O interior


Patrícia Reis,

António José Seguro está preocupado com a “morte do interior”.

Não é uma metáfora, não é poesia.

É uma preocupação política num país onde o interior serve para ser esquecido, apelidado de deserto ou pior, hoje e sempre, um lugar onde deixamos os velhos.

A minha família, do lado materno, é do interior, do Baixo Alentejo, mesmo nas profundezas do mapa, quase perto da fronteira. Entalados numa realidade em que tudo se sabe – da loucura do vizinho aos primeiros passos do bebé da outra ali de cima – a cidade da minha mãe está a morrer há anos e nunca ninguém se ralou. Antes de estar pronta a barragem, alguém escreveu numa parede: constroam-me, porra.  Assim se fez e nada mudou. O progresso? Mais uma rotunda e temos progresso, apenas aí, no asfalto.

Ali, para aqueles lados, a morte está na fome, na escolaridade, no lar de idosos, um lar lotado de gente sem dinheiro para remédios, na escola isenta de sofisticação. São todos comunistas, diria outro alguém que eu conheço. É verdade, ou talvez seja verdade. Pouco importa. O partido é quem paga as festas da cidade? Talvez. Uma coisa é certa, António José Seguro, aliás como todos os políticos, não têm qualquer ideia do que é viver no interior, ter filhos no interior, mandá-los para a escola, vê-los crescer para o desemprego e ainda ver os velhos na rua sem destino, sem saberem como chegaram ali.

Não tenho qualquer vocação para a política, o meu coração está perto da boca, é uma deficiência de criança, sendo que, ainda por cima, saltei o período de aprendizagem da auto-censura (dizem que entre os 7 e os 11 anos de idade). Digo o que penso e não me importo com o que pensam de mim. Tenho pena que os políticos não digam o que pensam.

Tenho pena que a ideia de serviço público tenha desaparecido – sim, já sei, o romantismo em mim… – e que se digam estes clichés que não nos servem para nada. As ideologias já não são o que foram, o PC e o Bloco são partidos historicamente mortos (tal como o interior do país onde nunca se apostou) e o que nos resta são estes senhores de partidos que são… iguais? parecidos? semi vivos? semi mortos? Haja paciência? Não, para quem tem filhos, a paciência não chega, é preciso pagar contas e saber como serão os dias. É preciso esperança e carisma.

Um líder carismático? Alguém tem um no bolso? Um que não seja o Pedro ou o António? Não? Pois eu tenho: acabo de ler um ensaio assinado por Laborinho Lúcio, um homem que começou numa comarca no interior e que está agora em Coimbra. Quando terminei de ler, pensei: eu apostava neste homem. Se a justiça é presidida por homens vulgares que exercem um função invulgar, como escreveu em tempos Lídia Jorge, o mesmo se aplica à política. E não temos homens vulgares, temos políticos de profissão que não se ralam muito se a fome é combatida com uma água de limão quente e um pingo de leite. Isto acontece no interior e no litoral. Independentemente da desertificação do interior. A morte quando chega não é em intermitências. Vivemos em democracia há menos tempo do que vivemos nas garras de um regime. Também o interior morria então. Sabia-se menos, o mundo era mais fechado, a tecnologia não vingara ainda, não nos prendera a esta vertigem de todos os dias: estarmos ligados, ao telemóvel, ao blog, ao email.

No interior, na terra da minha mãe, a morte combate-se com uma palavra: reciprocidade. Cada um ajuda quem pode. Aqui? Aqui é cada um por si, dizem os miúdos.

E a esperança no olhar, a esperança que eu tinha, não se vislumbra. A morte do interior? Certo. Laborinho Lúcio deu-me qualquer coisa mais através do que escreveu. E, portanto, aqui estou eu, como toda a família no Alentejo, a dizer que se não desiste, que amanhã será melhor, que faremos melhor, falharemos menos. Por ser possível. Laborinho deu-me uma botija de oxigénio. Seguro não me dá nada.

