Lamber o chão dos palácios, dos castelos… do meu sonho
Patrícia Reis,
Tinha uma coisa para dizer e não disse. Não faz mal.
A Egoísta ganhou o prémio Ouro para cratividade e inovação na comunicação em papel com a edição dedicada ao tema Viagem e, para terminar em beleza, ganhou um dos 4 Grandes Prémios da Noite. Foi bonito. Obrigada à Estoril Sol por acreditar há 11 anos numa revista de curtas ficções e portfolios de artistas. Esta foi mais uma edição dos prémios da Meios e Publicidade.
1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS
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TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA
João Cosme, por princípio, não gostava de fazer nada sozinho. A ideia aterrorizava-o desde miúdo, é certo. Coisas da cegueira, sim, um psiquiatra tinha explicado e dado o aval à sensação. Ter esse temor – a solidão – certificado por um médico, dava-lhe um certo conforto. Lembrou-se, de repente, de Vivelinda. Ela saberia o que fazer, mesmo sendo analfabeta. Era ela ou a imagem dela que lhe surgia quando o chão parecia estar incerto.
Cosme suspeitava de muito, sabia, porventura, pouco, mas acreditava que Vivelinda tinha um poder qualquer. Encarou Eduardo com uma certa frieza. Uma frieza de cabeça. Sim, podia ir sozinho, não fazia mal.
Mas primeiro haveria de tratar dos desejos de Stella, aquelas pernas à sua espera, ele a tactear, cego de outra natureza.
– Ó Lord! João, João, não me vejas, mas toca-me, sim, aí mesmo, um pouco mais à esquerda. To the left, to the left.
Não olhando para a enorme cicatriz de Stella, ignorando essa pele enrugada, fruto de maus tratos ou má vida, Cosme não saberia dizer, aguardaria pelo momento do orgasmo – um ou dois, no caso dela. Sexo, puro e duro, no sossego da aldeia, sempre na esperança de que alguém possa ouvir e relatar, admitia interiormente, com um certo prazer. Isso, isso teria a sua graça. Sobretudo se o rumor chegasse aos ouvidos de Eduardo. Ele, um homossexual disfarçado. Lamentável, diria Vivelinda. O raio da mulher sempre presente, até nos pensamentos eróticos de João Cosme.
(Este é o sexto capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do Fernando Sousa.)
A poesia serve para… tudo, até para uma abadia. A versão portuguesa, que não encontro, levava-nos à Idade Média. Era igualmente bom, mas este anúncio tem o seu quê..
“O Teatro é um grande meio de civilização mas não prospera onde a não há.”
Garrett
Dia 27 de Março comemora-se o Dia Mundial do Teatro, iniciativa promovida anualmente pela UNESCO
As férias da Páscoa. Ainda não vi uma amêndoa e tão pouco um coelho de chocolate. Num passeio longo, o mais novo diz-me que não estamos de férias porque o meu telefone toca de cinco em cinco minutos, porque amanhã tenho uma reunião, e depois outra e na quarta e quinta a mesma coisa. Diz-me: Eu compreendo, sabes, é a crise.
Pois. Mais à frente, quando o silêncio podia durar o resto da caminhada, apesar do telemóvel, o miúdo volta à carga: Tu sabes que trabalhar tanto é capaz de te fazer mal?
Pois. Passo a mão pelo cabelo da criatura esperta.
E ele: Essa coisa de teres uma empresa não foi uma boa ideia.
Respondo: É uma ideia velha, tem 15 anos, agora não se desfaz assim com facilidade.
E ele: Mas era bom. Podíamos ter um café.
E começa a enumerar as vantagens de ter um café. Os bolos, as pastilhas, os refrigerantes, as conversas de café, uma mesa para jogos, um lareira, muitos livros e um espaço para jogos. Pois. Sorrio e concordo. Seria bom. Um café ideal.
E ele: mas tu nunca vais deixar o atelier, não é?
