Livro Agualusa, apresentação de ontem


Patrícia Reis,

A educação sentimental dos pássaros, contos sobre anjos, demónios e outras pessoas quase normais.
Já li e reli estes onze contos. Na minha opinião há uma ligação entre eles, ténue, como um fio invisível e quase divino. As personagens são de uma construção forte e nada próxima do banal. Não há banalidade na literatura de Agualusa.
Estes contos reflectem interrogações, efabulações e cenários onde ……se coloca e nos coloca de forma admirável. Dirão que um livro de contos não é um romance. É certo. Um conto é uma bênção e extremamente complexo de redigir e levar a bom porto. José Eduardo Agualusa podia ser um escritor de um fôlego imenso, focado nos romances, mas não é: as suas histórias, estes contos e outros são também uma parte significativa da sua obra. Revelam a sua força enquanto escritor, o seu trabalho de linguagem e preocupação na eficácia do que quer transmitir. Sei que escreve e reescreve e nunca fica satisfeito. Geralmente, digo-lhe que é bom sinal, porque se acha que consegue fazer melhor, que alegria para um leitor que o acompanha.
José Eduardo Agualusa não é apenas de um colega de editora, mas sim de um amigo. E um amigo é também um anjo que no salva, alguém que pode atiçar os nossos demónios e que certamente nos coloca no sítio certo se considerarmos uma potencial normalidade de comportamento. Somos todos múltiplos, como Pessoa cristalizou nos seus heterónimos, ele que também escreveu, no Livro do Desassossego, uma educação sentimental. Uma educação sentimental, essa, inspirada porventura em Flaubert. Não se podem comparar, são educações distintas e, para mais, esta é a educação sentimental dos pássaros. Seres frágeis que nos tomam nas suas asas e percorrem os sonhos.
Não é a primeira vez que oiço José Eduardo Agualusa dizer que um livro lhe chegou num sonho. Há anos que o oiço dizer isso. Personagens que o invadem, personagens da História da Humanidade, africana, americana, brasileira, portuguesa, personagens que trazem o seu cunho e uma certa ideia que não pode ser simplificada através do rótulo: realismo mágico.
Em Agualusa a dimensão do sonho e da magia é grande, reconheço, mas é igualmente verdade que mantém um pé na realidade que vive, no mundo que o rodeia. É um observador, um larápio da realidade, um curioso constante, capaz do riso e da compreensão como poucos.
Digo – talvez em demasia – que somos um povo que não é educado para festejar o sucesso do outro. O José Eduardo festeja. Tem orgulho nos amigos escritores, artistas, realizadores, escultores, qualquer alma que se lhe atravesse e cujo trabalho o toque, mexa com as suas ideias e fragilidades. Ao contrário da maioria, este autor busca anjos em todos e considera os demónios uma parte da condição humana. O resto? A normalidade? Para Agualusa a normalidade é um gesto diário que pode ser ou não coerente. Não somos as mesmas pessoas todos os dias.
O seu percurso literário está repleto de críticas, prémios, nomeações de alto louvor. Devo dizer que se festejo tudo isso, esse carinho do público ou da critica, o que me importa é o momento em que Agualusa partilha o seu original e pede uma opinião sem punhos de renda. E, nesse momento, os anjos param, os demónios desaparecem e a normalidade cinge-se a verificar como a escrita pode evoluir, salvar, modificar ou ficar debaixo da nossa pele. Como neste conto: o quarto anjo, da página 83 (comprem o livro e leiam, sff)

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