Verdi 111 anos


Patrícia Reis,

 

Amanhã chegam os 111 anos da morte deste compositor maravilhoso. Por favor, deixem-se de merdas e de queixas, larguem tudo e oiçam ópera. Para contrariar a onda, para mandar tudo para o raio que os parta, para ouvirem com prazer, sei lá, para terem uma vidinha. Digo eu com presunção admitida e sem me sentir em pecado:)

Bad bed


Patrícia Reis,

Havia uma clara expectativa acerca da nova aluna. O facto de ser francesa e da fotografia tipo passe apresentar um rosto límpido e loiro sob o nome Camille motivou o alarido adolescente. Numa mesquinha mesa faziam-se apostas sobre quanto tempo é que ele ia demorar a tê-la. Era o único que se mostrava indiferente à chegada gaulesa.

 

Após a semana de adaptação e nenhuma iniciativa registada, Camille começou a observá-lo. Estavam numa aula da professora que declarava orgulhosamente a sua avançada idade contrastante com o belo traseiro que envergava. Era de poucas palavras e aí Camille culpava o sono constante, mesmo que as profundas olheiras não lhe afectassem o sorriso vago. Além de não dormir, também pouco comia. Tudo isto a intrigava. Porquê? Qual a razão pela qual os lânguidos olhos se afogavam quando liam poemas de amor, porque virava a cara nos filmes românticos ou se debatia interiormente contra todo o idealismo passional da literatura?

Era baixinho para a idade, com umas pestanas enormes e uma sombra em cima dos lábios descuidados a que não se podia chamar bigode. Aparentemente, toda a moça com um palmo de cara tinha uma historiazinha com o ruivo. Inventada ou não. E qual o motivo para cada vez que o via na noite, ainda isolado, se embebedava com tanta violência?

 Mergulhada na curiosidade, encostou a perna gaulesa ao muro junto ao rio e dividiram uma garrafa de algo barato. Ao fim de três goles, Camille já precisava de se encostar ao desejado ombro ossudo. Beijaram-se e da boca dele não mais se ouviu uma palavra para ela. O mito era verdadeiro, o cavalheiro de fogo nunca usava perfume.

Depois de ouvir um provençal raspanete quando chegou a casa, Camille pediu um desejo, caindo nos lençóis. “Quero ver o que ele pensa num dia”

O milagre realizou-se. Quando a expressão dele se contorceu ao ouvir os versos apaixonados de Garrett, torturado pela memória, afinal, a menina de Lyon descobriu.

Os cantos do sonho desfocaram e Camille viu uns caracóis despreocupados invés do estóico corte curto. Estava frio, pelos vistos. Tanto ele, quanto ela se encontravam agasalhados. O rapaz estava menos magro, aspecto saudável,  a pele em torno dos olhos âmbar já não estava manchada pela tristeza e calçava uns sapatos de vela elegantes. Lanchavam numa esplanada e ele ia na terceira empada. Camille percebeu que se tinha esquecido de olhar para ela. Tinha um ar doce provocado pelas feições risonhas e sinceras. Estava frio, mas a felicidade dela iluminava-o e aquecia-os. Bebia leite com chocolate.

O punho do aluno contraiu e ela teve acesso a outra lembrança. Passeavam num jardim e conseguia ouvir um piano alegre. A entoação grave que a tal professora elogiava nas declamações outrora fora um tom livre e alegre. Camille quase que se sentiu mal por estar a vasculhar no passado dele.

 – Onde nos casamos?

 – Na igreja, claro.

 – Já escolheste o nome para as crianças?

 – Temos que saber quantas são primeiro!

 – Duas. Estamos em crise e prefiro números pares.

 – E a lua-de-mel?

 – Não sei… se arranjares uma mistura entre campo, cidade e praia seria perfeito.

Ouviu-se uma moeda cair no chão da sala de aula. De imediato surgiu a imagem de um jantar e o tilintar de alguns euros para a gorjeta.

