Grande anúncio, homenagem às mães, totalmente omissão de marcas até ao genérico final. Música de Einaudi. Uma ideia que dignifica a vida dos atletas profissionais e da sua claque pessoal. Muito bom.
Grande anúncio, homenagem às mães, totalmente omissão de marcas até ao genérico final. Música de Einaudi. Uma ideia que dignifica a vida dos atletas profissionais e da sua claque pessoal. Muito bom.
Hoje é o dia da Liberdade. Dos cravos e das canções do Zeca Afonso e da voz de Paulo de Carvalho. Hoje é o dia que não pode ser esquecido porque, afinal, vivemos há menos tempo em democracia do que vivemos sem ela.
Liberdade tem vários sinónimos, um deles é reciprocidade, paridade, o ser para os outros na mesma medida em que são para nós. Não há gavetas e caixinhas. Liberdade são pessoas, rostos de todos os feitios e formatos, que podem conversar e sorrir.
Este dia é, todos os anos, um dia feliz. Hoje será um pouco menos porque uma mãe perdeu um filho e esse filho amava, tanto quanto a mãe, a liberdade ganha. Não está cá para a celebrar. Assim, quando for à feira do livro, logo à tarde (se São Pedro ajudar) levarei um cravo pela Helena, pelo Miguel e por todos os que não o podem trazer ao peito. Em sinal de que a memória não se apaga nunca.
i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that’s keeping the stars apart
i carry your heart (i carry it in my heart)
e.e.cummings
Tudo se resume à imagem da criança. Não é uma qualquer. Consegue descrevê-la, apenas para si, em silêncio. Será um bebé a dormir com as asas dos sonhos, com a calma do desconhecido, no conforto dos braços dela. E esta imagem, a criança de olhos fechados, ao colo, não tem sexo, é apenas um consolo, um prolongamento de vida. Sabe que não pode explicar nada disso, esses pensamentos que assaltam, que a invadem sem deixar espaço para qualquer outra coisa são, ao mesmo tempo, um inimigo. A mente enche-se com a ideia e a ideia impede-a de viver o resto. O resto a vidinha, as decisões, as maleitas.
A palavra doença deixa-a paralisada. Não está doente. Tem dores. Tem muitas dores e não se queixa, não chora, por isso não lhe podem dar esse rótulo de doente. Seria injusto. Ela consegue fazer imensas coisas e conseguiria ter um bebé ao colo, vê-lo dormir. Ou ela. Não importa. Mas não. É preciso sair da cama, trabalhar, ser razoável, responder com calma, ter ideias, ver as falhas que os outros não vêem, corrigir textos e textos, textos sem ligação de espécie alguma e passa do futebol para a alimentação, de um ensaio para um poema, de uma entrevista para uma crónica.
De uma forma concentrada consegue fazer sete coisas ao mesmo tempo, consegue pensar em nove, se incluir aquela em que conta os outros pensamentos. Poucos conseguirão fazer o mesmo, está convencida. Sabe que poucos se preocupam com as camadas de pensamento e que tudo isto é obsessivo. Precisa das duas mãos para colocar a mudança da marcha atrás, dá-lhe vontade de rir. As mãos só lhe obedecem em cima do teclado. Não têm força. São autónomas, são livres de dizer que não fazem, que não conseguem. Ossos. O problema são os ossos. Quantos ossos temos no nosso corpo? Mais de duzentos. Não tem importância. O irmão tem mais: quatro costelas bífidas detectadas quando era pequeno. Nada a fazer.
O médico disse: Faça natação e esse alto desaparece. Certo.
Ela? Pior, o médico começou por dizer que aos dezoito teria de ser operada. Usou botas ortopédicas, horríveis, azuis, feias, discriminatórias, más e feias, feias, feias. Usou talas para dormir. E nunca lhe perguntaram se estava bem, se queria outra coisa. Cumpriu. Aliás, cumprir é um verbo comum na sua existência.
O que sente agora é que não está pronta para seguir no mesmo trilho e vê, sente, que irá, rapidamente, ser desobediente. Não será como roubar um rebuçados da mala da tia avó ou algo assim. Não.
Será pior. Quando se é adulto tudo é pior. É suposto fazerem-se escolhas e não sair do tal trilho. Ela já não tem sapatos para percorrer este caminho. São duas da manhã, a mulher toma uma pastilha (gosta de dizer pastilha e esquecer a ideia de comprimido ou medicamento ou indutor de sono ou soporífero) e sonhará com ela. A criança no seu colo. Ela no colo que não se lembra de ter tido. O colo que tem agora de pessoas que só querem isso: dar-lhe colo. Então, a tal pastilha permitirá essa bondade e só isso é um consolo. Uma medida razoável de consolo.
Os anos 70 foram anos estranhos (nasci eu!), mas este anúncio deixava-nos colocados ao ecrã. O facto de ser feito desta forma, tão próxima de um universo infantil, é maravilhoso. E a voz off é mesmo uma assinatura de época.
