A explicação


Patrícia Reis,

A pergunta era a de sempre: se estamos em crise, como é que vamos fazer?

Os miúdos não são parvos. Não se deixam enganar por anúncios ou coisas dessas.

Querem saber as razões das coisas e, para isso, precisam de respostas que não sejam, passo a expressão, da treta. Não vale a pena mentir.

Vivemos em democracia há menos tempo do que vivemos num regime totalitário. A democracia, sendo o melhor dos regimes como dizia o outro (que também foi jornalista e levou pancada, há muitos anos), é hoje um conceito altamente questionável. Quem nos governa são os mercados, não são os 200 mil que podem ser eleitos por estar integrados numa estrutura partidária ou os outros – poucos – que se dizem independentes mas que encaixam nas mesmas estruturas. Basta isto para que se perceba que a democracia é mesmo muito relativa. Adiante, para não meter na cabeça dos miúdos coisas que podem levar a mais perguntas, a ideia foi a de dizer que temos de fazer o melhor possível sem abdicar dos nossos sonhos, já que estão na idade para isso. E que ninguém sabe o que é o futuro, logo podem escolher a área que quiserem, o curso que entenderem, ou não. Ir para a universidade não é uma obrigação, não está na lei como um dever. Há outras possibilidades. Dirão que este é um discurso que as mães não devem ter. Quero lá saber. Sei que mais de 50 mil licenciados saem directos para o desemprego ou – pior – para um call center qualquer a ganhar o ordenado mínimo. Por isto e outras coisas, se um dos meus filhos quiser ser carpinteiro, pois faça o favor. Ou palhaço, ou canalizador ou outra coisa qualquer incluíndo limpa-chaminês ou limpa aquários.  Nenhum disse uma palavra. Até ao momento em que o mais pequeno quis saber se eu ficaria triste se ele trouxer para casa, agora no fim do período lectivo, uma negativa a ginástica por não saber fazer o pino, a roda ou a cambalhota para a frente ou para trás com saída perfeita, sem mãos. Sorri. O outro disse: esquece isso, meu, nem no Governo ou na Troika há um tipo que saiba fazer isso e não lêem o que tu lês. Boa resposta? Belíssima. Venha a negativa que a malta fará dela uma medida de riso em vez de austeridade.

12 comentários em “A explicação”

  1. “Quem nos governa são os mercados…”

    A Democracia é que se endividou – mesmo aqueles que não o queriam- e é incapaz de pagar.
    Ninguém a não ser os Portugueses obrigou a Democracia Portuguesa a ter défice todos os anos.
    Por isso onde estamos foi o resultado de sermos um país democrata.

    Quanto ao resto bem. É preciso saber fazer coisas que as outras pessoas precisem. É ainda importante que saibam línguas.

  2. O facto de nos expressarmos em tentativas com vista a uma determinada coerência é já por si um bom exercício, mas como todos os exercícios, cada caso pode ser mais ou menos profundo, mas ou menos relevante, mais o menos intenso, desenvolvido ou conseguido.
    No aspecto de ser uma tentativa já merece valor mas no conteúdo não acrescenta nada de novo a maior parte das tentativas vistas diariamente:
    “democracia relativa”
    “somos governados pelos mercados”
    “estruturas”
    “não vale a pena mentir”

    são frases correctas mas ditas como salvadoras quando, na verdade, é o nosso pouco desenvolvido entendimento sobre o que nos rodeia que faz dessas frases uma raridade.

    “democracia relativa”
    (como se a democracia não fosse mesmo ‘relativa’. A democracia pode assumir imensas variantes, facto normalmente e totalmente desconhecido popularmente, facto que leva as pessoas a bater com a cabeça na parede constantemente, quer seja a cometer erros de cidadania quer seja a questionar-se sobre o porquê de determinada disfunção da sua sociedade)

