até já aos livros


Patrícia Reis,

Qual é a diferença entre uma escritora e uma empresária? A diferença é abissal e tem contornos quase dolorosos para a pele do escritor. Perante uma crise, gerindo um atelier de design há 14 anos, no âmbito do qual se faz a Egoísta, decidi fechar a porta nas trombas da escritora e dizer: minha cara, vai agora para um canto que te agrade e deixa-me trabalhar. Por não ter outro remédio? Sim. E porque os livros, mesmo os que têm boas críticas, não vendem e ninguém vive dos livros. Somos escritores por condição e não por profissão. Há uma diferença muito grande e há quem não a queira ver. Há quem se coloque em bicos dos pés para apanhar um livrinho e dizer: olhem para mim, tenho um livro, sou escritor. Pois. Agustina Bessa-Luís diz que nada disto tem qualquer importância e que escritores e um livro só não valem. Urbano Tavares Rodrigues faz 60 anos de vida literária para o ano. Maria Teresa Horta nunca ganhou um prémio (ups, ganhou uma menção honrosa da revista Máxima, peço desculpa). Ao lado de jovens autores – ou ditos jovens autores – que levam um saco de estrelas para casa, surgem três pobres pontinhos luminosos para uma reedição de Flaubert. Há paciência? Nenhuma. Portanto, a parte da escritora ficou arrumada por uns tempos.

A parte da empresária é aquela que faz contas, que paga IVA antes de ter recebido a factura que já foi emitada há não sei quanto tempo, é que não escapa ao fisco, que atura clientes e ainda outras pessoas que querem pontificar sobre a justiça dos tempos. Faço textos, stands, sites, tenho ideias, ando e corro, corro e ando. A 004 é uma empresa com 14 anos, tem sete pessoas. Para nós, a crise começou em 2008. Há três anos que só sabemos conjugar tudo com esta palavra: crise. Nada de subsídios, redução de ordenados, cortar, cortar, cortar. Pergunto-me seremos nós demasiado estúpidos ou demasiado espertos por andarmos nisto há três anos? Agustina diz que a pesquisa dá menos trabalho que a imaginação e eu sonho com a reforma para apenas escrever. Odeio domingos. 

6 comentários em “até já aos livros”

  1. Bom testemunho 😉 – A diferença? A diferença é que um empresário pode falir ou triunfar. Precisa de instinto, de know-how e de alguma sorte (já que o ter muito trabalho não o diferencia).
    Quanto ao escritor, esse nunca vai à falência no que ao seu ‘core-business’ respeita.
    Concordo com o ódio aos domingos, principalmente quando são pardacentos 😉

  2. Aqui se apresenta mais uma odiadora de domingos. Será coisa da nossa condição feminina? Compreendo-te muito bem, Patrícia. Também já tive em tempos responsabilidades editoriais, mesmo não tendo directamente que ver com contas. Mas uma coisa te digo: a tua Egoísta é um “produto” artístico que vai muito para além do marketing. Não foges muito, mesmo como empresária, à “maldição” da criatividade…
    Quanto à antecipação da crise, só prova como a Egoísta é “muito à frente”!

    1. Ana, o problema é que a sobrevivência da empresa, neste caso o atelier 004 que mantenho há quase 15 anos, não se limita à Egoísta (que é trimestral). Se fosse só a Egoísta tudo estava salvaguardado, a criatividade, o gozo, a imaginação. O pior são os trabalhos que dependem, por exemplo, do Estado e que passo factura para os ver pagos sete meses depois. Ou seja, já depois de eu ter pago o IVA. E outras maleitas do género. Um dia conto tudo e faço um romance? Pode ser:) beijos

      1. Humm, isso é pior. Mas talvez a 004 seja uma dessas pequenas empresas que vai passar a pagar o IVA ao Estado só depois de tê-lo recebido. Sempre quero ver como isso funciona quando o cliente é o próprio Estado…
        Mas, por favor, não faças um romance com esse tema!
        Bjs

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