O Diário do Micas é uma colecção que faz parte do Plano Nacional de Leitura, começou como uma brincadeira, uma prenda para o meu filho mais novo, e deu nisto: vários volumes passados em museus do país e com um grupo de malta amiga que não sendo os cinco ou os sete, são parecidos:) Seja como for, quem me conhece, sabe que digo que sou do belenenses, para que não me falem muito de futebol. Foi, também por isso, um desafio enorme escrever um livro sobre o museu do Benfica que vai abrir e, de repente, virar o bico ao prego e escrever sobre um sonho, a década de 60, o Eusébio, o Bom Gigante, a praga do treinador hungáro. E aqui têm uma ilustração do Pedro Alves, o nosso homem de serviço desde o primeiro volume, e estamos prontos para o próximo. Este já está nas bancas e, mais do que agradar a benfiquistas, pretende encher as medidas a miúdos de vários clubes e que querem torcer por Portugal. Ou seja, é um livro sem preconceitos ou tendências mais para aqui e para ali, porque, como dito, sou do belenenses. Bom fim de semana e boas leituras.
Jubileu? Chocolate dos anos 80. A única vez em que tive tentações… Não posso contar:)
“Watch your thoughts, for they become words. Watch your words, for they become actions. Watch your actions, for they become…habits. Watch your habits, for they become your character. And watch your character, for it becomes your destiny! What we think we become. My father always said that, and I think I am fine.”
Já se escreveram muitas páginas sobre cancro da mama.
Este livro é diferente.
Acabei de o ler e fiquei espantada com a forma como podemos aprender a lidar com este diagnóstico tão dramático, especialmente quando existem crianças envolvidas. Acho que esta fotografia não fará justiça ao livro, mas não deixem de o ler.
Escrito por duas psicólogas, não é um livro para quem está doente, é um livro centrado na família e isso – onde estamos, com quem estamos, quem é afectado pela nossa doença – é realmente importante.
Ninguém sabe, é como um segredo, sem o ser.
Na mala, a mulher traz os dentes da mãe. Os dentes postiços que o hospital não quis. A mãe olhou para o lado enquanto tirou os dentes e aquelas coisas que são os dentes dela, que servem para falar e comer, que são apenas dela, da sua privacidade, foram parar à mala da mulher. A mãe passou a ter outra cara, os ossos comeram-lhe a cara, os dentes esvaziaram-lhe a cara e ela odeia isso, a exposição, a ausência. A mulher, por ser filha, por ser mulher, sabe.
Agora, no café, se a mala cair, moedas, canetas, blocos, um livro, cairão também os dentes da mãe e talvez alguém se interrogue. Ou não. A mulher não sabe.
As horas passam, o telefone do hospital está sempre livre, toca, toca, toca e depois uma voz que não diz nada, não se passa nada, a mãe continua sem dentes, numa marquesa qualquer, sem pijama, vestida apenas com aquela coisa azul com atilhos do hospital, e os dentes dela dentro da mala a passear pela cidade. Sentido? Nenhum.
Senhor
Não me ajudes hoje
Não Te digo nada
Não apresento queixas
Amanhã saberás apagá-las e apaziguar-me
Com os outros
Comigo
Contigo
Senhor
Dá-me hoje apenas o teu colo
Sem perguntas nem certezas
Um colo apenas
Um ventre protegido das coisas que batalham
Em mim
De mim
Por mim
Senhor
No teu colo serei egoísta e centrada
Na minha dor de hoje
Amanhã, Senhor
O teu amor terá o poder apagar a dor
E voltarei ao meu caminho
Senhor
Hoje o teu colo
Apenas isso
Amanhã serei melhor
Tudo pode ser dito baixinho. Se pensares bem até os gestos têm um som e este pode ser baixinho.
A mãe nunca aprovara, mas agora pouco importa, nunca foi capaz de fazer nada baixinho, de dizer ou pensar e não seria, decerto, agora que iria começar nessa árdua tarefa de não perturbar o mundo, de ser como os demais.
As pessoas.
Dizia a mãe. E ela que sim. A mala da escola cheia de cadernos com poemas, frases.
Olha como andas vestida.
E ela a experimentar vestidos leves, soltos, de verão, com cor, a ser outra pessoa. A mãe a dizer que o irmão podia, ela era rapariga, era diferente.
Baixinho.
Não. Ela nunca fizera nada do que lhe tinham dito e isso, era agora óbvio, baralhava e perturbava a paz comum. Ou talvez não. Agora a família dependia dela e, não querendo reduzir nada, nem tirar o som a qualquer palavra, a mulher limitou-se a aceitar a tarefa sem deixar de dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, qualquer assunto. Mesmo que as pessoas. Ou que fosse mal visto. Mesmo não sendo homem. Vestindo todos os vestidos que bem entende. De preferência sem soutien. E a mãe a dizer
Não tens nenhum soutien lavado? Parece impossível.
Ou outro disparate qualquer já que “parece impossível” sempre lhe soou mal.
A música ajuda? É um facto. Mas é um anúncio que não nos deixa indiferente, que passou apenas nas salas de cinema, e que a malta mais jovem – o tal do target, como se diz na gíria – aderiu com facilidade. A música não é nossa (portuguesa, quero eu dizer), mas tudo o resto é:)