    “somos governados pelos mercados”
    (mais uma vez não assumimos a nossa responsabilidade e tão ao nosso jeito colocamos as culpas nos outros numa atitude infantil, mas que nos dá toda a liberdade, mas apenas aquela da infância onde não precisamos de nos preocupar, que alguém mais responsável, conhecedor e poderoso fará as coisas mais complexas por nós. Nós somo governados por quem quisermos. Nós somos governados pelos mercados porque comprámos e compramos diariamente essa submissão. Está escrito! Existem contratos, em caso de dúvida: milhares de milhões são assinados, por todas as pessoas, empresas, governos, várias vezes, para todos os gostos. São desmesurados? SE sim, não culpabilizem os “mercados”, que na verdade não existem. Os mercados a existirem são a figuração do sistema de regras que as pessoas estabelecem e contratam entre si. muitas vezes não compreendem o impacto dessas regras e depois chamam-lhe “mercados” como se fosse um papão que viesse de fora atormentar as duas vidas.)

    “estruturas”
    (tudo são estruturas, menos as que não existem no nosso bom senso e capacidade crítica por falta de dimensão relevantes destes)

    “não vale a pena mentir”~
    mesmo que não se queira mentir, podemos não conseguir dizer verdades, se considerarmos que as verdades são absolutas.

    A primeira parte do comentário da Patrícia é bom porque abre a porta a questões importantes. Abre a porta… resta saber se alguém quer entrar ou sequer vê a porta aberta.

    A segunda parte, sobre a universidade, sim ou não, livre-escolha sobre ocupação e ofício dos filhos (de preferência com conhecimento crítico mínimo), e entendimento sobre a vida, se eu tivesse chapéu tirava-o em sinal de reconhecimento, profunda admiração, e espanto por tamanha sabedoria espelhada nas palavras que foram escritas.
    Na sequência disso, pergunto inevitável e impulsivamente: Patrícia, aceitas ser minha mãe?!
    Não faço esta pergunta a muita gente.
    Além do mais saliento que apesar da primeira parte me soar a mais do mesmo, confesso que vindo de uma mãe me deixou surpreendido pela positiva, considerando que, em princípio, mãe significa ter prioridades muito particulares em termos de emprego das suas disponibilidades em áreas bastante exigentes e diferentes da procura de novos mundos. As mães normalmente dedicam-se a cuidar deste.
    Estes comentários são por isso já muito bons. A segunda parte então, repito, são na minha opinião um corolário da melhor sabedoria.
    a minha reverência|

    1. Adopção quando der mais jeito! Sou completamente a favor da adopção. Peço apenas que o meu post seja entendimento, como explico aqui em baixo, como algo que pretende relatar um episódio e clichés para a malta nova podem ser clichés mas funcionam:) essa é que é essa. Não pretendia desculpa ou justificar nada de forma simplista, mas tão-pouco sou o Vasco Pulido Valente. Bom fim de semana!

  3. Ó Patrícia, olha que fazes muito mal em dar esses conselhos aos teus filhos… pinos, piruetas e cambalhotas são “skills” muito valorizados hoje em dia! Ler é que não serve para nada…
    🙂

  4. Obrigada pelos vossos comentários. A coisa dos pinos e cambalhotas prende-se com uma limitação física da criatura, não tem uma prótese, felizmente, mas tem limitações, a escola deveria reconhecer o facto, sobretudo tendo um atestado. De resto, adoro cambalhotas. Quanto às línguas e outras ferramentas, acredito que os rapazes cá da casa estão bem equipados. A democracia ser relativa ou os mercados mandarem em nós, como mandam em outros povos, é uma opinião minha e ninguém tem de concordar com ela. Não estou com isto a desculpabilizar ou justificar excesso de consumo, endividamento irrealista e outras coisas desta natureza. Era uma conversa com rapazes e depois um post que servia para relatar um episódio, não era um ensaio político sobre as minhas ideias sobre como chegámos aqui. Não me interessa fazer esse tipo de reflexões, tenho o maior respeito por quem as faz e já cá ando há tempo suficiente para saber que tenho a consciência tranquila: trabalho que nem uma louca, nunca escapei a um imposto que fosse na vida e tão pouco estacionei no lugar de deficientes:) dito isto, a geração dos 15/16 anos sente-se pressionada e eu quero é que os meus filhos sejam felizes. Não quero que pensem: ah, vou para higiene oral que dá dinheiro (como já ouvi). Acredito que as pessoas podem lutar pelos seus sonhos e também acredito que a democratização do acesso à universidade é de louvar mas não é para todos, criando muitas frustrações. Acresce que para mim a diferença entre ser-se rico ou pobre está na cultura geral e não no dinheiro, portanto venham os livros e outras coisas. Como fiz História talvez tenha uma leitura dos mercados, da economia, um pouco estranha, paciência, é a minha. Nunca deixei de votar, nunca deixei de participar, de fazer voluntariado e tenho asco às queixas. A minha porta está aberta a todos os miúdos que os meus filhos trazem, independentemente do credo, raça ou apelido (composto ou simples). E com esta me vou:) bom fim de semana a todos

