Coração Inconstante


Patrícia Reis,

Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.

Paul Celan, in “Papoila e Memória”
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

3 comentários em “Coração Inconstante”

  1. É difícil a poesia de Paul Celan. E as traduções, por melhor que sejam, como é o caso, alteram um pouco a “musicalidade” da língua original.
    Isto digo eu, que sei muito menos do que os seus belíssimos tradutores.

  2. Momento meio apoetado
    Dum pássaro amalucado
    Conhecido por viajeiro
    Pelo mundo caminheiro.

    Eram aquelas subtilíssimas emanações
    Que perfumavam o ar respirado pela mulher amada.
    Era aquele tépido vapor semelhante a um corpo
    cujos contornos uma alma apaixonada julga abraçar
    acariciar, beijar
    Hominalidade da imaginação,
    fada caprichosa,
    expoente máximo que se desprende da galáxia dos astros flutuantes
    para resplandecer em minha vida.
    Ah, a quente e doce boca que no seu ventre se perdia
    num beijo desvairado, molhado
    que lhe devorava a intimidade.
    Ah, aqueles olhos que com indizível expressão de meiguice
    sobre si se debruçavam
    e como neles se afogava.
    Ah, a voz ofegante que o desejo enrouquece,
    e que lhe dizia que ela era linda,
    que a amara loucamente quando a vira,
    que eternamente amaria,
    e nos seus olhos se perdera.

    E na quente noite Africana,
    silenciosa e calma,
    o Luar derramava prata.

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