Não, respondo.
Sem me olhar, o miúdo já menos miúdo, encolhe os ombros e remata: Deixa, não se pode ter tudo, tens é de dormir melhor.
A pergunta era a de sempre: se estamos em crise, como é que vamos fazer?
Os miúdos não são parvos. Não se deixam enganar por anúncios ou coisas dessas.
Querem saber as razões das coisas e, para isso, precisam de respostas que não sejam, passo a expressão, da treta. Não vale a pena mentir.
Vivemos em democracia há menos tempo do que vivemos num regime totalitário. A democracia, sendo o melhor dos regimes como dizia o outro (que também foi jornalista e levou pancada, há muitos anos), é hoje um conceito altamente questionável. Quem nos governa são os mercados, não são os 200 mil que podem ser eleitos por estar integrados numa estrutura partidária ou os outros – poucos – que se dizem independentes mas que encaixam nas mesmas estruturas. Basta isto para que se perceba que a democracia é mesmo muito relativa. Adiante, para não meter na cabeça dos miúdos coisas que podem levar a mais perguntas, a ideia foi a de dizer que temos de fazer o melhor possível sem abdicar dos nossos sonhos, já que estão na idade para isso. E que ninguém sabe o que é o futuro, logo podem escolher a área que quiserem, o curso que entenderem, ou não. Ir para a universidade não é uma obrigação, não está na lei como um dever. Há outras possibilidades. Dirão que este é um discurso que as mães não devem ter. Quero lá saber. Sei que mais de 50 mil licenciados saem directos para o desemprego ou – pior – para um call center qualquer a ganhar o ordenado mínimo. Por isto e outras coisas, se um dos meus filhos quiser ser carpinteiro, pois faça o favor. Ou palhaço, ou canalizador ou outra coisa qualquer incluíndo limpa-chaminês ou limpa aquários. Nenhum disse uma palavra. Até ao momento em que o mais pequeno quis saber se eu ficaria triste se ele trouxer para casa, agora no fim do período lectivo, uma negativa a ginástica por não saber fazer o pino, a roda ou a cambalhota para a frente ou para trás com saída perfeita, sem mãos. Sorri. O outro disse: esquece isso, meu, nem no Governo ou na Troika há um tipo que saiba fazer isso e não lêem o que tu lês. Boa resposta? Belíssima. Venha a negativa que a malta fará dela uma medida de riso em vez de austeridade.
Alguns dados sobre os refugiados que estão atualmente no CPR:
– 20 crianças: uma de 1 mês, outra de 8 meses e 18 crianças dos 2 aos 17 anos
1 mulher grávida e 1 idosa.
– adultos, ambos os géneros: 105 pessoas
– necessidades, além dos referidos antes, também frescos, fruta e leguminosas, e cebolas, alhos, sal, açúcar, cenouras, óleo, manteiga.
Além de alimentos: produtos de higiene: sabonetes, pastas de dentes, champô.
Quem preferir, também pode fazer donativos em dinheiro: transferência para o NIB da conta bancária do CPR – 0019 0007 00200021478 20, indicando a referência “ALIMENTOS”. O recibo pode ser deduzido no IRS. Para o receber, remeter por e-mail (geral@cpr.pt) os seguintes dados: Nome da pessoa / Entidade / Empresa (se possível um contacto); Morada para onde deve ser enviado o recibo; Número de Contribuinte.