  5. dive for dreams
    or a slogan may topple you
    (trees are their roots
    and wind is wind)

    trust your heart
    if the seas catch fire
    (and live by love
    though the stars walk backward)

    honour the past
    but welcome the future
    (and dance your death
    away at this wedding)

    never mind a world
    with its villains or heroes
    (for god likes girls
    and tomorrow and the earth)

    e.e.cummings

  6. Tudo dito (pelos outros…), fica essa ideia, meio amalucada, que é a do seu pimpolho poder levar com uma negativa por, justificadamente como disse, não ser capaz de “fazer o pino”, ou coisa semelhante. E sobre isso, acho eu, a Patrícia não se pode calar. Alguém, lá na escola, há-de entendê-la.
    Custa-me a aceitar que casos semelhantes ao seu sirvam para desmoralizar a miudagem, levando-a a preferir uma carreira de “palhaço” ou de “limpa aquários”, quando podiam pensar em ser, por exemplo, juízes justos, melhorando este tão importante sector da nossa sociedade, tão carecida de sangue novo, sem mácula.
    Diga ao seu rebento, p.f., que pode ser um bom engenheiro, um bom médico ou um bom advogado, ou um bom jornalista, profissões onde não terá necessidade de fazer “pinos”, parecendo-me até, conveniente, que seria bom que estes profissionais não soubessem dar cambalhotas…

    1. Caro Tiro ao Alvo, o meu rebento será aquilo que entender, no tempo dele e, preferencialmente, com sentido de justiça, humanismo e alegria. O que bem entender. Pode ser até um homem na lua. Na escola podem não entender as limitações físicas que tem, é uma luta que faço, é da minha responsabilidade, como é a de lhe dizer que não saber fazer o pino não é a “morte do artista”. Os exemplos, limpa-chaminés ou aquários, canalizador, carpinteiro são tão bons quanto juiz, médico, actor, jornalista, bibliotecário, antropólogo, médico, economista, professor. Ele será o que for. Não fiz programas de excel para a vida dos meus filhos. Conheço quem tenha feito e, depois, tenha dado, como diz o povo, com os burrinhos na água. Espero que eles se façam à vida e não espero que nada lhes seja facilitado. Espero da escola compreensão com aspectos físicos ou doenças, mas não espero compaixão, nada disso. Enfim, relatei um episódio, apenas isso. As famílias são todas disfuncionais, a minha não é excepção:) bom domingo

      1. Muito obrigado Patrícia, pela resposta que me deu.
        Penso que entendeu o sentido do meu comentário: que os seus filhos (e os filhos dos outros) sejam aquilo que desejarem ser, em razão das suas capacidades, sem terem que agradecer compaixões, antes sintam que foram julgados com espírito de justiça, embora com humanismo. Mas, tenha paciência, não aceito que um miúdo leve uma nega por não saber fazer o “pino”. Que apanha um simples satisfaz, aceito, mas uma negativa é que não. Se assim acontecesse, quem levaria nota negativa era a escola, se fosse eu quem mandasse nisso, claro…
        Bom domingo para si, também.

        1. Pois, concordo inteiramente, ando numa luta com a escola. A questão do pino ou da cambalhota num miúdo com um atestado do ortopedista que diz que ele NUNCA conseguirá juntar os pés é uma questão que me deixa louca. Há dois anos que ando nisto, se precisar de ajuda, caro Tiro, ainda o convoco para me ajudar:) uma boa semana

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