas complicada. Temos um curriculum invejável e a Egoísta como cartão de visita, diria que não podia ser melhor. Temos um portfolio, desculpem, do caraças. Então porque é que tem de ser tão difícil? Com este Governo ou com outro qualquer, é-me indiferente, a pergunta mantém-se. Com o banco A ou o banco B. O exercício de masoquismo talvez vá correr mal um dia ou não correr de feição. Entretanto, os filhos crescem e os cabelos brancos também. Adoro o que faço. Tenho uma equipa de ouro que nem nos jogos olímpicos da resistência, criatividade e amor à camisola há algo semelhante. Estou mesmo chateada com esta instabilidade e comigo. Devia ter coragem e mandar tudo às urtigas porque o que sinto, todos os meses, é que são pérolas a porcos, que o país não merece e que sou tótó porque nunca serei rica, nunca pagarei uma comissão e nunca saberei o significado real da palavra off shore. Não tenham pena de mim, não é preciso tanto. A média de idade de um mulher portuguesa é de 78,8. Eu tenho 40. Digamos que vou manter o ânimo. Ou mudar de país.

9 comentários em “a coisa da empresa”

  1. Somos dois, Patrícia. E por certo que há mais. No entanto, não desisto facilmente, porque isso é o que os tontos querem. É bom dar alguma luta, pelo menos ficam a saber que o rei vai nu porque há pessoas que não têm medo de o dizer. Coragem. E continua a lutar.

  2. Sim, provavelmente são pérolas a porcos (a qualidade não compensa em países semidesenvolvidos e em crise profunda). Segundo alguns, já serás rica (e exploradora e elitista e etc). Digamos que é improvável que mantenhas o ânimo, pelo menos de forma razoavelmente constante, mas espero que sim (de qualquer modo, uma ligeira depressão é criativa). E é decididamente uma hipótese a considerar: 40 was the new 30 há uns anos, agora que 50 is the new 40, 40 são para aí 25.

    1. Gosto dessa contabilidade, Jaa! 🙂

      Patrícia, como te compreendo. Mas é uma coisa que nasce connosco: fazer bem as coisas, com brio e exigência. Não compensa financeiramente, é certo, mas dá outro tipo de satisfação não quantificável em números. Os prémios internacionais da Egoísta são a prova disso.

      (eu sei, eu sei, os prémios não pagam as contas da mercearia…)

  3. Olha, Patrícia, eu até nem devia dizer nada porque nada sei de gestão (e de muitas outras coisas, diga-se de passagem), mas talvez uma empresa como a tua, que tem como matéria prima a criatividade, precise de um incremento de animação e complicação, um pouco na linha do que o jaa diz.
    Deixa lá isso da off shores , essas coisas ficam sempre em sítios onde faz muito calor. 🙂

  4. Malta, estava num dia mau, hoje estou melhor. Estou cansada de remar contra a maré e não estou rica, nunca estarei. A Egoísta é uma forma maravilhosa de fazer algo único, contudo tem um lado B: nunca tivemos um contrato e temos muito menos orçamento do que tínhamos. Entre o que se pensa e a realidade vai uma diferença muito grande e eu não tenho uma slot machine na minha pequena empresa (que por acaso é um open space, dava para sala de jogos, tenho de pensar nisso). Tenho um saco de boxe para deixar as frustrações e tento fazer o melhor que posso, o melhor que sei. Nunca deixei de receber seja quem for. Nunca tratei mal clientes que deviam ser mandados, simplesmente, à merda. Tenho uma equipa de ouro, não me canso de o dizer, uma equipa que se mantém, mesmo sem subsídios e até com cortes de ordenado. Ninguém desiste. Eu é que tenho dias em que as contas me baralham, mas eu não sou de contas, sou de ideias e de palavras, por isso talvez seja natural. Todos têm razão, obrigada pelo apoio e JAA, quanto à idade, não me ralo muito, confesso-te, mas há coisas que pesam:) apesar de tudo. Beijos

    1. A referência à idade era para salientar que ainda estás muito a tempo de fazeres tudo o que entenderes, incluindo mudar de país. Eu tenho 42 (#$%*%, quase 43, */%&#$) mas para os homens deve ser mais difícil porque nunca ouvi dizer 40 is the new 30, etc, etc, aplicado aos homens. 🙂

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