16 comentários em “O interior”

  1. Não haverá “mezinhas” que salvem o interior. Nem, se calhar, o litoral. Mas o que me surpreende é a incapacidade dos decisores em percebem que o envelhecimento da população pode ser uma oportunidade. Lares, centros de dia e outras estruturas do género seriam um potencial factor de criação de emprego mas, no entanto, são raríssimas as câmaras municipais que apostam neste tipo de investimento. Preferem antes construir escolas. Mesmo que não existam crianças para as ocupar!

    1. A sério? Constroem-se lares e quem fica a cuidar dos velhos, se não há fixação de população jovem?

      Vamos imaginar que o senhor é jovem, tem namorada, pensa em construir a vida ao lado da sua companheira.
      Oferecem-lhe emprego no lar da 3ª idade, mas já sabe, escola para os seus filhos quando nascerem é que não há. Se quiser que eles aprendam a ler e a escrever tem de os mandar, sozinhos, para outra cidade, às 5 e 6 horas da madrugada, para só os voltar a ver já noite escura, e com a penas 6 anos de idade! E também não há centro de saúde com atendimento de urgência se eles tiverem uma otite durante a noite ou se caírem e tiverem suspeitas de um traumatismo, ou se vomitarem sem parar, ou se…

      Também tem de se deslocar para ir à segurança social, ou para ir ao tribunal, ou até ao centro de emprego, pedir que o transfiram para uma cidade maior, onde tenha todas as comodidades. Afinal, você não é de segunda categoria, quer os mesmos direitos que os cidadãos do litoral…

      E vejamos, tudo começa com a inexistência de escolas para as crianças que vão nascer e que poderiam repovoar o interior. Mas o senhor e pessoas assim tão iluminadas, preferem fechar escolas e abrir lares de 3ª idade. Fechem-se os velhos todos no interior à espera da morte!

      Que oportunidade, não sei como é que ninguém tinha aparecido ainda com esta ideia…

  2. Patricia,

    o problema do interior de Portugal está no exterior.
    A aposta em investimentos nas zonas urbanas junto à costa, a morte (muito) precoce de todo um tecido agrícola (trocado por uns fundos para as auto-estradas que ora estamos a pagar), e uma política pouco apelativa ao nosso interior a profissões importantes, fez deste rectângulo uma figura geométrica mui desequilibrada.
    Posso ara-lhe um exemplo que aconteceu comigo em Outubro passado. Estava em terras da Beira Baixa quando tive um problema num dos meus olhos. Era sábado e ao telefonar para o hospital distrital de Castelo Branco para saber se havia um oftalmologista tive a notícia que médicos dessa especialidade nesse dia só em Lisboa e ou Coimbra.
    Nestas zonas novos e velhos estão reféns de políticas mal concebidas e assinadas em cima do joelho (à boa moda portuguesa).
    Quanto ao professor Laborinho Lúcio (não li o ensaio) mas sempre me pareceu um nazareno muito inteligente, lúcido e de ideias muito bem delineadas. Um exemplo.

    1. José, sei muito bem o que é isso de uma emergência médica no interior e, ups, só em Lisboa ou no Porto. É muito triste. E tem razão, políticas houve e há que nunca favorecem o interior. Como nunca favorecem quem é mais velho. Hoje, vivemos um cenário ainda pior: não favorecem os mais novos, aqueles que se sentem pressionados para serem qualquer coisa sem saberem o quê e que andam assustados com tudo isto. Miúdos que perguntam como é que vão ter emprego e onde e se é melhor deixar o país. Enfim. Um dia de cada vez, como os toxicodependentes em recuperação, é o que me dizem:) um beijo e um bom domingo

