A merda dos preconceitos.


Patrícia Reis,
Vamos a isso? Vamos lá que estou de molho e irritada. Eu gosto de ler. Desde sempre. De ficção científica a ensaio, de romances a literatura dita experimental. Gosto de poesia. E não tenho nada contra quem quer que publique. Cada um escreve o que pode, cada um lê o que pode, cada um tem os preconceitos elitistas que quer. Eu não tenho, estou-me nas tintas para o desdém com que neste pobrezinho país se maldiz de A ou B. Diz-se mal de A porque tem mais visibilidade mediática, de B por ter um par de mamas, de C por excesso de uso dos advérbios de modo, de E por ter a mania de puxar pelos galões, de F por ter um guarda roupa de marca, de G por ter sido traduzido(a), de H por ter a mania que a literatura é uma arte maior e dizer frases muito profundas, de I por ter sido entrevistado(a) por J, de J por ter entrevistado I, de L por ter sido convidado(a) para um evento no estrangeiro, de M por ter um livro que vende (Cristo!), de N por ter um livro mesmo bom mas que não devia ser assim porque, afinal, N nem tem uma licenciatura em filosofia, de O, que também não tem uma licenciatura, mas tem uma pós graduação, por ser eficaz e promover-se com efeitos imediatos, de P por ser como é e dizer o que lhe apetece, de Q por parecer uma coisa que não é, de R por ser amigo(a) de Q e de outros mencionados anteriormente que têm a mania que fazem uma elite qualquer, de R que conheceu S e depois T e viu os seus livros numa prateleira com destaque, de U que foi à televisão convidado(a) por V que, claro, também tem um romance, de preferência histórico ou muito vanguardista, de X porque, enfim, já olharam bem para as suas crónicas?, de Z por estar em último e os últimos serem os primeiros e os primeiros são uma chatice. Há paciência? Há valores humanistas nisto? Não. Há presunção, mesquinhez, maldicência, uma quantidade de gente a pontificar sobre as letras todas, à frente ou nas costas. Respeito? Zero. O mais importante da vida são as pessoas, ensinaram-me em pequena, mesmo que tenham defeitos, os defeitos das suas qualidades. Os artistas, os criativos, os escritores, músicos, etc, não podem agradar a todos mas têm a ousadia e coragem de se exporem, logo haja um pouco de respeito, sim? Obrigada.

22 comentários em “A merda dos preconceitos.”

  1. Um texto exemplar. Que os elitistas maldizentes leiam este post duas ou três vezes e meditem que a sua cagança é merda…

    1. egos mexidos, Ana, egos mexidos e eu prefiro ovos e estou tão cansada de ouvir dizer mal, de ler críticas atrás de críticas, de ver e ouvir pessoas a fazerem e dizerem coisas que são contraditórias. Enfim, eu avisei, de molho e irritada:) beijos querida

    2. Não gosto nada que se diga coisas como esta: “Este país é um quintal de egos mal semeados”. e os outros países não o são também? Lidei profissionalmente, ao longo duma vida, com holandeses, ingleses e franceses, classe média ou média alta. Não vim encontrar em Portugal tanta maledicência e inveja como encontrei naqueles povos.

      1. Eu também não gosto nada de dizê-las, Rómulo, mas infelizmente é o que se passa aqui. Se os países que refere são iguais ou parecidos nesse aspecto, não sei. A realidade portuguesa é a que melhor conheço e é assim mesmo. Talvez porque somos um país muito pequeno e todos conhecem todos. Ou gostariam de conhecer.

  2. Protesto! 🙂 O preconceito é uma decisão económica muito sensata. Devemos ambicionar sempre ter o mais possível de pré conceitos para podermos usarmos o cérebro para as coisas mais incertas.
    É importante é que sejam correctos com grande probabilidade de se tornarem verdade.
    Por exemplo se cairmos aleijarmos-nos. Nem sempre acontece aleijarmos-nos ao cairmos mas é um preconceito aconselhável de ter.

  3. Simplesmente…..Patricia.
    Explêndido post.
    Todos sabem tudo.
    O pastor tem tanta sapiência, na sua ingenuidade, como o melhor advogado na sua malandrice.

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