Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.
Paul Celan, in “Papoila e Memória”
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

É difícil a poesia de Paul Celan. E as traduções, por melhor que sejam, como é o caso, alteram um pouco a “musicalidade” da língua original.
Isto digo eu, que sei muito menos do que os seus belíssimos tradutores.
E tens toda a razão. É muito difícil traduzir. Mas é um belo poema e hoje deu-me para aqui:) beijos e bom domingo querida
Momento meio apoetado
Dum pássaro amalucado
Conhecido por viajeiro
Pelo mundo caminheiro.
Eram aquelas subtilíssimas emanações
Que perfumavam o ar respirado pela mulher amada.
Era aquele tépido vapor semelhante a um corpo
cujos contornos uma alma apaixonada julga abraçar
acariciar, beijar
Hominalidade da imaginação,
fada caprichosa,
expoente máximo que se desprende da galáxia dos astros flutuantes
para resplandecer em minha vida.
Ah, a quente e doce boca que no seu ventre se perdia
num beijo desvairado, molhado
que lhe devorava a intimidade.
Ah, aqueles olhos que com indizível expressão de meiguice
sobre si se debruçavam
e como neles se afogava.
Ah, a voz ofegante que o desejo enrouquece,
e que lhe dizia que ela era linda,
que a amara loucamente quando a vira,
que eternamente amaria,
e nos seus olhos se perdera.
E na quente noite Africana,
silenciosa e calma,
o Luar derramava prata.