Património da Humanidade? Por acaso já se sabia, mas enfim…
Patrícia Reis,
Vão fechar o hospital curry cabral. ok. Para onde vai a unidade de infecto contagiosas, mais conhecida como a unidade dos doentes seropositivos? Ninguém sabe. Claro que na família democrata do PSD não há ninguém que precise daquele hospital, daquelas urgências e daquela farmácia especificamente. Irra. O resto do hospital Curry Cabral vai para o hospital de São José. Ok. Alguém foi a São José ultimamente? Não aconselho.
Hoje apresentei às pessoas que trabalham comigo no atelier os cortes que terão no subsídio de natal. Eu não tenho. Não chega, não é a primeira vez, não será a última, mas tenho de pagar o imposto seja como for. Pouco importa, é Natal na mesma.
Hoje fui moderar um debate no âmbito de uma iniciativa universitária chamada: conexão lusófona (não perguntem, sff). Felizmente tinha comigo o escritor timorense Luis Cardoso, a poetisa angolana Ana Paula Tavares, brevemente o economista português Jorge Braga de Macedo, e o Tiago Soares, português, que é um indíviduo ligado à juventude das comunidades lusófonas (para onde ele for, eu voto!). Tivemos ainda o Kalaf, que lança hoje o seu primeiro livro, e que apesar de ter nascido em Angola gosta de dizer que é lisboeta. A conversa foi animada até ao momento em que na plateia uma aluna diz que não entendeu o debate, que queria outra coisa. Depois outro aluno questionou a palavra Conexão, conceito que a Ana Paula Tavares até descodificou no ínicio, mas que é da responsabilidade da organização e não dos desgraçados (ou seja, nós) que estávamos ali a debater o que é a lusofonia. No fim houve mesmo quem tenha afirmado que não entendeu o que é a lusofonia. Pois, os escritores e músico e futuro político (não tenho dúvida) falaram de património comum, de entendimento, de afectividade, da multiplicidade da língua, da identidade cultural enriquecida, de diversidade, de comunicação, de partilha e troca, da capacidade de ouvir e estar com o outro… foi uma conversa até animada. Conclui que alguns dos alunos da Faculdade estão zangados. E não querem soluções para o futuro e tão pouco ouvir falar de afectos, querem chavões e mais nada. Posso ter interpretado mal, o meu papel era o ingrato papel da moderadora. Se assim foi, má interpretação minha, peço desculpa. Mas foi o sentimento que ficou e não foi apenas meu.
Estava aqui a pensar que sendo o fuso horário tão diferente talvez seja uma ideia para ponderar. Ou então não ponderar em nada e ir simplesmente.
Para MM
O casaco verde
Na neve artificial a montra estava imaculada. Algo banal na confusão da cidade. Tóquio. A mulher, apertada no casaco e nas luvas, deixou-se ficar a ver a montra. Não reparou nos detalhes da época, cintilantes, bolas e outras luzes. Não. A mulher fixou o olhar no casaco verde eléctrico, um casaco de pele falsa, tingido de cor berrante, uma provocação que não pertencia ao cenário.
Fascinada, mirou-lhe o detalhe da gola curta, os bolsos metidos para dentro, o verde a perder-se num corte de três quartos, um casaco abaixo do joelho. Ao mesmo tempo, e talvez por isso, o casaco era pequeno, de um tamanho mínimo, pouco vulgar nas montras. Como se fosse feito à medida para ela, a mulher pequena que o namorava com um rosto fechado, rosada do frio, as mãos escondidas em luvas de pele preta e vermelha. Um casaco à sua medida, repetiu.
Há muito que não se importava com esses pensamentos circulares, pensamentos que, por vezes – muitas vezes – saltavam num sussurro como uma canção que se pode fingir dizer. As repetições até lhe traziam algum conforto. Há muito tempo, sozinha, parecia um bicho de conta enrolado. Depois, sem ter crescido, assumiu a sua pequenez com certo descaramento e fez questão de a sublinhar para que fosse óbvia e, por isso, calada pelos outros. Anos da adolescência a ouvir dizer que devia ter crescido mais, que comia pouco, que estava demasiado magra. Há quanto tempo? Decidira muito cedo que o silêncio se podia instalar mesmo antes do grito ou do comentário menos adequado. Passou a ouvir apenas o que queria. Agora, mulher feita, depois dos filhos, do casamento, da separação, da morte deste e daquele, decidira que todos os pormenores não são coleccionáveis. São e existem para esquecer. Voltou ao casaco.
