Coração Inconstante


Patrícia Reis,

Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.

Paul Celan, in “Papoila e Memória”
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

Planetas


Patrícia Reis,

Dizem-me que os meus planetas estão alinhados de forma a provocar mudanças.

Talvez seja o país.

Dizem-me que as minhas oscilações serão maiores do que as do euro.

Enfim. Cada um tem o mapa da estradas que quer, ou merece.

Eu não receio a mudança. Não está no meu sangue não arriscar.

Sou impulsiva por natureza e cometo erros por falta de tranquilidade.

Pouco importa.

No final do dia, perante o vazio da adolescência – falar com um adolescente é o mesmo que dar banho a um peixe, posso garantir – percebo que os planetas têm boas intenções, mas a mudança não está para breve.

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Patrícia Reis,

 

Só há estas e são para mim. Lembro-me de repetir este anúncio, com o meu irmão, e de termos ficado indignados quando nos foi dito – pelos adultos, claro – que as mesmas tinham sido retiradas do mercado por fazerem mal. Uma coisa que o Pai Natal trazia fazia mal? Estava tudo louco. Na verdade, continua tudo louco.

Eduardo Lourenço


Patrícia Reis,

Já muito se escreveu e disse sobre a excelência de pensamento de Eduardo Lourenço. Não será esse o enfoque deste texto, acredito que existam pessoas que o possam fazer, no entanto o que me importa é realçar a sua extrema humanidade.
Porque gosto tanto dele? Gosto de o ouvir falar, pensar alto, da sua boa disposição.
É com alegria e respeito que o trato por “mestre”, como antigamente se fazia. E não sou a única, asseguro. Diz ele que muitas vezes não sabe o que dizer, pedem-lhe para pensar e escrever sobre tudo, esquecendo-se da idade a que já chegou. Respondo-lhe sempre que não tem idade e que precisamos muito de o ouvir. Um dia, terá desabafado algo deste calibre: “Caramba, eu até posso escrever sobre Fernando Pessoa, estudei para isso, mas sobre futebol? Ou sobre a Amália? Francamente, não sou uma máquina de debitar.”  Quem ouviu riu-se e concordou.
É fácil falar com Eduardo Lourenço e maravilhoso ver como os mais jovens ficam presos à história que, sabiamente, conta com alguns pormenores, mas sempre com a “cenoura” necessária para manter o interesse, para se deixar fixar por todos aqueles que o ouvem.
Leio Eduardo Lourenço há 23 anos. Sei a data exacta por ser a data da minha carteira profissional de jornalista. Quando me pediram para o entrevistar, tinha eu 19 anos, recusei. Disse ao meu director de jornal da época: “É areia a mais para a minha camioneta.” Mais tarde – muito mais tarde – contei este episódio ao mestre e ele exclamou, divertido: “Que pena! Eu não meto medo a ninguém e tão-pouco sou um camião, não há cá areia. Ideias… Às vezes.” Desta feita foi ele que se riu. E eu com ele.
Tenho por Eduardo Lourenço, como já se percebeu, não apenas admiração intelectual, mas uma ternura imensa. Gosto de ficar com as suas mãos nas minhas enquanto me conta qualquer episódio e considero um privilégio conhecê-lo, ter essa possibilidade de falar com alguém que, independentemente da idade, pensa sempre fora da caixa.

 

29-11-2011 (este texto foi publicado na revista das Correntes d’Escrita 2012, toda dedicada ao mestre)

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Patrícia Reis,

 

A Scotex teve um registo diferente para o nosso país, mas gosto de ver este homenzinho na sanita a levar um baile de um cão mínimo. Como todas as coisas pequenas, o cão é adorável. O homem nem por isso. Este anúncio parte de uma base tão simples que é realmente eficz: o que começa por ser divertido pode terminar num sarilho. Coisas que a vida – ou a publicidade – tecem.

a amizade


Patrícia Reis,

A vencedora dos óscares, Meryl Streep, disse que a amizade é o mais importante.