      1. Eu, que já só penso na reforma (ainda falta!!!), quero ir para lá, para o interior onde sinto que é a minha “pátria”, quando chegar a altura. Tenho lá projectos em crescimento (que este tempo horrível não ajuda a medrar), tenho amigos, família, eu sei lá…
        Mas assusta-me saber que me dá um fanico a meio da noite e só ter “direito” à saúde se vier para Lisboa ou Coimbra.
        Curiosamente um amigo meu que vive no Restelo perdeu a mulher com um AVC faz algum tempo, e estava a meio quilómetro do São Francisco Xavier.
        A distância entre a vida e a morte por vezes é tão relativa…
        Ah. já agora, adoro Moura. O jardim é um espanto e o hotel tinha uns tectos lindíssimos. E quando lá fui a primeira vez apanhei a automotora em Beja e demorei um ror de horas a chegar. Bom fim de semana e obrigado pela partilha.

  3. Patrícia, como gostei deste teu post, eu que sou produto do casamento de uma alentejana e de um beirão.
    Ambos de paisagens duras e realidades duríssimas. Com a agravante de os alentejanos, à época, temerem os beirões, os ratinhos, que lhes roubavam as moçoilas ricas.

    Um dia – como vai longe! – pensei que terminaria os meus dias dividida entre uma terrinha de Beja e outra de Celorico.
    Em vez disso, estou aqui a olhar. Aqui, na capital, outros velhos reunidos num jardim público, outras crianças em creches ou nas amas porque os pais vão trabalhar, outra gente à espera na triagem dum hospital.
Tudo isto, toda esta pobreza envergonhada, faz hoje parte da paisagem da cidade mais importante do país.

    Laborinho Lúcio já foi ministro. Não pôde fazer muito.
Será que os políticos só sabem fazer discursos? Começo a pensar que sim. É que, como sabes, tenho profunda aversão à política…

    1. Cara Helena
      Aversão… aos poíticos. No fundo ainda sonhamos com com políticos que façam mais do que discursos. Richard Feynman (deixa lá ver como se escreve) explicou num dos seus livros, o que faria se tivesse “responsabilidades governativas”, Creio que em “Nem sempre a brincar Mr. Feynman”. As suas ideias são tão simples e directas que fariam com que nunca o pudesse ser (mesmo num país anglo-saxónico).
      Mas há um senão: se alguém quiser fazer “boa política” (servir e fazer boas acções governativas), tem de subir a pulso num antro adverso e depois combater adversos e adversidades permanentes. Para sobreviver, não tem tempo para fazer o que o tinha determinado. Complexo!
      Nota: Feynman também afirma que se algo é considerado complexo é porque ninguém o entende (ou não quer entender, esta adenda é minha).
      Abreijos.

      1. Caro José Menezes
        A minha aversão não é aos políticos, ou também é, mas antes à maneira como se faz “a política”. São os partidos, sem os quais, dizem, não pode haver democracia, que me causam aversão.
        E sim, é verdade, que quem quiser fazer boa política tem um caminho de espinhos a enfrentar.
        Há razões muito fortes para as mulheres terem tão pouca visibilidade nesse meio. E não são só razões de maternidade ou familiares. É que as mulheres têm muito pouca paciência para jogos de bastidores!

        1. Helena
          Aprendo consigo. Nunca acreditei nas pretensas faltas de oportunidades, muito mais hoje em que as mulheres são extremamente bem sucedidas nos diversas actividades. Sempre imaginei que seria falta de interesse em evidenciar-se (uma espécie de falta de testosterona). Só que isto falha quando as observo como directoras de departamentos universitários, directoras de produção na indústria, etc.
          No comentário que fiz à Patrícia, mais abaixo, falo precisamente nestes jogos. Assim, de repente, acho que tem toda a razão.
          Joguinhos infantis em que os protagonistas acreditam que são muito sérios (o problema é que envolvem coisas mesmo sérias). Acredito que joguinhos infantis não despertem interesse nas mulheres inteligentes. Tem razão! Não tinha pensado nisso.