 – Nem penses que vais pagar.

 – Ai vou vou.

 – Dividimos!

 – Nope, uma senhora não toca na conta.

O dia acabou e o desejo também.

Todo o corredor gritava de excitação. A escola preparava a festa de início de ano. Camille correu atrás dele em direcção às escadas. As lentas passadas de ganga desciam a escadaria monótona. Os gémeos chineses carregavam em conjunto um balde de tinta para um painel gigante. A sorte quis que um dos Chan tropeçasse naquele degrau. O destino quis que a tampa estivesse mal selada. O apaixonado levou com tinta vermelha em cima e cegou. O instinto trocista foi breve e apenas Camille se encontrava ali para o ajudar. Ele não tremeu nem se moveu. Apenas disse:

 – Não vejo. – E ergueu-se banhado pela cor do sangue

Ela insistiu em ir na ambulância e, enquanto percorriam o caminho até ao hospital, Camille suspeitou detectar uma esplanada familiar escondida atrás de um sobreiro.

Os químicos tinham-lhe danificado a retina e não via nada. Por persistência da mãe do rapaz, Camille fora convidada para o jantar dois dias depois.

Ele tinha um irmão mais novo. Totalmente o oposto dele. Engraçado e bem-disposto. Ele comia o miolo, o irmão a côdea. Ele preferia a gema, o irmão a clara. Ele bebia ice tea, o irmão coca-cola. Ele pediu bife de vaca, o irmão hamburger de frango.

A austera mãe loira, assustadoramente famosa como pivô televisiva, e o pai careca, comandante da TAP. O tal progenitor contou uma piada acerca de um serviço de natal em que dissera ao microfone no avião: “Oh Oh Oh, no Ladies and Gentleman, this is not Santa Claus, it´s just your captain speaking”. O rapaz escondeu a expressão de quem já ouvira a piada dez mil vezes.

Quando subiram para o quarto dele, Camille mirou a camada de pó assente no piano.

 – Toca, Gabriel. Toca para mim. – Ele ajeitou os óculos escuros, pousou a bengala, ascendeu para o assento estofado e abriu o instrumento. Desesperado, começou à procura das notas, apalpando as teclas, mas não encontrava a melodia que procurava. Apenas via a cara dela.

 – Tu sabes o meu segredo

Camille abraçou o rapaz ruivo e chorou também.

 

Poesia de Inês Fonseca Santos, livro a ler


Patrícia Reis,
As coisas livres

 

Havia várias formas de chamar-te.

Chamar-te não era apenas dizer o teu nome.

Muito menos fazer-te virar a cabeça na direcção da casa.

Era conhecer-te o rosto – dedicado, disponível, raro.

 

As coisas livres ficaram escritas no chão.

 

Inês Fonseca Santos, As Coisas, edição Abismo com ilustrações de João Fazenda

contas


Patrícia Reis,

O ordenado de Eduardo Catroga equivale a 7 anos de ordenado mínimo. O valor de mercado do senhor não sei, mas deduzo que o mesmo só possa ser avaliado se tiver um chorrilho de ofertas para trabalhar aqui e ali. Será o caso? Duvido muito.

maratona


Patrícia Reis,

Sherlock Holmes para aquecer, depois a Carnificina de Deus e, para terminar, A Toupeira. Seis horas de cinema. Três filmes completamente diferentes, todos bons, com actores de qualidade, bons diálogos, edição e montagem de se tirar o chapéu e bandas sonoras a condizer (confesso que a última, de Alberto Iglezias, é a minha preferida). O melhor de todos? Não faço ideia. Confesso que Polanski tem sempre qualquer coisa que os outros não têm (ou talvez seja o registo mais aproximado de uma dramaturgia, passada em NY, uma cidade onde não pode ir). No fim, quando o objecto da discussão, as duas crianças, brincam à roda de uma consola qualquer, quase que fiquei de lágrimas nos olhos. Tantas coisas que os filhos não sabem. Tanto que os pais não imaginam.

