Para todos (em especial para a Cristina que me mandou um Audi:))
Patrícia Reis,
O medo é instinto. O medo não é piegas, mesmo que o PM ache que possa ser, vem de dentro, instala-se e pode ser controlado, mas não ignorado. Vivemos a medo. Dias seguidos e a pretexto de coisas distintas. Medo de perder do emprego, dos filhos e dos maus caminhos ( por existirem maus caminhos), do frio e da fome, da falta e da solidão, da incompreensão, da rejeição, de não sermos aplaudidos por A ou B, medo da traição do corpo, de ser frontal ou politicamente incorrecto. O medo. Uma variante de vida? Não, para a maioria é uma forma de vida, de estar, de ser. Infelizmente.
Foi o que ele disse. Baixinho. Ela, obediente, cansada, ouviu. As lágrimas não as sentiu porque não se vêm, são lágrimas de dentro, pulsam no seu corpo e disfarçam tudo o resto, a dor chega devagar, como se fosse uma veia, central, a pulsar, a correr da cabeça aos pés. Ele diz que é do frio. Depois adormece com o livro em cima dos joelhos. Ele tem doze anos. Eu sou a mãe. Ele toma conta de mim.
Há uns anos, não me lembro quando, uma actriz que apresentou os Óscares disse, de início, que se tinha recusado a colocar todos os laços representativos de causas e doenças por não combinaram cromaticamente. A coisa não arrancou grande gargalhada.
Quem já viveu com um cancro de mama ou outro, quem acompanhou alguém, quem é casado com uma mulher com este tipo de diagnóstico, é filho ou filha, terá outra perspectiva. Infelizmente a palavra cancro assusta. Não a podemos suavizar com cor-de rosa ou algo assim.
Todas as doenças nos levam a um qualquer lugar onde pensamos que o mundo está ao avesso ou somos nós que nos vimos, de repente, de pernas para o ar.
POSSIBILIDADES
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.
Wislawa Szymborska, in “rosa do mundo” (assírio & alvim, 2001)
AS COISAS LENTAS
Fumo demasiado depressa
o meu cigarro apagado.
Os cigarros fumam-se lentamente
ao espelho fixando um único dos nossos rostos.
Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se
entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se,
observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole..
Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro
por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender
um cigarro. Na casa onde tu fumavas
cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava
os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície
do teu espelho, o teu vagar respondia-me
até ao esquecimento de nós.
Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes
que me chegue aos lábios.
Hoje, lançamento da biografia “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” e antestreia do documentário «Saudade Burra de Fernando Assis Pacheco». A entrada é livre. http://lisboa-livre.blogspot.com/2012/02/1-de-fevereiro-2012-lancamento-de-livro.html