Eduardo Lourenço, nas correntes d’escrita, disse que a amizade é o mais importante.

Rubem Fonseca, hoje homenageado pela Câmara de Lisboa, disse que o mais importante é a amizade.

Quando era pequena, o meu tio-avô disse-me: se tiveres amigos tens uma casa e, assim, nunca estarás sozinha e desprotegida.

Bom conselho.

O interior


Patrícia Reis,

António José Seguro está preocupado com a “morte do interior”.

Não é uma metáfora, não é poesia.

É uma preocupação política num país onde o interior serve para ser esquecido, apelidado de deserto ou pior, hoje e sempre, um lugar onde deixamos os velhos.

A minha família, do lado materno, é do interior, do Baixo Alentejo, mesmo nas profundezas do mapa, quase perto da fronteira. Entalados numa realidade em que tudo se sabe – da loucura do vizinho aos primeiros passos do bebé da outra ali de cima – a cidade da minha mãe está a morrer há anos e nunca ninguém se ralou. Antes de estar pronta a barragem, alguém escreveu numa parede: constroam-me, porra.  Assim se fez e nada mudou. O progresso? Mais uma rotunda e temos progresso, apenas aí, no asfalto.

Ali, para aqueles lados, a morte está na fome, na escolaridade, no lar de idosos, um lar lotado de gente sem dinheiro para remédios, na escola isenta de sofisticação. São todos comunistas, diria outro alguém que eu conheço. É verdade, ou talvez seja verdade. Pouco importa. O partido é quem paga as festas da cidade? Talvez. Uma coisa é certa, António José Seguro, aliás como todos os políticos, não têm qualquer ideia do que é viver no interior, ter filhos no interior, mandá-los para a escola, vê-los crescer para o desemprego e ainda ver os velhos na rua sem destino, sem saberem como chegaram ali.

Não tenho qualquer vocação para a política, o meu coração está perto da boca, é uma deficiência de criança, sendo que, ainda por cima, saltei o período de aprendizagem da auto-censura (dizem que entre os 7 e os 11 anos de idade). Digo o que penso e não me importo com o que pensam de mim. Tenho pena que os políticos não digam o que pensam.

Tenho pena que a ideia de serviço público tenha desaparecido – sim, já sei, o romantismo em mim… – e que se digam estes clichés que não nos servem para nada. As ideologias já não são o que foram, o PC e o Bloco são partidos historicamente mortos (tal como o interior do país onde nunca se apostou) e o que nos resta são estes senhores de partidos que são… iguais? parecidos? semi vivos? semi mortos? Haja paciência? Não, para quem tem filhos, a paciência não chega, é preciso pagar contas e saber como serão os dias. É preciso esperança e carisma.

Um líder carismático? Alguém tem um no bolso? Um que não seja o Pedro ou o António? Não? Pois eu tenho: acabo de ler um ensaio assinado por Laborinho Lúcio, um homem que começou numa comarca no interior e que está agora em Coimbra. Quando terminei de ler, pensei: eu apostava neste homem. Se a justiça é presidida por homens vulgares que exercem um função invulgar, como escreveu em tempos Lídia Jorge, o mesmo se aplica à política. E não temos homens vulgares, temos políticos de profissão que não se ralam muito se a fome é combatida com uma água de limão quente e um pingo de leite. Isto acontece no interior e no litoral. Independentemente da desertificação do interior. A morte quando chega não é em intermitências. Vivemos em democracia há menos tempo do que vivemos nas garras de um regime. Também o interior morria então. Sabia-se menos, o mundo era mais fechado, a tecnologia não vingara ainda, não nos prendera a esta vertigem de todos os dias: estarmos ligados, ao telemóvel, ao blog, ao email.

No interior, na terra da minha mãe, a morte combate-se com uma palavra: reciprocidade. Cada um ajuda quem pode. Aqui? Aqui é cada um por si, dizem os miúdos.

