Estou-me nas tintas para o ensaio – aliás, brilhante – de Desmond Morris que defende que o futebol é uma actividade que advém do facto de termos deixado de ser nómadas para passarmos a ser sedentários, deixarmos a caça, para sermos agricultores.
A minha pergunta é muito simples: porque carga de água é que todos os dias os jornais desportivos fazem manchetes com futebol?
Quantas modalidades desportivas existem sem visibilidade?
E, já agora, em tempo de crise – com as dívidas ao fisco dos clubes a serem pagas em suaves prestações via totonegócio da Santa Casa da Misericórdia, aquele instituição que devia zelar pelas crianças e pelos mais velhos com necessidades – que empresas é que irão financiar os verdadeiros heróis que temos que são OS PARA-OLÍMPICOS?!
Esses trazem medalhas de ouro, prata e bronze e fazem da vida uma lição de vida.
Não se fala nisso, não é? É chato. É como falar da dívida pública, mais um zero, menos um zero, para quê maçar a malta? Dito isto, não sou fã de futebol e tão pouco da sua fauna. Tenho respeito e desapareço por 90 minutos com uma facilidade incrível. Não compreendo como se compram lugares cativos ou bilhetes a mais de cem euros. Não entendo a forma como se gere a paixão por um clube através de actos violentos. Não entendo o futebol e como este país ainda é gerido por três “F” – Futebol, Fado e FMI – acho que sou estrangeira.

“porque carga de água é que todos os dias os jornais desportivos fazem manchetes com futebol”
O nome Patrícia indicia que poderá ser mesmo estrangeira e provavelmente da Irlanda.
Lá também não apreciam muito futebol, vão mais pelo rugby e o gaelic football.
Tá a imaginar a excitação tuga com a Ryder Cup que a França nos ganhou como candidatura para irrigar uns campos em Alcácer do Sal – quando há tantos campos de golfe no Allgarve esse patronímico do inefável Manuel Pine que liderava essa candidatura tuga a prometer um retorno de 500ME para a malta.
Veja lá que nem disto os jornais económicos fizeram capa, nem com a derrota lusa, e queria você que os jornais desportivos falassem de economia?
Se procura medalhas lá foram olhe que hoje teve de ouro e de prata de uma assentada.
Ah, mas é estrangeira, não percebe. É de Lisboa, vizinha de Marrocos, não é?…
Quanto a “actos violentos”, é só na zona de venda de couratos. Quando mete tripas e bacalhau à Braga nunca dá problemas, a convivência é na boa.
Mais um(a) “intelectual” danada contra a bola. Serve-lhe o “melão” do râguebi?
Está tudo muito razoável (e mesmo bem, em certa medida) até ao último parágrafo.
Eu também nunca fui doente da bola e não percebo muitas coisas que se passam nesse mundo, mas respeito os que pensam o contrário desde que o respectivo comportamento se enquadre nos padrões de sã normalidade.
Tratando-se de uma senhora, sugiro-lhe, portanto, que mantenha elevado o seu padrão habitual.
O Zé Luís acha que tem graça e ainda bem porque a sua auto-estima está em alta, fico satisfeita com isso. Os seus comentários a mim são-me indiferentes e não percebeu o que quis dizer ou quis perceber. Não sou estrangeira, sou de Lisboa e não sou de coratos, mas espero que lhe tenha sabido muito bem fazer logo dois comentários tão bem dispostos e gentis.É como eu gosto, homens cheios de sabedoria. Tenha um dia, sim?
O que queria dizer era: tenho um bom dia. Escapou-me o bom, peço desculpa.
Viva, Patícia. Bem-vinda ao DO. É possível que esse distanciamento que sentes relativamente ao futebol resulte de não teres tido a oportunidade de assistir a um jogo com a participação de uma equipa orientada por Carlos Queirós e comentada pelo saudosdo Gabriel Alves. Ou a uma conferência de imprensa de Manuel Machado. Tivesses tido essa felicidade e perceberias de imediato o que tens andado a perder.
* tenho a impressão que não acertei as concordâncias todas no comentário anterior. Mas, também isso é futebol.
🙂
Rui, por acaso tive até o privilégio de assistir a um relato de Artur Agostinho, mas a minha questão não é o futebol, as pessoas gostam do que gostam, não é? E tudo bem, até digo que desapareço 90 minutos e há logo um senhor que me desanca e insulta chamando-me estrangeira. A questão é a visibilidade das outras modalidade, a falta de apoios para os para-olímpicos que são maravilhosos e que nós não acarinhamos. Se me fiz entender mal, peço desculpa. Como disse, sou estrangeira e o outro senhor confirmou:) fazer o quê? A cultura também não tem o espaço que deveria, pois não? Bj Rui
De todo, fizeste-te entender loud & clear. E tens toda a razão.
Genericamente concordo consigo, Patrícia. Mas sshhhh, don’t tell – or they’d banish us, you know…
Não tenho de meter-me, meu caro, mas confirmo só para que conste: cá em casa tratamo-nos todos do modo mais familiar, desde o dia um do DO. Afinal, somos uma família, não é verdade?
João: há alguma diferença entre o modo como os elementos de uma família ‘bem’ da linha de Cascais e de uma família, digamos ‘popular’, de um dos bairros típicos aqui do Porto se tratam. Pelo menos abertamente. 🙂
Mas ok, eu vou tentar. Fico sempre um bocadinho formal junto de pessoas com livros publicados. Especialmente quando são livros sem figuras.
Fazemos os possíveis por estender alguns hábitos portuenses à linha. Eheh…
Oh, Patrícia, essa é a minha batalha de sempre… nada a fazer, só o futebol tem visibilidade neste país: abre telejornais, faz capas de jornais e revistas (até das cor-de-rosa, imagine-se), move milhões e dá direito a lutas homéricas e reconciliações antológicas. Não tenho nada contra isso tudo, são descargas de adrenalina muito úteis nos tempos que correm… mas o que não entendo é como nenhum outro desporto – mesmo com resultados honrosos – merece um raio de uma noticiazinha de rodapé em parte nenhuma! Quanto aos Para-Olímpicos, que tanto deviam honrar-nos, estamos conversados. Os atletas não usam diamante na orelha nem cabelo em pé, não são protagonistas de escandaleiras e adultérios e em vez de ferraris deslocam-se em cadeiras de rodas… ninguém gosta disso, esquece. É o mundo que temos. Pouco edificante, sem dúvida.
Já esqueci, querida Ana.