Já muito se escreveu e disse sobre a excelência de pensamento de Eduardo Lourenço. Não será esse o enfoque deste texto, acredito que existam pessoas que o possam fazer, no entanto o que me importa é realçar a sua extrema humanidade.
Porque gosto tanto dele? Gosto de o ouvir falar, pensar alto, da sua boa disposição.
É com alegria e respeito que o trato por “mestre”, como antigamente se fazia. E não sou a única, asseguro. Diz ele que muitas vezes não sabe o que dizer, pedem-lhe para pensar e escrever sobre tudo, esquecendo-se da idade a que já chegou. Respondo-lhe sempre que não tem idade e que precisamos muito de o ouvir. Um dia, terá desabafado algo deste calibre: “Caramba, eu até posso escrever sobre Fernando Pessoa, estudei para isso, mas sobre futebol? Ou sobre a Amália? Francamente, não sou uma máquina de debitar.” Quem ouviu riu-se e concordou.
É fácil falar com Eduardo Lourenço e maravilhoso ver como os mais jovens ficam presos à história que, sabiamente, conta com alguns pormenores, mas sempre com a “cenoura” necessária para manter o interesse, para se deixar fixar por todos aqueles que o ouvem.
Leio Eduardo Lourenço há 23 anos. Sei a data exacta por ser a data da minha carteira profissional de jornalista. Quando me pediram para o entrevistar, tinha eu 19 anos, recusei. Disse ao meu director de jornal da época: “É areia a mais para a minha camioneta.” Mais tarde – muito mais tarde – contei este episódio ao mestre e ele exclamou, divertido: “Que pena! Eu não meto medo a ninguém e tão-pouco sou um camião, não há cá areia. Ideias… Às vezes.” Desta feita foi ele que se riu. E eu com ele.
Tenho por Eduardo Lourenço, como já se percebeu, não apenas admiração intelectual, mas uma ternura imensa. Gosto de ficar com as suas mãos nas minhas enquanto me conta qualquer episódio e considero um privilégio conhecê-lo, ter essa possibilidade de falar com alguém que, independentemente da idade, pensa sempre fora da caixa.
29-11-2011 (este texto foi publicado na revista das Correntes d’Escrita 2012, toda dedicada ao mestre)

Tens muita razão, Patrícia. Tive uma vez uma reunião com ele no seu grande gabinete da Gulbenkian, e foi um prazer conversar com ele. Acreditas que quase me esqueci do que me levava ali? Fiquei a ouvi-lo, deliciada, a divagar sobre tudo e nada, como é próprio do pensador notável que ele é. E com uma simpatia e humildade que me impressionaram. É mais do que certo que ele já não se lembra de mim, mas eu nunca mais o esqueci. Aquela tarde foi muito especial.
Ele é maravilhoso, de facto. Tem uma lucidez que me espanta e uma humildade que me comove. Ontem, no lançamento do novo livro de poemas da Ana Luísa Amaral – Vozes (edição Dom Quixote) – foi extraordinário. Beijos
Saíu novo livro? Que bom. A ALA é uma das minhas poetas portuguesas de eleição (engraçado, só agora me dou conta de que ela tem a mesma sigla do António Lobo Antunes). Fico com pena de não ter ido ao lançamento.
e ontem comoveu a plateia na apresentação do livro da Ana Luísa Amaral «Vozes»
Belo texto Patrícia
A humildade tem tudo a ver com a grandeza. Belo texto, Patrícia.
Tens toda a razão, Ivone. Beijo