Imaginou-o no seu corpo sem pensar no corpo. Apenas aquele abrigo bizarro ou extravagante, já ouvia a mãe a dizer na noite em que, por erro, levaria o casaco para a proteger do frio
Cristo! O que é isso que tu trazes vestido?
Um casaco, mãe, diria a mulher avançando pelo corredor, para o jantar, para a obrigatoriedade. Sim, o casaco no bengaleiro ficaria ali a perturbar tudo o resto e a mãe sentiria essa invasão mesmo que apressada nas coisas do jantar. O casaco tinha um certo poder. Parecia-lhe evidente.
A mulher reparou no suporte de metal onde o casaco se exibia com ousadia. Sim, o verde condizia com a prata e ela tinha aqueles sapatos com umas flores aplicadas. E um vestido… que importa o vestido? Pouco. O pêlo do casaco seria o único alvo e, não sendo muito desconfortável, excessivamente quente ou por ter um forro riscado, desses que arranha, então era a roupagem que se imponha a tudo. Nada podia competir com aquele verde. Verde quê? Fascinada com a cor colocou a mão no vidro, a querer tocá-lo, num gesto involuntário.
O silêncio da cidade, carros e pessoas, fim de tarde apressado no território desconhecido em tudo, da linguagem aos costumes, só existia na cabeça da mulher. Depois, perdendo este suspender de vida, um homem tocou-lhe no ombro. Sorriram. Ela voltou ao casaco.
Queres?
Encolheu os ombros. Querer? O verbo em si era tão pesado, pensou. Ficou calada. O homem dirigiu-se à porta da loja, na esquina da rua. Estava fechada. Pendurado na porta, um papel com dizeres em japonês exibia-se arrogante e eles riram da forma ridícula como tudo se passava. Não reconhecer o sítio onde se está pode ser perturbador. O homem pegou no braço da mulher e levou-a, rumo ao hotel. Ela ainda se voltou para ver o casaco uma última vez. Depois sorriu e ouviu o monólogo do homem ao seu lado.
O tempo passou. Muito tempo, pareceu-lhe, embora tivessem sido meses apenas. Era o seu aniversário. Não queria nada do que a esperava e, por isso, teimava em ficar na cama a ver as horas: sete da manhã, oito, nove, nove e quinze, nove e meia. Às nove e trinta e dois minutos saiu da cama. Evitou o espelho do aparador antigo e foi para a casa de banho. Precisava de uma hora para ser ela. Para se compor, para fabricar um qualquer envelope que lhe permitisse fazer o papel de quem pode ser uma estrela. Por um dia.
Ao meio dia em ponto desceu as escadas, recusando o elevador, como uma decisão súbita de quem não precisa de nada facilitado. Abriu a porta de ferro e entrou no carro do homem que a esperava com um ramo de jarros, as suas flores tristes. No restaurante estaria a família. O dia era apropriado. Um domingo de inferno, pensou a mulher.
Antes de entrarmos… tenho uma coisa para ti.
E uma caixa estranha, comprida, uma caixa repousando no banco de trás foi-lhe entregue com um sorriso ligeiro. O homem não era efusivo. E ela agradecia-lhe essa gentileza. Abriu a caixa e passou a mão pelo casaco verde, o casaco da montra, a impossibilidade japonesa. O homem concentrou-se no trânsito.
Foste a Tóquio por isto?
E outras coisas?
Não sei o que te diga.
Não digas nada. Foi feito para ti.
Preciso de dicionários de português, livros infantis, livros para colorir, para mandar para São Tomé. Quem quiser contribuir, por favor enviar para Avenida da república nr6, 9 Esquerdo, 1050-191 Lisboa, o transporte para as escolas em São Tomé está garantido. Eu sei que estamos em crise, mas há quem precise mais ainda.
Atenção, a quem quiser contribuir com donativos (não em dinheiro, mas em géneros) para escolas em São Tomé, preciso de informar que será feito por nós, ou seja, pelo Elvis e por mim, para garantir que não há questões políticas ou de intermediários. As coisas chegarão às escolas, isso prometo. Obrigada.
Tentei então explicar, à mesa, o que é esta ideia da classe média, fui lá atrás, até ao século XIX, ao industrialismo, ao que era novo burguês e vim por aí fora como uma professora de história. No fim, o miúdo disse: então agora já não vai existir classe média? nós somos da classe média não é? vivemos do que trabalhamos? Fiz que sim com a cabeça. E o outro, rápido, a dizer que estamos na Albânia. E o mais pequeno a querer saber onde é a Albânia. Desisti. Voltei ao livro nas mãos e depois vim aqui contar isto que não importará a muitos, mas que fez parte da minha vida de hoje. Vou ouvir uma música francesa que os afastará para qualquer jogo de futebol e depois a noite acaba e nem dei por isso.
