A nossa Ivone, diz o Facebook, faz hoje anos. Um dia auspicioso para muitos e para ela certamente, que o merece. Os meus parabéns com os beijos e abraços devidos:)
Parabéns Ivone
Patrícia Reis,
A nossa Ivone, diz o Facebook, faz hoje anos. Um dia auspicioso para muitos e para ela certamente, que o merece. Os meus parabéns com os beijos e abraços devidos:)
eu perco, tu perdes, nós perdemos?
Miguel Relvas, leio eu, diz que quem está no Governo tem de estar preparado para sair no dia seguinte.
Acho bem. Ficam-lhe bem sentimentos desta índole.
Antes de se ir embora seria interessante dizer quem são os 50 nomes que tem numa lista de despedimentos potenciais dentro da agência Lusa. Sim, pois este senhor mandou fazer assim: ou vão embora por livre vontade ou há uma lista de 50 e faz-se um despedimento colectivo. Por isso, o ambiente na Lusa é de cortar à faca, ninguém sabe quem está na lista e isto é uma forma de tortura pouco democrática, para não dizer mais.
A minha pergunta é: este senhor está cá a fazer o quê? Parece que o PM não vive sem ele. Azarinho. Nosso, claro.
Ontem, um dia tão triste, o director do JN escreveu na última página que aquela coluna em cinza, com a fotografia de Manuel António Pina no topo, não será ocupada por ninguém. De todos os gestos no âmbito dos jornais este foi o mais comovente. Defendi o mesmo face ao espaço que Eduardo Prado Coelho ocupou dez anos no jornal Público, ninguém quis saber. Manuel António Pina escrevia no JN há 30 anos. Ainda bem que há respeito, amor e, claro, saudade.
– mãe, não podemos ter um primeiro-ministro chamado Tozé, ou podemos?
– e quem é que escreve os discursos do 5 de Outubro?
– e este é o último 5 de Outubro? Para o ano passamos do 4 para o 6 directamente?
– e, uma última coisa, se eu fizer uma licenciatura vou para um call center como a minha prima?
Faço contas de mercearia: o deve e o haver em folhas distintas. Não chega.
Há números que significam dinheiro e não chegam.
A vida é tão rara, canta o Lenine. Mas eu não tenho qualquer paciência e não posso parar e, por isso, refaço as contas. É o meu exercício de ignorante enquanto empresária e começo por ser empresária na minha família. O deve e o haver.
Nunca compreendi os números, admito. Dois e dois são quatro? Ok, mas se um dois estiver grávido? Pois. O excesso de imaginação tem estas coisas. Daqui a uns dias, o atelier que mantenho fará 16 anos e tem os dias contados. Daqui a uns dias o meu avô irá morrer. Já sabemos todos. Posso recusar a ideia, mas é certo.
A vida é tão rara. Mas como não tenho paciência e não há cura para o mal, o Lenine de novo, nem posso exercitar o acto de dignidade de sofrer o que for. O sofrimento pode ser um número muito comprido. Pode ser um telefonema que terei de fazer a um fornecedor para dizer… O deve e haver. Se isto fosse um conto, que não é, é a minha vidinha, seria indiferente, porque a literatura é uma suspensão. Na verdade, tudo isto é uma fuga, porque eu queria era ver as asas do meu avô em direcção ao céu.
Ontem, na Bertrand do Chiado, lançou-se o livro Seis histórias de violência com base em casos reais, seis contos assinados por Afonso Cruz, Alice Vieira, António Figueira, Karla Suarez, Maria Teresa Horta e esta vossa amiga. É uma iniciativa da Link que pretende, com as receitas, criar uma casa-abrigo. Os autores cederam os direitos.
Colaboraram neste projecto várias entendidas, dos Booktailors à Bertrand, à Fundação do Montepio Geral.
O livro custa sete euros, tem ilustrações de Pedro Vieira, e deve circular, ser comprado, discutido.
O prefácio, assinado por António Barreto, começa logo por dizer que não há estatísticas sobre violência doméstica ou abusos em Portugal.
Em 1987, Suzanne Vega cantava a história de um miúdo que queria o silêncio e esse pedido era uma forma de pedir ajuda. Para quem souber ouvir.
Quando comecei a trabalhar tinha 17 anos, pouco depois fiz 18. Era O Independente. Respondi a um anúncio e entrei por provas. Fui a única que entrou assim. Aprendi muito, esfolei-me, ri e chorei e ouvi coisas que achei impossíveis. As redacções de jornal não são lugares de grande elevação moral, portanto era muito fácil maldizer a rapariga que por ali trabalhava que nem uma moira. Fui enfiada em várias camas. Várias de pessoas que nem conheço. Homens e mulheres. Quando assumi a minha primeira relação amorosa digna desse nome, alguém me disse, um jornalista do Expresso: não percebo o fascínio que as raparigas têm com os homens cuja sexualidade é duvidosa. Nada me podia doer mais, estava apaixonada. Passou.
Fui aprendendo a defender-me até ao momento em que, passados 26 anos de trabalho activo e muito produtivo (bom e mau, evidente), tenho de explicar aos meus filhos como é que podem ofender ou insinuar coisas sobre mim que não são reais, próximas da verdade. Não sou – nem de perto, nem de longe – a única mãe nestas condições e, felizmente, não sou uma figura que aparece nas revistas ou na televisão dia sim, dia não.
E vem tudo isto a propósito do quê? Muito simples: comentários sem sentido, cheios de uma hostilidade que me faz pensar que o grande elixir da felicidade para algumas pessoas é mesmo o dizer mal, é ser mesquinho, é não saber o significado da palavra empatia. Pior: há pessoas que, por não concordarem connosco, limitam-se a atacar e, muitas vezes (a maioria) sem procurar fundamentos para o tal ataque. São gratuitos na sua brutalidade e estupidez. Ora, é muito saudável concordar que discordamos. É muito bom discutir ideias e não atacar simplesmente. Alguns dos comentários deixados neste blogue, no meu blogue pessoal, no meu mural do Facebook são tão desprezíveis que me envergonham.
Claro que haverá sempre quem não tenha vergonha na cara ou tento na língua. As redes sociais são maravilhosas como forma de partilha. Como arma de ataque são uma cobardia se forem apenas isso: ataque. Posso perder esta batalha e continuar a insistir em algo incrível que é a minha ingenuidade e crença nas pessoas, mas, caramba, a guerra é feita de muitas batalhas e, no fim, não vou estar sozinha.
Behind the TEDTalk 2010 from m ss ng p eces on Vimeo.
Ando há dias a pensar que deveria aceitar, de forma pacífica e sem temor, a sugestão da minha mãe – que tem anos – de viver sem expectativas. Se conseguir atingir tão grande proeza tudo será mais fácil, diz ela, dizem outros. Pode ser que sim. A verdade é que o tempo passa e o cansaço de ser o que se é neste país vai moendo. Não sou pessimista por natureza. Nunca fui. Hoje já não consigo ser optimista. Vejo as notícias pela manhã e tenho vontade de voltar para a cama.
O escritor espanhol Juan José Millás, no jornal El Pais
O cano de uma pistola pelo cu
Por Juan José Millás
Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas – e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país – este, por acaso -, e diz “compro” ou “vendo” com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública – onde estas ainda existem – os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres. E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.”
Então, este tipo faz o que quer?
Quem?
O Relvas?
Não sei. Acho que não.
É o recentemente licenciado?
É esse.
E ninguém o manda embora?
Não.
E porquê?
Talvez seja a sua imensa sabedoria…
Estás parvo.
Sempre.