Cancro = Medo


Patrícia Reis,

Há uns anos, não me lembro quando, uma actriz que apresentou os Óscares disse, de início, que se tinha recusado a colocar todos os laços representativos de causas e doenças por não combinaram cromaticamente. A coisa não arrancou grande gargalhada.

Quem já viveu com um cancro de mama ou outro, quem acompanhou alguém, quem é casado com uma mulher com este tipo de diagnóstico, é filho ou filha, terá outra perspectiva. Infelizmente a palavra cancro assusta. Não a podemos suavizar com cor-de rosa ou algo assim.

Todas as doenças nos levam a um qualquer lugar onde pensamos que o mundo está ao avesso ou somos nós que nos vimos, de repente, de pernas para o ar.

11 comentários em “Cancro = Medo”

  1. Horrível palavra, ainda. E que testa os nossos limites da maneira mais amarga. Mas há uma coisa que pode suavizar, sim. E até inverter as sortes no jogo. É falar, extravasar, não calar perguntas. É reunir tropas fiéis, apoiar indefectivelmente. É proteger com laços. Não os da lapela, claro. Mas os do afecto, que tecem uma teia de imunidades ainda não determinada, tamanha é a variedade da sua expressão clínica… Muita coisa depende de nós, acredito.

    1. Veja lá que aqui há anos (2000) a minha supra-renal esquerda tomou-se de amores por um tipo chamado carcinoma e traiu assim o sua relação com o rim respectivo, que durava, naquela altura, há 45 anos !! Malvada !! Não fui de modas, citei o “bicho” de longe, com mando e temple devidos e ala !! estoqueado com arte !! Guardo a cicatriz dessa lide e cá me vou aguentando, calm and carrying on counting my blessings…

    2. Excelente, Laura!
      São os laços que nos seguram, é verdade. Esses laços, os afectos.
      O que seria de nós sem eles?
      Nem o doente nem a família conseguem viver sem eles.
      E quase não há uma família que não tenha uma história para contar.

      Muito bem este post, Patrícia!

  2. Patricia,

    já passei por essa experiência com alguém muito próximo que acabou por falecer nos meus braços.
    O problema não é a doença em si mas a forma como olhamos e lidamos com ela e acima de tudo como transforma as pessoas. Os doentes em primeira instância e a família e amigos de seguida.
    Todavia em Portugal as doenças do foro cardíaco matam mais que o cancro.
    Grande texto ou melhor enorme alerta…
    Obrigado Patrícia por nos lembrar que a vida também tem momentos menos felizes.

  3. Patrícia
    Há 11 anos perdi uma amiga com cancro da mama. Nos últimos meses, já desfigurada pela doença, tinha apenas uma frase perante as adversidades: Deixa lá, o sol hoje ainda nasceu, nasce todos os dias.
    No dia em que ela nos deixou não houve sol. Foi um dia envergonhado de Dezembro que a acompanhou ao cemitério.
    Desde aí, confesso, tenho algumas reticências em alinhar nas actividades, festas e símbolos associados à luta contra o cancro. Magoam-me. Na verdade, detesto tudo o que me faça pensar nisso por um instante só que seja. Sim, sou cobarde.
    No ano passado, subitamente, num minuto de um dia qualquer cheio de sol, em Junho, a palavra apareceu outra vez na minha vida, dita na mesma frase com o nome da minha mãe. Pela primeira vez na minha vida, vi-me confrontada com algo que não conseguia resolver, que não conseguia ultrapassar. Pela primeira vez senti-me impotente, insignificante, incapaz, inútil. Na primeira vez em que a minha mãe precisou de mim, duvidei ser capaz de a ajudar, de estar à altura e de ser capaz de a trazer de volta. Foram seis meses de inferno até àquele bloco operatório. Nunca esquecerei a viagem que fiz às tantas da noite, do Hospital de Évora até casa. O nevoeiro não deixava ver um palmo à frente dos nossos olhos. Mas eu sabia que estava lá. Pela primeira vez em meses, sabia que havia caminho para andar.
    Porque já passava da meia-noite, aconteceu exactamente no dia em que passavam 11 anos sobre a morte da minha amiga, sobre o dia em que o caminho dela terminou.
    Hoje a minha mãe está bem e eu também sobrevivi, mas continuo a detestar que me enviem frases filosóficas sobre o cancro e laços cor-de-rosa. Eu já estive lá. Eu já a vi de frente. Não perdoo essa doença.

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