Meus queridos delitos, todos vós e quem nos lê: desejo-vos um bom Natal e deixo-vos uma prenda que foi uma diversão que animou o meu ano. Aqui está um romance para download gratuito, escrito a meias com o Fernando Marques da Costa, um amigo de há muitos anos. Se quiserem oferecer a outros, é vosso. Beijos de Natal a todos.
Ter uma empresa é como ter uma segunda família, não virtual, avatar; uma família inteira com manias e tiques, bons e maus bocados. Quando a empresa é pequena, a segunda família transforma-se num caso amoroso. Queremos e não queremos. É uma liberdade e uma prisão. Como canta a Elis, são dois para lá, dois para cá. Se somos sócios gerentes somos os pais que tomam contam, que fazem contas, que verificam se está tudo em ordem e, por lei, não têm direito a fundo de desemprego. Somos ainda os que ouvem os clientes, não recebemos as respostas dos clientes no tempo certo e, se estas chegam com desajustes de comunicação, engolimos e avançamos. Não será o melhor do mundo, mas podia ser pior. Um atelier de design e contéudos com inúmeros prémios internacionais, com exposições feitas para a Presidência da República, para fora do país, com instalações complexas, com vertentes multimédia e até com lagos sem peixes (é mesmo verdade!) é um atelier abençoado por ser capaz de dar a volta a todos os contratempos. Porquê? Muito simples: por ter as pessoas que tem.
O melhor do mundo são as pessoas, já se sabe.
No atelier 004 são todos boas pessoas e não escrevo isto por ser Natal, antes por ser verdade. Temos clientes maravilhosos e temos alguns que já foram francamente mal educados e injustos. É a vidinha, certo? Olhando para as pessoas a trabalhar, os computadores piscando, as ideias de um ou de outro, tanto trabalho diferenciado, diria que sou uma privilegiada. Mesmo que não tenha subsídio de férias e que veja 2012 com os olhos pragmáticos de quem sabe que será difícil mas possível. Deixei de ver notícias e não posso mais com a senhora Merkel ou com a troika, com o PM ou a suposta oposição, a Maçonaria ou a Opus Dei. Digamos que já dei.
Há 23 anos que deixo pele e cabelo no que faço. Nunca escapei ao fisco e acho a ideia de uma agência para avaliar quem deve ir bugiar uma medida, no mínimo, risível. Quem tem empresas deve entender o meu sentimento. Quem tem filhos e precisa de os fazer crescer, fornecendo instrumentos de sobrevivência a cada um, compreenderá ainda melhor. Muitas vezes, as coisas são simples: são dois para lá, dois para cá. Outras vezes é apenas uma merda. Mesmo que seja Natal.
Duas senhoras de idade respeitável, ao meu lado, na bomba de gasolina, espreitavam as revistas cor de rosa e os jornais. Dizia uma:
– Não percebo nada destes títulos, dos juros, das dívidas, de quem vai pagar o quê?
– E o que é isto? Vai voltar o escudo?
– O que é que tu achas da senhora Merkel?
– O mesmo que ela acha de mim.
– Ou seja?
– Não me interessa.
Como enchi o depósito paguei quase 80 euros de gasóleo. O senhor pergunta se tenho cartão de pontos, abanei a cabeça. As duas senhoras tinham o dito cartão e queriam um catálogo das ofertas, por terem perdido um outro. Estão sismadas num secador de cabelo. Terei entendido bem? Não interessa.
O dia podia ter corrido de outra forma, mas acabou por se tornar uma espécie de maratona de obstáculos. Terminou com a notícia de uma menina que nasceu com 37 semanas, hérnia no diaframa, pouca maturação pulmonar, algumas questões cardíacas. Tudo mudou com esta notícia? Não. Foi um momento de surpresa e tristeza e depois de Fé e tentativa de compreensão. Ao mesmo tempo, sem saberem do mundo ou quererem saber, os miúdos isolam-se no computador e não entendem como perdem o tempo que não existe para ser perdido. Eu desisto. Hoje não posso nada. Há dias assim.
Os miúdos dormem tranquilos. O cão faz o mesmo. A manhã já se foi, mas não faz mal, é vê-la ir pela frecha da janela. Daqui a pouco teremos uma lareira e faremos o percurso da aldeia até ao café. Nada acontecerá que seja digno de nota. De forma disciplinada não verei televisão, notícias, não lerei jornais. Perguntarão: porquê? Por cansaço. Às vezes as respostas são muito simples. Até segunda.
Tatiana Salem Levy é uma jovem autora brasileira, nasceu em 1979. Li o primeiro romance – A chave de casa – e agora estou a terminar este: Dois Rios. É uma leitura sincopada, como uma música quase repetitiva (no melhor dos sentidos), com um ritmo muito bom e extremamente bem escrita. Relata o encontro de Joana com Marie-Ange, uma brasileira a viver com a mãe, uma francesa de visita ao Rio de Janeiro. Uma das raridades da literatura, diria, é conseguir encontrar uma voz que se possa distinguir das demais. Tatiana Salem Levy consegue isso com uma escrita singular, envolvendo-nos numa história de amor, de culpa, de alguma loucura, de segredos, encontros e desencontros. O livro não está ainda editado em Portugal, a edição brasileira é da responsabilidade da Record. Deixo-vos o video para que possam ouvir e ver a autora.
O segundo livro que estou a ler (sou incapaz de ler apenas um livro, desculpem lá) é a biografia de Lúcio Feteira escrita pelo jornalista da Visão Miguel Carvalho. O Miguel é meu amigo, logo seria injusto não ser honesta convosco: gosto muito dele, gosto muito do que escreve e sigo o blog dele todos os dias (A Devida Comédia) que aconselho vivamente. A história deste livro é a história da vida de um homem sobre quem temos ouvido falar a propósito de uma herança, de uma morte, de suspeitas e outras coisas. O que me importa a mim este livro, além de ter sido escrito por um amigo? O que me importa é este gosto especial que tenho pelas biografias, aprendemos muito a ler sobre a vida dos outros. A última biografia que li e recomendo, antes desta, foi a de Clarice Lispector por Benjamin Moser, um trabalho notável. Aqui, no caso de Lúcio Feteira, vamos percorrendo a história e a vida de um homem a quem chamaram louco, génio, visionário. Miguel Carvalho levanta várias questões e a forma como escreve e nos relata quem foi Lúcio Feteira é fruto de uma pesquisa e investigação séria e, claramente, exaustiva. Ainda não terminei, mas estou a gostar.