E o blog da semana!


Patrícia Reis,

Miguel Carvalho não é apenas um jornalista da revista Visão.

É autor de livros (o último sobre Lúcio Feteira e a dita da fortuna que envolve crime, sexo e Duarte Lima:)) e de um blog que sigo diariamente.

O endereço é www.adevidacomedia.wordpress.com.

Este sítio tem especial gosto em mudar de aspecto com alguma regularidade, como alguém que muda de roupa e, pelo Natal, há sempre neve a cair.

O blog é sobre? A vidinha. Das pesquisas gastronómicas à poesia, da comunidade de leitores que coordena ao jornalismo puro e duro, nacional ou internacional, o blog do Miguel é uma chão de coisas que, generosamente, partilha connosco.

Temos os momentos com o filho recém chegado.

A importância do gato na sua vida de casa.

As ementas mais recheadas, os lugares mais escondidos.

O amor pela fotografia, pelas boas entrevistas.

As histórias de família.

O Miguel é um bom jornalista por ser um bom ouvinte. É uma convicção minha.

Gosta de ouvir histórias, porventura desde criança.

É um homem do Porto.

Com sotaque e amigos em todos os cantos do país.

E é ainda, de forma convicta, um homem de esquerda, embora a opção não lhe tolde o pensamento se tiver de cortar aqui ou ali, chamar a atenção, satirizar ou apenas interrogar. Dizem que um romance é uma grande interrogação. Concordo.

O blog do Miguel Carvalho lê-se como um romance em directo da vida dele e a vida dele pertence, um pouco, à nossa, tanto nos medos quanto nas perguntas, nos gostos e paladares, nas memórias das músicas de outrora ou acabadas de descobrir.

De louvar será a enorme capacidade de festejar. Ao contrário de outros blogs, o adevidacomedia, não se coíbe de elogiar, de bradar aos céus uma alegria qualquer, de reconhecer o mérito de alguém. Num mundo de maledicência, diria que este blog é uma benção. Tem os seus momentos mais melancólicos e outros mais divertidos e, por isso, digo que é sobre a vidinha. O facto de eu gostar muito do Miguel conta para esta selecção? Conta imenso. É bom ler os amigos e saber que são bons profissionais, que pensam e sentem e não têm medo de se expor, que reconhecem dificuldades e outras coisas. Não é um blog político, não é um blog sobre jornalismo, moda ou tendências, é sobre a vida de uma pessoa. E a coisa mais importante da vida são as pessoas, certo? Certíssimo, diria o meu tio-avô, se ainda cá estivesse.

Simpatia dos Reis Magos


Patrícia Reis,

Descascar uma romã, escolher 3 bagos, trincar cada uma e dizer:

Gaspar, Melchior e Baltazar, valei-me desta semente para ter e para dar.

Colocam-se as 3 bagas numa nota de qualquer valor, dobra-se o mais possível e guarda-se na carteira. No ano seguinte repete-se.


O dinheiro não faltará:)

Até para o ano


Patrícia Reis,

A pedido de várias pessoas aqui deixo o endereço do site onde podem fazer download ou imprimir o livro A Nossa Separação.

É gratuito, foi escrito a meias com um grande amigo e foi, para nós, uma diversão. Não é, portanto, para deslumbres e, se porventura existirem almas que não têm paciência para certas leituras, daqui vos deixo um aceno de cabeça, como quem passa por alguém na rua, com o maior respeito. 

O endereço é www.anossaseparacao.com

Quem quiser tem alguns exemplares em algumas FNAC a 11 euros.

Nos próximos dias não terei rede, logo nada de FB ou algo assim. Quem tiver o meu número, está à vontade. Aproveito para desejar um 2012 maravilhoso, dê lá por onde der. Com imaginação, boa vontade e capacidade de rir, dizem-me. Pode ser.