Entre as várias coisas sobre as quais não falamos está a angústia tremenda de ter um livro à nossa frente que é apenas um documento no computador, sendo que as personagens andam atrás de nós como se fossem uma família de melgas, um sapato que teima em ficar sem salto, um buraco no bolso do casaco. O tempo passa – muito tempo – e revemos, lemos alto e, depois, como no bacalhau, colocamos de molho. À espera que a história nos largue, que o sal desapareça. Mas não: ali está ela, num pormenor do dia, numa frase de alguém, num outro livro, numa música pirosa… A construção de um livro é, dizem, um trabalho difícil. Diria, como Paul Auster, que é insano e que as pessoas que têm uma vida e a desfrutam nunca se sujeitariam a esta espécie de loucura. Perguntarão: pode ser uma boa loucura? Não faço ideia. Escrevo por necessidade. Tem de ser. Mais nada. E depois da história estar escrita, por vezes de rajada, lá ando meses, anos, para trás e para a frente, corto, tiro, acrescento, muda da terceira pessoa para a primeira, odeio o narrador, amo o anti-herói, não resisto a uma memória. A memória é, diz Santo Agostinho, o ventre da alma e os livros são estes depositários de almas. A minha, a existir, estará num livro qualquer, impressa ou por imprimir. Com este livro já não tenho alma, tenho as vísceras e a pele na luminosidade que me agride do computador. Sou a personagem A e B e sei o final e não quero lá chegar. A minha editora acarinha a ideia. As amigas dão empurrões. Os amigos reforçam a necessidade de criar. O meu marido diz-me que escreva e não pense nisso. Tem razão, pensar não é bom.
a obra é humanamente inevitável, mas a arte é só de quem ama e quem ama não pensa, vive.
O amor é dos loucos, os restantes também são precisos, afinal todos tem um lugar neste mundo, se para os loucos é o de amar para os restantes é o de sonhar.
🙂
Uma maravilha de introspecção, Patrícia.
Mas, pensando de forma positiva, sempre haverá o conforto embalador de ler o que já se escreveu e que às tantas até surpreende.
é verdade:)
Os melhores pensamentos que conheço sobre literatura e leitura são de Marcel Proust. Julgo que valerá apenas recordar este:
“… a leitura consiste em receber a comunicação de um outro pensamento mas solitariamente, quer dizer, continuando a gozar da força intelectual que há na solidão e a conversa imediatamente dissipa…”
Proust tinha também especial apreço por esta frase de Descartes:
“A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as melhores pessoas dos séculos passados, que foram seus autores”.
Desculpe a intromissão, mas para expressar a opinião de que escrever ou ler bons textos continuam a ser actos de sublime felicidade. Mesmo quando se narram ou lêem histórias desditosas.
Cpt.
CF
Quem escreve passa meia vida a lutar consigo próprio, entre o desejo e o medo de expor-se. E talvez a outra metade a tentar perdoar-se, não sei.
Gostei de ler-te. É bom, pelo menos, saber que partilhamos as mesmas angústias com outros. Beijo, querida. Não te digo que não deixes de escrever porque não é preciso, sei que vais continuar a fazê-lo…
querida Patrícia
e é um bom conselho, 🙂
http://www.escreveretriste.com/2011/12/e screver/