Após a semana de adaptação e nenhuma iniciativa registada, Camille começou a observá-lo. Estavam numa aula da professora que declarava orgulhosamente a sua avançada idade contrastante com o belo traseiro que envergava. Era de poucas palavras e aí Camille culpava o sono constante, mesmo que as profundas olheiras não lhe afectassem o sorriso vago. Além de não dormir, também pouco comia. Tudo isto a intrigava. Porquê? Qual a razão pela qual os lânguidos olhos se afogavam quando liam poemas de amor, porque virava a cara nos filmes românticos ou se debatia interiormente contra todo o idealismo passional da literatura?
Era baixinho para a idade, com umas pestanas enormes e uma sombra em cima dos lábios descuidados a que não se podia chamar bigode. Aparentemente, toda a moça com um palmo de cara tinha uma historiazinha com o ruivo. Inventada ou não. E qual o motivo para cada vez que o via na noite, ainda isolado, se embebedava com tanta violência?
Mergulhada na curiosidade, encostou a perna gaulesa ao muro junto ao rio e dividiram uma garrafa de algo barato. Ao fim de três goles, Camille já precisava de se encostar ao desejado ombro ossudo. Beijaram-se e da boca dele não mais se ouviu uma palavra para ela. O mito era verdadeiro, o cavalheiro de fogo nunca usava perfume.
Depois de ouvir um provençal raspanete quando chegou a casa, Camille pediu um desejo, caindo nos lençóis. “Quero ver o que ele pensa num dia”
O milagre realizou-se. Quando a expressão dele se contorceu ao ouvir os versos apaixonados de Garrett, torturado pela memória, afinal, a menina de Lyon descobriu.
Os cantos do sonho desfocaram e Camille viu uns caracóis despreocupados invés do estóico corte curto. Estava frio, pelos vistos. Tanto ele, quanto ela se encontravam agasalhados. O rapaz estava menos magro, aspecto saudável, a pele em torno dos olhos âmbar já não estava manchada pela tristeza e calçava uns sapatos de vela elegantes. Lanchavam numa esplanada e ele ia na terceira empada. Camille percebeu que se tinha esquecido de olhar para ela. Tinha um ar doce provocado pelas feições risonhas e sinceras. Estava frio, mas a felicidade dela iluminava-o e aquecia-os. Bebia leite com chocolate.
O punho do aluno contraiu e ela teve acesso a outra lembrança. Passeavam num jardim e conseguia ouvir um piano alegre. A entoação grave que a tal professora elogiava nas declamações outrora fora um tom livre e alegre. Camille quase que se sentiu mal por estar a vasculhar no passado dele.
– Onde nos casamos?
– Na igreja, claro.
– Já escolheste o nome para as crianças?
– Temos que saber quantas são primeiro!
– Duas. Estamos em crise e prefiro números pares.
– E a lua-de-mel?
– Não sei… se arranjares uma mistura entre campo, cidade e praia seria perfeito.
Ouviu-se uma moeda cair no chão da sala de aula. De imediato surgiu a imagem de um jantar e o tilintar de alguns euros para a gorjeta.
– Nem penses que vais pagar.
– Ai vou vou.
– Dividimos!
– Nope, uma senhora não toca na conta.
O dia acabou e o desejo também.
Todo o corredor gritava de excitação. A escola preparava a festa de início de ano. Camille correu atrás dele em direcção às escadas. As lentas passadas de ganga desciam a escadaria monótona. Os gémeos chineses carregavam em conjunto um balde de tinta para um painel gigante. A sorte quis que um dos Chan tropeçasse naquele degrau. O destino quis que a tampa estivesse mal selada. O apaixonado levou com tinta vermelha em cima e cegou. O instinto trocista foi breve e apenas Camille se encontrava ali para o ajudar. Ele não tremeu nem se moveu. Apenas disse:
– Não vejo. – E ergueu-se banhado pela cor do sangue
Ela insistiu em ir na ambulância e, enquanto percorriam o caminho até ao hospital, Camille suspeitou detectar uma esplanada familiar escondida atrás de um sobreiro.
Os químicos tinham-lhe danificado a retina e não via nada. Por persistência da mãe do rapaz, Camille fora convidada para o jantar dois dias depois.
Ele tinha um irmão mais novo. Totalmente o oposto dele. Engraçado e bem-disposto. Ele comia o miolo, o irmão a côdea. Ele preferia a gema, o irmão a clara. Ele bebia ice tea, o irmão coca-cola. Ele pediu bife de vaca, o irmão hamburger de frango.
A austera mãe loira, assustadoramente famosa como pivô televisiva, e o pai careca, comandante da TAP. O tal progenitor contou uma piada acerca de um serviço de natal em que dissera ao microfone no avião: “Oh Oh Oh, no Ladies and Gentleman, this is not Santa Claus, it´s just your captain speaking”. O rapaz escondeu a expressão de quem já ouvira a piada dez mil vezes.
Quando subiram para o quarto dele, Camille mirou a camada de pó assente no piano.
– Toca, Gabriel. Toca para mim. – Ele ajeitou os óculos escuros, pousou a bengala, ascendeu para o assento estofado e abriu o instrumento. Desesperado, começou à procura das notas, apalpando as teclas, mas não encontrava a melodia que procurava. Apenas via a cara dela.
– Tu sabes o meu segredo
Camille abraçou o rapaz ruivo e chorou também.