Dos comentários a uma nova teoria do oásis


escafandro,

Em Dublinesca, de Enrique Vila-Matas, o editor que serve de personagem principal coloca um comentário agressivo no blogue de um barcelonês que não gostou do livro de Paul Auster que levou consigo numa viagem ao Japão. O editor apenas publicou um livro de Auster e não foi aquele (que nem leu) mas, apreciando Auster (sempre irónico, Vila-Matas não nos informa se o editor também aprecia a obra de Auster), sente-se pessoalmente incomodado. Por isso, ataca o blogger na caixa de comentários. Quando termina de o insultar sente-se mais descansado do que nunca. Ultimamente, anda tão susceptível e com a moral tão em baixo, que considera que, se tivesse deixado passar por alto esta injusta opinião sobre o livro de Auster, teria ficado ainda mais deprimido do que estava. (Da edição da Teorema, com tradução de Jorge Fallorca.) Devíamos lembrar-nos disto, ao ler as caixas de comentários de alguns blogues e, em particular, das edições online dos jornais. E depois devíamos ser magnânimos. Afinal, muitas pessoas nem conhecerão aquilo sobre que escrevem. Como o editor, nunca terão lido Brooklyn Follies, o tal livro de Auster. Mas precisam de desabafar. Se não o fizessem, ficariam ainda mais deprimidas. E convenhamos que já andamos todos demasiado deprimidos. Preparava-me assim para terminar este post com «Estejam à vontade: a caixa de comentários é vossa» quando me lembrei de que os comentadores do Delito são inusitadamente ponderados. Se calhar, ao contrário dos dos outros blogues – vá-se lá saber porquê: será o efeito Rui Rocha? –, não andam deprimidos.

11 comentários em “Dos comentários a uma nova teoria do oásis”

  1. hum…também pode ser que sejam pessoas educadas, certo? (embora deprimidas eventualmente) Ou que se esforçem por ser educadas 🙂

  2. Eheheh. Tu e o Rui Rocha são uma espécie de marretas do Delito. E o que é um blogue sem marretas? Uma coisa chata. 🙂

    (ai de ti que te vingues chamando-me Miss Piggy…)

  3. Os meus também o são, não vejo mal nenhum nisso, pelo contrário. Neste espaço, dos autores que já li, todos têm brio e uma certa dose de magia nas palavras. Isso faz pensar com qualidade, e, puxar pela escrita, por isso virou meu blog preferido. Apanhei-lhe o gosto…
    (admito também algum interesse pelo Quarta República)
    Quanto ao Rui Rocha, tem um óptimo sentido de humor, é sempre divertido acompanhar um texto dele.

  4. É, nós humanos gostamos do capricho de contrariar a Natureza. Se os protões e electrões se atraem, por este mundo da blogosfera já serão os idênticos a serem atraídos – fico até a pensar num certo blog mais.. *procurando termo*… in extremis.

    Que por lá fiquem, e nos deixem cá numa elegante e respeitadora ponderação e debate.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *