o dia às 9:36


Patrícia Reis,

Uma menina na China foi atropelada, ignorada por quem passava, e morreu. O ditador da Líbia deixou uma fortuna na Caixa Geral de Depósitos. Um satélite alemão vai cair na Terra, não se sabe onde, mas é pouco “provável” que possa atingir alguém. Manuela Ferreira Leite acha que a educação e a saúde deverão deixar de ser gratuitas (alguma vez foram totalmente? Devo viver num país qualquer estrangeiro). As minas de não sei onde, cá em Portugal, desculpem, mas dormi mal, deverão ser compradas por um consórcio sul com accionistas angolanos. E sei tudo isto sem ter ligado a televisão, sem ter ouvido rádio. Porra. Desculpem. É aborrecido, logo pela manhã, ter alguém a refilar e há contrapontos a estas notícias, de certeza. Talvez eu só veja estas porque os jornais só mostram estas e talvez o país precisa de seratonina. Ou eu. Bom fim de semana.

as coisas do dia


Patrícia Reis,

Então fiz as contas da empresa, decidi a que fornecedores pagar, aborreci a senhora de uma câmara municipal, telefonei para um secretário geral, fiz mais contas, vi o extracto (se fosse com o tal do acordo seria sem “C”) do banco, falei com a equipa, atendi mil telefonemas e ainda me perguntam o que faço o dia todo? Pois, tenho uma empresa e não escrevo uma linha há meses. Acho, por isso, imensa graça quando me dizem: ah, é escritora. Uma ova. Sou uma pessoa que luta contra estes tempos, que paga impostos, que nunca teve um esquema, que passa facturas ao Estado, paga o IVA e fica a arder. Sou a mãe de um adolescente arrogante, de um pré adolescente que parece que gostaria de viver nas barracas e mulher de um homem extraordinário que trabalha 20 horas por dia. Não desligamos nunca e não somos mais felizes por isso. Em resumo, foi isto que disse ao médico que me atendeu quando bati com a cabeça no passeio. Se ele percebeu, não sei. Mas disse-me que valeriana era bom para os nervos. 

 

P.S: felizmente há a Ivone:)

Parabéns, Agustina


Patrícia Reis,

Agustina Bessa-Luís, que nasceu velha e morrerá criança, como dia, faz anos hoje. “O medo faz as pessoas extravagantes, mas não as faz originais,” escreveu em tempos e ainda “Uma nação não nasce duma ideia. Nasce dum contrato de homens livres que se inspiram nas insubmissões necessárias ao ministério dos povos sobre os seus infortúnios”.

notícias


Patrícia Reis,

Os patrões admitem o alargamento aos privados dos cortes nos subsídios de férias e de Natal.

A medida foi anunciada apenas para os funcionários públicos e empresas do Estado, mas António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal, defende que as empresas privadas também devem aplicar a receita, se tal for importante para impedir o encerramento.

António Saraiva, em declarações à Renascença, disse que “se, e só nessas condições, as empresas se encontrem em situação de iminente encerramento, mais vale sobreviver com dolorosas medidas do que encerrar, com o desemprego que isso acarreta e, por isso, estou convencido de que os trabalhadores de empresas em dificuldade, confrontados com a iminência do encerramento e a extinção do seu posto de trabalho e a perda de algumas regalias, optarão pela manutenção do seu posto de trabalho.”

António Saraiva lembra que a situação do sector privado não é comparável à do Estado, que está obrigado a cortar na despesa, e nem todas as empresas privadas estão em dificuldade, tendo muitas já aplicado planos de saneamento e reestruturação.

A notícia completa no site da Renascença.

 

Novo livro de Rui Zink “O amante é sempre o último a saber”


Patrícia Reis,

Começa assim:

 

Contagem ainda a zeros

 

Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são histórias de amor. só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas que eu próprio não tinha reparado. Às vezes, amor entre duas pessoas, outras de amor entre uma pessoa e uma ideia. Idalina enamorou-se por “uma dança em música”. Sam Espinoza apaixonou-se por uma mulher uns anitos mais velha (duzentos, coisa pouca). Greg quase é salvo da perdição por uma sósia da Angelina Jolie. O amor está no ar e também, como diria um poeta, o amor está no mar. O amor não salva, nunca salva, mas alguém tem uma ideia melhor? (pag 13.)

menos no corpo.


Patrícia Reis,
Agora não se pode fazer nada, o pensamento era circular. A mulher deitou-se para o outro lado. Devagar, consciente de cada centímetro do corpo. Se fosse uma peça de mah jong bastaria encontrar o par e desaparecer. A cama estava vazia. A mulher tentou ligar a televisão, ciente de que seria uma tarefa impossível. Em vez de maldizer a quantidade de comandos, a box, o raio, limitou-se a ficar quieta. O pior de tudo é que ficar quieta também não era uma opção. Suspirou baixinho. Ouviu o vizinho de cima na casa de banho e os saltos da mulher para trás e para a frente. De resto, o silêncio permanecia, menos no corpo.

diferença?


Patrícia Reis,

O miúdo perguntou qual é a diferença entre o PSD e o PS. Fiquei a pensar naquilo e depois concluí que na verdade, bem vistas as coisas, os partidos são uns empregos e ponto. Disse-lhe: as diferenças são poucas, há pessoas melhores e piores em ambos os partidos. O miúdo adiantou-se: Mas quem manda é a Alemanha, não é? Por esta altura, aproveitei para falar de uma coisa mais interessante, uma qualquer, até o novo jogo da Fifa e todos sabem o que eu odeio futebol.

Livro Agualusa, apresentação de ontem


Patrícia Reis,

A educação sentimental dos pássaros, contos sobre anjos, demónios e outras pessoas quase normais.
Já li e reli estes onze contos. Na minha opinião há uma ligação entre eles, ténue, como um fio invisível e quase divino. As personagens são de uma construção forte e nada próxima do banal. Não há banalidade na literatura de Agualusa.
Estes contos reflectem interrogações, efabulações e cenários onde ……se coloca e nos coloca de forma admirável. Dirão que um livro de contos não é um romance. É certo. Um conto é uma bênção e extremamente complexo de redigir e levar a bom porto. José Eduardo Agualusa podia ser um escritor de um fôlego imenso, focado nos romances, mas não é: as suas histórias, estes contos e outros são também uma parte significativa da sua obra. Revelam a sua força enquanto escritor, o seu trabalho de linguagem e preocupação na eficácia do que quer transmitir. Sei que escreve e reescreve e nunca fica satisfeito. Geralmente, digo-lhe que é bom sinal, porque se acha que consegue fazer melhor, que alegria para um leitor que o acompanha.
José Eduardo Agualusa não é apenas de um colega de editora, mas sim de um amigo. E um amigo é também um anjo que no salva, alguém que pode atiçar os nossos demónios e que certamente nos coloca no sítio certo se considerarmos uma potencial normalidade de comportamento. Somos todos múltiplos, como Pessoa cristalizou nos seus heterónimos, ele que também escreveu, no Livro do Desassossego, uma educação sentimental. Uma educação sentimental, essa, inspirada porventura em Flaubert. Não se podem comparar, são educações distintas e, para mais, esta é a educação sentimental dos pássaros. Seres frágeis que nos tomam nas suas asas e percorrem os sonhos.
Não é a primeira vez que oiço José Eduardo Agualusa dizer que um livro lhe chegou num sonho. Há anos que o oiço dizer isso. Personagens que o invadem, personagens da História da Humanidade, africana, americana, brasileira, portuguesa, personagens que trazem o seu cunho e uma certa ideia que não pode ser simplificada através do rótulo: realismo mágico.
Em Agualusa a dimensão do sonho e da magia é grande, reconheço, mas é igualmente verdade que mantém um pé na realidade que vive, no mundo que o rodeia. É um observador, um larápio da realidade, um curioso constante, capaz do riso e da compreensão como poucos.
Digo – talvez em demasia – que somos um povo que não é educado para festejar o sucesso do outro. O José Eduardo festeja. Tem orgulho nos amigos escritores, artistas, realizadores, escultores, qualquer alma que se lhe atravesse e cujo trabalho o toque, mexa com as suas ideias e fragilidades. Ao contrário da maioria, este autor busca anjos em todos e considera os demónios uma parte da condição humana. O resto? A normalidade? Para Agualusa a normalidade é um gesto diário que pode ser ou não coerente. Não somos as mesmas pessoas todos os dias.
O seu percurso literário está repleto de críticas, prémios, nomeações de alto louvor. Devo dizer que se festejo tudo isso, esse carinho do público ou da critica, o que me importa é o momento em que Agualusa partilha o seu original e pede uma opinião sem punhos de renda. E, nesse momento, os anjos param, os demónios desaparecem e a normalidade cinge-se a verificar como a escrita pode evoluir, salvar, modificar ou ficar debaixo da nossa pele. Como neste conto: o quarto anjo, da página 83 (comprem o livro e leiam, sff)

lançamento amanhã na Barata/Leya pelas 18h30


Patrícia Reis,

«O senhor Mesquita tinha a certeza de que à noite se transformava num tubarão‑martelo. Tirando tal convicção, que a família acatava com serena bonomia, o senhor Mesquita passava por ser uma pessoa quase normal. É verdade que acordava asfixiado todas as manhãs, e que levava alguns segundos até conseguir adaptar‑se ao novo ambiente. A seguir barbeava‑se, vestia‑se, lia o jornal enquanto bebia café e… trincava torradas, e quando saía de casa, a pé, em direção ao emprego, a uns duzentos metros, se tanto, na esquina mais próxima, já era inteiramente um homem. Um homem comum.»


José Eduardo Agualusa, “Uma Pessoa quase Normal” in A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS PÁSSAROS – onze contos sobre anjos, demónios e outras pessoas quase normais, Dom Quixote

um programa de rádio, por favor


Patrícia Reis,

Há quem tenha orgasmos intelectuais por ir à televisão. Não é o meu caso.

Mas vou: para promover o livro, para aceder a um pedido simpático, sempre com a ideia de que as pessoas gostam de colocar um rosto num nome e, afinal, ao fim de tanto livro talvez tenha de deixar de ser menos recatada. Ontem, dentro deste espírito, lá fui para a RTP Informação fazer aquilo que se chama a revista de Imprensa.

Não me avisaram que teria de esperar mais de uma hora.

Andei perdida com o Fernando Alvim pelo sítio, encontrei o Alvim por mero acaso. Acabámos por dar com o museu da RTP e segurança com uma resposta para nos ajudar ou sinalética? Nada.

Depois, cúmulo do cúmulo, fui informada que entraria no ar às 00:50 e se trazia boas notícias que ninguém dera, dentro da minha área, sobre livros portugueses que “então é melhor tirar o microfone e sair”. A senhora pivot, muito simpática aliás, encarregaria-se-ia de fazer a revisão da imprensa sozinha. A pergunta será: porra, então porque é que não faz todos os dias e tiram as pessoas de casa a um domingo? Esqueçam, estou a ser má. Existiam cinco capas de jornal, todas com as mesmas coisas que a RTP Infomação repetiu o dia inteiro, nada de muito excitante (a recessão, a madeira, bla bla bla) e depois duas coisas internacionais que me apareceram, no ar, sem aviso prévio e a que devo juntar um comentário: o fim das touradas na Catalunha e as manifestações em Luanda. Eu gosto da arte do improviso. Àquela hora, confesso, tenho porventura menos força de vontade, já estou num segundo sono, mas a verdade é que fiz o que mandaram. Não mostrei a nova egoísta, apesar de ter sido apresentada como editora da mesma (aliás directora que é um erro comum). Não falei das mulheres da arábia saudita com ar de felicidade porque continuam a ter muitas restrições, nomeadamente não podem – como não podíamos nós – sair do país sem autorização dos maridos ou pais. Podia ter feito a ponte para o livro da Inês Pedrosa que ganhou o prémio da Máxima e que se centra numa certa geração de homens que fez o 25 de Abril. Não pode ser, na RTP livro não entra.

Não referi a nomeação de José Eduardo Agualusa para o prémio Courrier International, pela mesma razão, sendo que ele é um dos maiores oponentes ao regime angolano. Conclusão? Fui encher o ecrã, fazer de boneca (que odeio) como um peça de  carne no talho. Depois recebi umas mensagens a dizer que é uma pena não fazer televisão, ai que bonita que estavas. Francamente. Alguém me deixa fazer um programa de rádio? Obrigada.

Livros


Patrícia Reis,
Só boas notícias para a literatura: Inês Pedrosa ganhou o Prémio Literário Máxima com o livro “Os Íntimos”. Hoje Valter Hugo Mãe celebra 40 anos e lança um livro novo na Lx Factory, livraria ler devagar. No dia 30 de Setembro, às 18h30, na livraria Leya na Barata, teremos apresentação do novo livro de contos de José Eduardo Agualusa, ele que acaba de ser nomeado para o prémio Courrier International com Barroco Tropical. O livro novo chama-se “A Educação Sentimental dos Pássaros”. Tragam o corpo, comprem livros e sorriam, sim?

Patrícia Reis,

Diz o Sr. Ministro das Finanças que o aumento da taxa do IVA para 23% na factura do gás e electricidade é o que se pratica na maioria dos países europeus.

Então comparemos:

SALÁRIOS MÍNIMOS NA EUROPA:

Suíça – 2.916€
Luxemburgo – 1.757,56€
Irlanda – 1.653€
Bélgica – 1.415,24 €
Holanda – 1.400 €
França – 1.377,70 €
Reino Unido – 1.035 €
Espanha – 748,30€
Portugal – 485 €

Porque o senhor ministro demonstra que ignora, convém que qualquer outro iluminado lhe diga, por exemplo:

que uma botija de gás em Espanha custa menos 10€ do que aqui no “burgo” ou cada litro de gasolina 95 é mais barata lá do que aqui cerca de 20 cêntimos.

Ou ainda isto:

Nos supermercados do LIDL houve há cerca de 20 dias uma promoção, simultaneamente em Portugal e em Espanha dum produto que cá era vendido por 9,99€ e lá por 6,99€ não havendo qualquer diferença nem na embalagem.