E a esperança no olhar, a esperança que eu tinha, não se vislumbra. A morte do interior? Certo. Laborinho Lúcio deu-me qualquer coisa mais através do que escreveu. E, portanto, aqui estou eu, como toda a família no Alentejo, a dizer que se não desiste, que amanhã será melhor, que faremos melhor, falharemos menos. Por ser possível. Laborinho deu-me uma botija de oxigénio. Seguro não me dá nada.

Correntes d’Escrita


Patrícia Reis,

O escritor brasileiro Rubem Fonseca ganhou o Grande Prémio do Casino da Póvoa/Correntes d’Escrita, 13º edição, com o livro “Bufo e Spallanzani”, edição Sextante. Rubem Fonseca é, porventura, um dos últimos grandes escritores de uma geração de ouro de escritores brasileiros. 

Ganhou por unanimidade e agradeceu hoje, na cerimónia de abertura do evento literário, lendo um soneto de Camões. Acima de tudo, disse, ama a língua portuguesa, a pluridade da língua, a riqueza da sua geografia.

A revista das Correntes é inteiramente dedicada a Eduardo Lourenço e este, sem qualquer vaidade, sempre no seu timbre inteligente louvou a amizade. Em especial a amizade. Bem haja. Para a maioria – este evento tem mais de 50 participantes e dura até domingo – há este sentimento de união: estamos entre amigos.

Publicidade 1.


Patrícia Reis,

 

O meu amor por Miguel Guilherme começou aqui. Este anúncio, que sei de cor, pode animar algumas noites (para quem não bebe dá algum jeito) e ainda arrancar uns sorrisos. Quando apareceu, os actores não eram “pescados” para o universo publicitário. A mímica já era e, um texto e um actor juntos – em vez de imagens de electrodomésticos – assumia uma linguagem, uma variante que nos deixava pregados ao ecrã. Nessa altura, ainda via televisão. Esta série sobre publicidade, que começo hoje – espero que tenha a benção dos restantes – pode e deve ser enriquecida com contribuições dos nossos Delitos e seguidores, como acharem melhor. Eu comprometo-me a publicar todas as semanas um post sobre publicidade de outros tempos. Peço-vos apenas que não comecem a enumerar as marcas que já se foram:)

Helena


Patrícia Reis,

Há pessoas que têm o dobro do sangue dos outros.

Vivem de outra forma, têm algo que se vê e é, ao mesmo tempo, invisível.

No caso da Helena há o riso que tem um timbre típico, a dança das mãos, a inteligência de brincar consigo, com a sua idade, com o facto de não ser mãe dos filhos, mas os filhos serem filhos dela, de possuir uma história e uma alma que, aberta ao mundo, à mesa, para os amigos, é transparente. Há nela uma alegria digna de inveja e, hoje, disse

 

Quando eu morrer, não quero políticos no velório e quero fado.

 

E eu ri-me com ela e para ela. Eu que escrevo a ouvir fado e que me lembro de tantas coisas sábias que aprendi com Helena, a ler-lhe os blogues, os livros, os gestos, os sorrisos, os silêncios.

Não somos as melhores amigas, nada que se pareça (até porque me doem as cruzes e a Helena está inteira na vida sem esse tipo de dores), mas somos cúmplices em tanta coisa.

Há pessoas que têm o dobro do sangue dos outros. A Helena é uma delas. Bem hajas.

 

(Sim, as declarações de amizade são, como as cartas de amor, passíveis de serem lamechas e ridículas. Como diz o meu filho: azarinho)

Pensar?


Patrícia Reis,

Não sei em que pensar: em ir para casa como sugere um cardeal, no homem que foi condenado apenas a seis anos de prisão por exigir à mulher a participação em orgias sexuais apontando-lhe uma arma ou na questão da fertilidade e na Europa envelhecida.

Vou pensar em 19 pontos na cabeça. É mais fácil.