  4. Eu sei, Helena, a minha aversão é semelhante à tua, mas a morte do interior é a morte da esperança e os discursos, mesmo que bons, podem levar-nos a pensar e depois? Fazemos ou não fazemos, à nossa medida. É o que digo aos miúdos. Beja, dizes tu? Moura é a terra da minha mãe. O jardim municipal foi desenhado pelo tio-avô em 1936, foi ele que guardou o melhor do mundo para me dar, já muito velhote é certo, mas com um sorriso espantoso. Sabes como eu sou: miúdos e gente velha, com história, com sorrisos e sabedoria. beijo-te querida

    1. Patrícia
      Desde que comecei a ler o post só Moura se encaixava na sua descrição. Moura é a minha terra. Na realidade nasci aqui ao lado, no concelho de Serpa, mas vivo aqui desde os 4 anos. Vivo na rua ao lado desse jardim, em frente à Biblioteca Municipal onde trabalho.
      Saí, como todos os adolescentes que o puderam fazer, para estudar. Não consegui deixar o Alentejo, escolhi Évora para os meus estudos superiores e é por lá que continuo a tentar melhorar um bocadinho mais. Regressei a Moura logo que pude. Na verdade, a minha condição de trabalhadora estudante fez com que nunca a deixasse. Trabalho aqui, para esta terra que agora é minha e dos meus filhos. Cada dia é uma nova oportunidade de fazer algo por esta terra, por estas pessoas que insistem, persistem, não desistem.
      Ficámos sem comboios, sem hospital, estamos a ficar sem postos de GNR, sem postos de saúde, sem postos de CTT. Estamos a ficar sem centro de saúde. Estamos a ficar sem gente.
      Na freguesia de Santo Amador, por exemplo, todos os anos se ameaça com o encerramento das escolas. As autarquias locais têm procurado incentivar a fixação da população e a personalidade própria da localidade tem atraído casais jovens que se fixaram ali. Os filhos começaram a chegar. Se conseguirmos resistir nos próximos 2 ou 3 anos, todas essas crianças que estão a nascer chegarão para manter a escola aberta. Mas a régua e esquadro das medidas delineadas em São Bento pode matar toda essa esperança. A aldeia está prestes a perder o seu estatuto de sede de freguesia. Faltam 2 ou 3 dezenas de pessoas para o limite mínimo. Se a freguesia deixar de existir, é mais provável que a escola feche. Se isso acontecer, 70% dos jovens casais que escolheram fixar a sua vida em Santo Amador mudarão de residência. Abandonarão a aldeia que um dia, inevitavelmente, morrerá.
      Um abraço alentejano. Cada vez gosto mais de a ler.

      1. Um grande abraço! Viver perto do jardim do meu tio é… nem sei dizer. Tenho umas fotografias da maqueta do jardim ainda em gesso:) Tudo é difícil, mas possível, não é? Não podemos desistir. Um beijo P

  5. Quando se estava a construir a ponte sobre o tejo em Alcântara, o povo da Messejana foi pedir a Salazar que fizesse também uma ponte lá na terra. Para que querem vocês a ponte se não têm lá um rio?
    ande V. Ex.a fazer a ponte, que o “rebero” fazemos nós.
    O que fazer primeiro no interior?

  6. Patrícia, “se Bragança é interior que raio será Salamanca?”

    Há quem afirme que o esvaziamento do interior português tem responsabilidades pós-1910 e, notoriamente, pós-1974. Sou monárquico mas admito não ter toda a certeza disto. Se calhar já vem de antes.
    O que eu noto é que uma consequência do absolutismo real (não é criticável, foi uma época), D. José I chamou à corte a fidalguia potencialmente perigosa, fazendo dela parasitas. Essa situação não parece ter mudado muito. Portugal não saíu (ou retomou) o parasitismo em Lisboa, em que os novos fidalgos (embora sem baton e sem cabeleira) se divertem com intrigas entre o Paço Real, o Frágil e outros pub’s que não sei o nome. É uma diversão apenas, mesmo que eles pensem tratarem-se de coisas sérias.

    Abraço

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