Para quem não sabe, é muito difícil obter o estatuto de refugiado e ter um visto de asilo em Portugal. Os poucos que cá estão (convém lembrar que todos os anos há 20 milhões de novas crianças refugiadas no mundo…) já viveram no inferno. São sobretudo idosos, mulheres grávidas e meninos e meninas pequenos, que chegaram cá fugidos das perseguições étnicas, das violações, das catanas ou das kalash dos senhores da guerra que aterrorizam tantas partes do nosso planeta, do Sudão ao Afeganistão. Há dois anos, a jornalista da Visão Patrícia Fonseca conheceu na Bobadela um miúdo afegão que tinha fugido dos talibã, que o pretendiam recrutar para a guerra. Tinha 13 anos quando, com um grupo de vizinhos, arriscou atravessar a pé as montanhas afegãs e paquistanesas, atravessando depois o Turquemenistão e o Uzbequistão, até chegar aos Balcãs. A maioria dos seus amigos morreu pelo caminho, de fome e de frio. Ele resistiu miraculosamente e depois foi apanhando boleias de camionistas, sempre a fugir, fugir, fugir… sonhava ir para o mais longe possível do horror que deixara para trás. Até que não conseguiu fugir mais: estava em Portugal, na outra ponta da Europa. É a gente como esta que agora o Centro de Acolhimento a Refugiados nem um prato quente de comida pode dar. Não é justo.
Qquem puder/quiser ajudar, façam o favor de ver o pedido urgente de ajuda e sigam para o centro da Bobadela para levar alguns alimentos e produtos de bebé. Obrigada!
Apelo urgente para recolha de alimentos
O Conselho Português para os Refugiados (CPR) apela aos portugueses para participarem numa campanha de recolha de alimentos e artigos de primeira necessidade visando fazer face à crise, sem precedentes, que atravessa.
Deste modo, pedimos que nos entreguem os seguintes alimentos:
• Salsichas (excepto de porco – tendo em conta que muitos muçulmanos não comem esta carne)
• Conservas e enlatados (atum, sardinhas, etc.)
• Arroz
• Batatas
• Massas
• Leite e produtos lácteos
• Vegetais
• Fruta
• Ovos
• Óleo
• Margarina
Outros artigos de primeira necessidade:
• Fraldas
• Leite para bebé
• Papas para bebé
No Centro de Acolhimento para Refugiados do CPR encontram-se, actualmente, a residir cerca de 92 pessoas, das quais algumas mulheres grávidas, muitas crianças e idosos.
O CPR, única Organização Não Governamental para o Desenvolvimento a trabalhar em Portugal exclusivamente com requerentes de asilo e refugiados, viu-se obrigado a suspender, desde o final da semana passada, todos os apoios de emergência à população refugiada por falta de verbas e aguarda resposta urgente do governo para prosseguir a sua missão.
Os refugiados não têm familiares nem outras redes de apoio em Portugal.
Os refugiados não podem regressar ao seu país de origem, pois correm risco de vida.
Entregas nas seguintes moradas:
Conselho Português para os Refugiados (SEDE)
Av. Vergílio Ferreira, Lt. 764, Lj.D
1950-339 Lisboa
(Ver mapa)
Tel: 21 831 43 72
(de 2ª a 6ª feira, das 9h30 às 18h00)
ou
Centro de Acolhimento para Refugiados (CAR)
Rua Senhora da Conceição
Bairro dos Telefones
2695-854 Bobadela LRS
(Ver mapa)
Tel: 21 994 34 31
(Todos os dias – mesmo fins de semana – das 9h30 às 19h00)
Para mais informações:
Mónica Frechaut: monica.frechaut@cpr.pt
Tel: 96. 381 16 09
Pessoa Pessoas – Miguel Guilherme from Elvis Veiguinha on Vimeo.
Há 4 anos, no âmbito dos 120 anos do nascimento do poeta, a Casa Fernando Pessoa produziu 30 filmes com 30 pessoas, todas a dizer Pessoa. Este é o meu preferido. Miguel Guilherme… uma fraqueza, portanto.
A versão portuguesa era melhor, mas o conceito é este. Funciona? Sim, é como a coisa da abadia. Não entenderam? Fica para a semana:)
Edson Athayde ganhou um prémio em Cannes com este nosso pastor. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades? Não sei, a verdade é que a telecel já se foi, temos a vodafone e outras tantas. Este anúncio leva-nos ao melhor de nós? Também não sei, mas é divertido.