A aldeia está vazia, a chuva vai e vem, os carros não passam, há cães que andam por aí e gatos que sabem onde encontrar comida. No café os homens lêem os jornais desportivos de há uns dias. Há bolo de bolacha. A lenha pesa horrores. Gosto do cheiro das pinhas. Pela milésima vez o miúdo vê os extra dos filmes do Senhor dos Anéis e eu já nem me importo. Gosto de ouvir o sotaque irlandês que o miúdo imita na perfeição. O cão não está ralado com o facto de Peter Jackson ter perdido muitos quilos (já o viram ultimamente?). Pouco importa. A dona Idalina explica-me que a operação às mãos não lhe serviu de muito, dói-lhe a perna esquerda, mas mesmo assim gere o pátio com papéis de letra desenhada, casa a, casa b, quem deve o quê. Havia uma aranha no quarto, mas o miúdo não a viu. Tem uma namorada mas não diz nada. Passeia o cão para falar com ela e isso comove-me. A discrição. Depois discute comigo sobre a vida em geral como se tivesse trinta anos e acaba numa risada qualquer, porque há sempre uma coisa que nos faz rir. Os telemóveis estão desligados. Ele não quer comer peixe. O irmão está com os amigos e não dá notícias. Não é a adolescência, é a aburrescência. Um dia passa. Até lá, teremos de ver como as coisas correm. O meu marido não está cá e eu tento não pensar nisso. Entro da papelaria e desisto de comprar jornais, não há uma notícia boa, uma única. Não me rala a bola de ouro do Cristiano Ronaldo, por isso nem os desportivos me animam. Leio nas gordas que a Câmara de Lisboa pensa em ter 4 dias de trabalho, para ver se poupa. Dei uma gargalhada interior (!) e não comprei nada. A senhora da papelaria não deve ter achado graça, mas é a vida. No Facebook bloqueei mais dois tipos, um por não entender metáforas, o outro por alinhar e eu pensei: olha que merda, mas eu conheço estes tipos? Fui ver. Um de Boston. Outro do Porto. Dizem eles que não se pode ler sem pensar, apenas porque disse que me ia desligar, não pensar, ler, ter um fim de semana descansado. E eles, muito espertos: é possível ler sem pensar? Se fossem à merda… foi o que pensei e estava já a escrever aqueles testemunhos a que chamo “educação social versão inútil para o século XXI” quando desisti. Ainda bem. Dar importância ao que tem importância. Liga uma amiga com um desgosto, a relação não está bem, ele amua, prega uma coisa, faz outra. Diz-me que é puto, que é da idade. Garanto-lhe que não, conheço muitos adultos que fazem o mesmo e que ainda por cima pregam alto e bom som que são tolerantes e cheios de amor para dar a terceiros. Cada vez tenho menos paciência para a sapiência dos iluminados teóricos. Gosto dos práticos. Comovo-me com o livro de José Luís Peixoto, um diário de dez anos de vida, textos soltos, textos da infância no Alentejo, sobre os filhos. Sim, é preciso pensar para ler, já sei. E vou pensando como ele dava a volta maior para não ser roubado e conseguir ir ao cinema ambulante, como tomava banho numa tina no pátio, como tinha medo da freira da catequese mas mentia pelos amigos. Adoro os nomes que enumera, os nomes do Alentejo. É preciso conhecer o Alentejo. Uma parte da minha família é alentejana, logo há ali, naquelas páginas, coisas que reconheço com enorme facilidade. Isso é bom.
Há bolos na caixa ali em cima. O Sol entra pelas janelas pequenas, janelas com cortinas de renda que a minha mãe fez. Podia ser outra coisa? Não. Assim é muito bom.
Making of capa Egoísta Juízo from Atelier 004 on Vimeo.
Nicolau Santos no Expresso desta semana.
Um manifesto de grande indignação!
Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V.Exa. dirá que está a fazer o que é preciso.
Eu direi que V.Exa. faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V.Exa. disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal.
Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013.
Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V.Exa. diz que as medidas são suas, mas o défice não.
É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há-de conduzir à redenção.
Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue.
O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar.
O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos — mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.
Mas V.Exa. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes directores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita que tão mal está a provar na Grécia terá excelentes resultados por aqui. Não terá. Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e dentro de dois anos dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.
Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes.
Nicolau Santos, Expresso, 15/10/2011