o buraco


Patrícia Reis,

Então foi assim, o tipo ia na rua, descansado, não viu o buraco e caiu. Começou aos berros

 

Socorro, socorro!

 

Passou um bombeiro que, preocupado, com ar cansado, desgastado, disse:

 

Acabei o meu turno, quando chegar a casa ligo para o ajudarem.

 

Passou um padre. Olhou para o buraco e para o seu ocupante, encolheu os ombros e atirou uma Bíblia, dizendo:

 

Não posso fazer mais por ti, meu filho.

 

A seguir, ouvindo uma voz que reconheceu, um amigo abeirou-se do buraco no asfalto.

 

Olá, o que estás a fazer aí?

 

Tira-me daqui, caí.

 

O amigo suspirou e atirou-se para o buraco. Uma vez lá em baixo, limpando as mãos cheias de terra às calças de ganga, o outro, o primeiro a cair, largou aos berros:

 

Estás maluco? Eu quero sair, não quero companhia.

 

O amigo sorriu.

 

Deixa-te estar. Calma. Eu já estive neste buraco e sei como se sai.

 

 

 

 

 

17 comentários em “o buraco”

  1. Patrícia, tens uma gralha… falta-te um acento em “caí”. Gravíssimo!! eheheheheh

    Mas olha, não emendes. Com isso podemos atrair o “a pau” até à beira do buraco, à procura de mais defeitos, e zás!, empurramos o nosso corrector ortográfico lá para dentro. Boa? Mas antes tiramos de lá o amigo que conhece a saída… 🙂

  2. Patrícia, acho incrível, és omnipresente? Não sabia que tinhas assistido à cena, ora esta ;)) Mas nem imaginas o que se aprende nos buracos (os heróis do Victor Hugo tb andaram pelos bas fonds de Paris e olha lá se não deram uma obra em 3 tomos…)

      1. Beijos para ti também, ó miúda!
        Agora vou apanhar ar, que este buraco é simpático assim cheio de amigos, mas lá fora faz sol e eu tenho de aproveitá-lo bem. Quem quer vir? (eu sou o amigo que conhece a saída, ehehe)

  3. Buracos há muitos… Uma “bica” a quem descobrir a diferença do nosso….

    ” Buraco, cova cavada, no cemitério, é jazigo;
    caçapa, se na sinuca, cacimba, se no sertão;
    Se for bem fundo no chão vira um poço de petróleo,
    que só sobe por pressão.
    Mas se for uma cisterna serve para matar a sede;
    Se muitos amarrados já são chamados de rede.
    Se na ponta do nariz nos ajudam a respirar,
    mas dos lados da cabeça servem também para escutar.
    Os dos olhos estão cegos, não nos deixam enxergar
    que os furos desta urbe não são apenas no chão:
    tem buraco na Saúde, buraco na Educação,
    buraco no carnaval, buraço na Exposição…
    Tem buraco nos salários dos que recebem tostões,
    Mas pra patota da Casa, o erário jorra milhões.
    Onde a Câmara a Justiça, o MP eo Povão?
    Processos engavetados na capital da Bahia
    Ao custo de muita grana que sai da nossa mesada.
    O buraco vai ficar maior que Serra Pelada.

    “Carlos Alberto Sampaio”

  4. Isto é uma espécie de alegoria, não é? Estou aqui há horas a olhar para o texto e ainda não consegui encaixar todas as personagens. Vejamos: o Sócrates abriu (ou, vá, afundou) o buraco; o tipo que cai primeiro pode ser imensa gente (quase todos os portugueses); também há várias hipóteses para os que passam indiferentes, de banqueiros a construtores civis, passando por um ex-governador do Banco de Portugal. O tipo que salta lá para dento, ok, podia ser o Passos Coelho, totalmente iludido quanto a saber como se sai – mas porque diria que já lá esteve?

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