O livro


Patrícia Reis,

O livro, este ou outro, pouco importa, é um parto com urgência, sem epidural, sempre sofrido e ansioso. Quem disser o contrário, mente. Publicar é, porventura, um dos actos de maior exposição e risco que conheço. Podemos levar pancada de muitos lados e a mesma quantidade de mimos e elogios. Há um lado de vaidade na publicação. Sempre que deitamos um livro para o mercado somos alguém com uma bandeira que afirma que temos algo para dizer.

A vida talvez seja só três dias, como o Carnaval. Nunca tive pressa de publicar e sempre escrevi. Desde que tenho memória. Tudo começou com uma máquina de escrever rudimentar e há umas fotografias a preto e branco que mostram que aos sete anos já escrevia na mesma posição. Têm alguma graça, embora sejam tristes. A tristeza faz parte da escrita, da minha. Não o afirmo com um sentido trágico, apenas pragmático. O que virá a seguir pode ser outra coisa. 

Hoje recebi a capa finalizada do livro novo e pensei: Não sei se tenho coragem. Imediatamente depois deste pensamento bizarro, tive um ataque de riso. Afinal, é só um livro, mais um filho. E os filhos, como se sabe, são do mundo, um empréstimo a curto prazo. Neste caso, dois anos depois de ter começado a escrever, é tempo de deixar a criança ir. E, em Março, aí estará. Para que a cabeça não comece a fazer demasiadas perguntas comecei a escrever outra coisa. Acho que será sempre assim. Tudo se desfaz, mas os gestos são os mesmos.

8 comentários em “O livro”

    1. Sim, uma salvação. Este posso dizer: terminei depois de uma troca de emails contigo sobre os filhos. E nunca me esqueço da tua frase: sou solidária com os meus filhos até na asneira.
      Este livro nasce disso, de tentar perceber como nascem de nós e, depois, parece que crescem contra nós. É uma fase, dirás. Seja como for, é ficção e nada autobiográfico. É um road book em vez de road movie. A ver, como diz o outro. Beijos querida

  1. Não sei se escrever é um acto de coragem, de vaidade ou apenas e só uma necessidade. Ou um pouco de tudo isso, ou tudo isso e mais uma data de coisas. Pouco importa. Quem escreve não tem a opção de parar de escrever, quer publique ou não. É um parto, como dizes, e um parto tem de ir até ao fim, por mais sofrido que seja. Parabéns por mais um livro, Pat. Que venha cheio de saúde e que saia à mãe na coragem… 🙂
    Bjs

  2. Um dia alguém disse que escrever era um acto de profunda solidão.
    Aceito em parte esta máxima. Escrever é um gesto de muita solidão até que…
    …alguém nos lê! Nesse instante o isolamento esvai-se como água por entre os dedos.
    Vou estar atento no próximo mês de Março. Até lá coragem!

  3. Aproveito o seu post, não para o comentar, mas para lhe pedir ajuda sobre a nossa língua.
    Tenho um amigo Norueguês, que está a aprender Português e frequentemente coloca-me questões às quais, normalmente, não sei responder. A última foi sobre como usar o verbo ser/estar. A Prof explicou-lhe que “ser” é definitivo e “estar” é transitório.
    Ele dizia “hj é bom tempo” ..” F é morta” e a Prof emendava para “está”…Perguntou porquê, e ela disse-lhe que o tempo “transita”, e até a morte, na cultura judaico/cristã, é uma transição (para outra vida). Aceitou…Tudo bem!
    Hj perguntou-me, pq não se diz “o Passos Coelho ESTÁ 1º ministro” e sim É…(se é transitório). A Prof dele pelos não soube responder e eu tb não. Pode ajudar-me? Obrigado e desculpe. Um abraço

    1. Bom dia, não sou professora de português ou linguista, no entanto o PM está primeiro ministro por ser transitório, não o é para o resto da vida, assim como o dia está bonito e o Carlos está um rapaz bonito (que pode transformar-se rapidamente num monstro). Diria que a questão é esta. No entanto, para melhores dicas consultem na net uma coisa que se chama ciberdúvidas. Bom fim de semana (e o português é tão difiícil!)

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