baixinho


Patrícia Reis,

Tudo pode ser dito baixinho. Se pensares bem até os gestos têm um som e este pode ser baixinho.

 

A mãe nunca aprovara, mas agora pouco importa, nunca foi capaz de fazer nada baixinho, de dizer ou pensar e não seria, decerto, agora que iria começar nessa árdua tarefa de não perturbar o mundo, de ser como os demais.

 

As pessoas.

 

Dizia a mãe. E ela que sim. A mala da escola cheia de cadernos com poemas, frases.

 

Olha como andas vestida.

 

E ela a experimentar vestidos leves, soltos, de verão, com cor, a ser outra pessoa. A mãe a dizer que o irmão podia, ela era rapariga, era diferente.

 

Baixinho.

 

Não. Ela nunca fizera nada do que lhe tinham dito e isso, era agora óbvio, baralhava e perturbava a paz comum. Ou talvez não. Agora a família dependia dela e, não querendo reduzir nada, nem tirar o som a qualquer palavra, a mulher limitou-se a aceitar a tarefa sem deixar de dizer exactamente o que pensava sobre o assunto, qualquer assunto. Mesmo que as pessoas. Ou que fosse mal visto. Mesmo não sendo homem. Vestindo todos os vestidos que bem entende. De preferência sem soutien. E a mãe a dizer

 

Não tens nenhum soutien lavado? Parece impossível.

 

Ou outro disparate qualquer já que “parece impossível” sempre lhe soou mal.

8 comentários em “baixinho”

  1. Muito bom, Patrícia. Os rapazes também não estavam (estão?) imunes às preocupações com as regras, o respeitinho e as aparências (ai, o que é que os outros vão pensar?) mas claro que para as raparigas era (é) muito pior.

    Já agora (não há como ter uma escritora à mão para fazer estas perguntas irritantes): o “eu” foi propositado ou escapou-te?

    Beijinho.

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